Sede do partido de esquerda francês LFI evacuada devido a ameaça de bomba. Onze detidos por espancamento e assassínio. Governo francês pede "limpeza" no partido de Mélenchon e considera que a LFI tem responsabilidade direta pela morte de Deranque, por causa do clima de ódio e violência que ajudou a instaurar no país
Paris - A sede em Paris do partido de esquerda francês La France Insoumise (LFI) foi evacuada esta quarta-feira devido a uma ameaça de bomba, depois de a formação fundada por Jean-Luc Mélenchon ter sido acusada de incentivar a violência após o assassínio de um jovem de extrema direita em Lyon. Foi o seu porta-voz nacional, Manuel Bompard, que anunciou nas redes sociais a evacuação e indicou que o edifício tinha sido tomado pela polícia para verificações técnicas.
Esta ameaça de bomba surge no meio de uma tempestade de acusações contra a LFI após a morte de Quentin Deranque no sábado, dois dias depois de ter sido espancado por um grupo de encapuzados que, segundo as investigações, eram membros de um pequeno grupo próximo da LFI.
Vários responsáveis políticos do partido de esquerda consideraram que a ameaça de bomba é fruto dessas acusações, que eles rejeitam.
“Àqueles que procuram intimidar-nos: não cederemos e nunca nos destruirão”, escreveu na rede social X a porta-voz parlamentar, Mathilde Panot, que criticou a “enorme responsabilidade” daqueles que os atacam.
A ameaça de bomba soma-se, disse a responsável, a outros ataques contra o seu partido, como “degradação de sedes e ameaças de morte e violação”.
O governo e outros partidos consideram que a LFI tem responsabilidade direta pela morte de Deranque, pelo clima de ódio e violência que ajudou a instaurar no país.
Onze detidos
Há neste momento onze detidos no caso que têm ligações com o pequeno grupo La Jeune Garde (A Jovem Guarda), fundado pelo atual deputado Raphaël Arnault, cujo assistente parlamentar Jacques-Elie Favrot está entre os detidos.
Duas das onze pessoas foram detidas esta quarta-feira, numa residência na região do Ródano, da qual Lyon é a capital, nas primeiras horas da manhã. Entre os detidos estão as seis pessoas diretamente envolvidas na agressão que resultou no crime, segundo anunciou o procurador Thierry Dran.
Segundo o jornal Le Parisien, trata-se de um jovem que, tal como os restantes detidos, tinha antecedentes por pertencer ao grupo radical La Jeune Garde dissolvido pelo Governo em julho passado devido às suas posições extremistas e violentas.
O detido é suspeito de ter participado no linchamento do jovem Quentin Deranque, um estudante de matemática de 23 anos, próximo de meios de extrema-direita, que morreu no sábado passado num hospital de Lyon, dois dias depois de ter sido espancado.
Junto com ele, foi detida uma jovem que se encontrava na mesma residência e que, segundo o Le Parisien, é acusada de o ter ajudado a fugir da polícia.
Com estas duas novas detenções, são onze os detidos, oito homens e três mulheres, relacionados com este crime que está a marcar a vida política francesa, com acusações ao partido de esquerda La France Insoumise, de Jean-Luc Mélenchon, de apoiar a La Jeune Garde.
Um dos fundadores deste pequeno grupo, Raphaël Arnault, é deputado da LFI na Assembleia Nacional e um dos seus assistentes parlamentares, Jacques-Elie Favrot, está entre os detidos pelo espancamento.
Raphael Arnault, membro eleito do partido de extrema esquerda La France Insoumise (LFI), numa foto de arquivo de 2024, em Paris. (AP Photo/Michel Euler, Arquivo)
Segundo vários meios de comunicação, entre os onze detidos estão os seis encapuzados que a procuradoria tentava identificar como autores materiais do espancamento, conforme se depreende das imagens gravadas por vizinhos.
Nas imagens, é possível ver como três jovens foram cercados por um grupo de encapuzados a cerca de dois quilómetros da faculdade de ciências políticas de Lyon, onde tinham ido para apoiar uma manifestação contra uma conferência da controversa eurodeputada da LFI Rima Hassan.
Após um primeiro confronto entre grupos de extrema esquerda e direita, os três militantes foram perseguidos e encurralados. Dois deles conseguiram escapar, mas Quentin Deranque, que recebeu vários pontapés na cabeça, permaneceu inerte no chão, junto a um poste de iluminação, até que outro amigo o socorreu.
Transportado para o hospital em estado grave, morreu dois dias depois devido a um traumatismo cranioencefálico, segundo a autópsia.
Primeiras detenções já apontavam para a extrema-esquerda francesa
As primeiras detenções foram feitas na terça-feira e apontavam para a responsabilidade da extrema-esquerda francesa, colocando o partido de Jean-Luc Mélenchon numa posição delicada.
Pouco depois de a presidente do grupo parlamentar La France Insoumise, Mathilde Panot, negar qualquer responsabilidade do seu grupo no assassínio, a imprensa avançou que entre os detidos figurava Jacques-Élie Favrot, assistente parlamentar do deputado do seu partido Raphaël Arnault.
Trata-se de um parlamentar controverso, fundador do pequeno grupo antifascista La Jeune Garde, dissolvido pelo governo por causa das suas posições violentas e radicais, ao qual, segundo os média francesas, pertencem os seis agressores de Deranque.
Inicialmente, foram detidas cinco pessoas, todas elas homens com cerca de 20 anos, interrogadas nas instalações da polícia. A estas juntaram-se outras quatro detenções, duas delas mulheres, suspeitas de terem colaborado com os agressores na sua fuga para escapar à detenção. Todas elas têm ligações ao grupo Joven Guardia.
Na véspera do início da campanha para as eleições municipais, o LFI estava na mira dos demais partidos, acusado de defender a La Jeune Garde e de criar com suas declarações um clima de violência que levou ao crime.
O próprio Mélenchon teve de fazer piruetas linguísticas para abordar a questão que ameaça prejudicar as suas ambições eleitorais.
“Na violência, nem todos os golpes são permitidos”, indicou o quatro vezes candidato presidencial, que considerou que os autores do crime “desonraram-se” ao agredir o rapaz “de uma forma que, claramente, poderia conduzir à sua morte”.
Mas, diante daqueles que “querem fazer uso político do crime”, acrescentou que “não é a mesma coisa a violência ofensiva e a defensiva” e afirmou que o militante, estudante de matemática de 23 anos, católico praticante e próximo de círculos patrióticos, “não estava lá por acaso nem tinha ido para brincar”, mas que “o seu objetivo era associar-se a uma milícia”.
Deranque tinha comparecido na quinta-feira passada a uma manifestação convocada pelo grupo identitário de extrema-direita Némésis contra a conferência da controversa eurodeputada da LFI Rima Hassan, na faculdade de Ciências Políticas de Lyon.
Após algumas altercações entre grupos radicais, o jovem e dois dos seus amigos foram seguidos por cerca de vinte encapuzados. Seis deles espancaram-nos. Dois dos ativistas de extrema-direita conseguiram escapar, mas Deranque ficou inerte no chão, com ferimentos na cabeça, o que lhe provocou um traumatismo cranioencefálico que, dois dias depois, lhe causou a morte no hospital para onde foi transferido.
A condenação foi unânime na classe política, que, a pedido do governo, não demorou a apontar a extrema-esquerda como responsável pelo crime.
Suspeitas que parecem confirmar-se com as primeiras detenções que colocam em maus lençóis a LFI e Mélenchon, que no passado defendeu La Jeune Garde e mantém Arnault nas suas fileiras.
O primeiro-ministro francês, Sébastien Lecornu, pediu-lhes que “fizessem uma limpeza nas suas ideias e nas suas fileiras”, ao mesmo tempo que pediu para parar com “a retórica da confrontação” que ameaça transbordar o debate político e chegar à sociedade.
Se for confirmada a implicação dos detidos, que estão a ser interrogados nas instalações policiais, no crime, a LFI e Mélenchon ficará numa posição muito incómoda.
A figura de Favrot deixaria poucas dúvidas sobre a implicação de Arnault, que faz parte do seu grupo parlamentar.
As imagens da violenta agressão, gravadas a partir de edifícios vizinhos, circularam nos meios de comunicação e nas redes sociais e mostravam um grupo de encapuzados a linchar um grupo de três pessoas.
O procurador de Lyon, Thierry Dran, afirmou que procuravam identificar "pelo menos" seis agressores. De acordo com os primeiros elementos da investigação, todos eles constam entre os já detidos.
Governo pediu à esquerda uma "limpeza" - e que exclua deputado
A porta-voz do governo francês, Maud Bregeon, pediu esta quarta-feira ao La France Insoumise que “faça uma limpeza nas suas fileiras” e exclua, pelo menos temporariamente, o deputado Raphaël Arnault, após a detenção de um colaborador seu por possível envolvimento na morte de um jovem de extrema-direita.
Arnault anunciou na terça-feira, após a detenção de Favrot, que iria rescindir o contrato do seu colaborador na Assembleia Nacional.
Em declarações na quarta-feira à emissora France Info, a porta-voz do governo francês lembrou que o LFI, o partido de Jean-Luc Mélenchon, tinha “assumido os laços” com a La Joven Guardia, dissolvida em junho passado por suas posições radicais e violentas.
O ex-presidente francês e atual deputado socialista François Hollande criticou, noutra entrevista ao canal BFMTV, “a dupla responsabilidade da LFI” neste assunto, por ter aceitado ter uma ‘ligação’ com La Jeune Garde e pela vontade de que o debate público seja realizado com “uma certa brutalidade na expressão” para levantar a polarização com a extrema direita.
“A relação terminou”, disse Hollande, ao manifestar a sua opinião de que “não pode haver aliança” entre o Partido Socialista e La France Insoumise para as próximas eleições municipais de março.
Da extrema-direita, o presidente da Agrupación Nacional (RN), Jordan Bardella, considerou que Arnault “não tem lugar na Assembleia” e que nunca deveria ter sido deputado, tendo em conta o seu passado, uma vez que “tem cadastro por atentado contra a segurança do Estado” e tinha sido condenado por atos de violência.