A administração Trump parece estar a reduzir as exigências para pôr fim à guerra com o Irão, afastando-se de objetivos inicialmente mais ambiciosos. A mudança de discurso, agora centrada também nos preços da energia, sugere uma possível tentativa de chegar a um acordo
Um dos maiores problemas da administração Trump para se retirar da guerra com o Irão é a lista de objetivos absolutamente intransigentes que o presidente Donald Trump e a sua equipa estabeleceram.
Os objetivos incluíam a rendição total do Irão, uma mudança de regime, impedir que o Irão obtivesse uma arma nuclear e pôr fim ao apoio de Teerão aos seus grupos aliados no Médio Oriente, como o Hezbollah.
À medida que a guerra - agora no seu sexto mês - se prolongou, esta lista de objetivos mudou e foi reduzida de forma evidente. E o vice-presidente JD Vance parece ter-a reduzido recentemente de uma forma extraordinária, oferecendo a mais recente indicação de que a administração poderá estar a preparar-se para aceitar menos - talvez muito menos.
Numa entrevista à Fox News na quinta-feira, Vance foi questionado sobre como a guerra poderia terminar. E apresentou dois objetivos.
"É garantir que os países do Golfo continuam a enviar petróleo e gás para a economia mundial, para que tenhamos estabilidade nos preços da energia", afirmou, acrescentando: "Esse é o objetivo número um: manter o petróleo e o gás baratos para os americanos em todo o país. E, obviamente, o objetivo número dois é garantir que o Irão nunca obtenha uma arma nuclear."
Esta não é a antiga lista de objetivos da administração - e a ordem pela qual Vance os apresentou é reveladora.
Quando questionada sobre os comentários de Vance na sexta-feira, a secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, afirmou que "ambos os objetivos são igualmente importantes para o Presidente".
A administração quase sempre caracterizou o facto de o Irão nunca obter uma arma nuclear como a preocupação primordial.
E mesmo que os objetivos sejam realmente iguais na mente da administração, incluir os preços do petróleo e do gás - e não outros pontos - representa uma mudança significativa.
Na verdade, Trump rejeitou explicitamente este objetivo em maio. Quando lhe perguntaram se tinha em consideração a situação financeira dos americanos ao tentar resolver a guerra, Trump respondeu: "Nem um pouco". Deu a entender que a desnuclearização era tão importante que não tinha em conta mais nada.
(Trump repetiu essa ideia na sexta-feira, afirmando que "nunca pediria desculpa" pelo facto de os americanos pagarem um pouco mais pela gasolina, tendo em conta o que está em jogo no Irão.)
Escrevi em março sobre a forma como a administração enumerava frequentemente quatro objetivos para a guerra - mas como os quatro objetivos variavam frequentemente consoante quem falava.
Algumas listas incluíam o fim do financiamento dos grupos aliados, por exemplo, enquanto outras não. Algumas mencionavam a destruição da infraestrutura de mísseis do Irão, enquanto outras a omitiam. Algumas mencionavam a eliminação da força aérea e da marinha iranianas, mas outras referiam apenas a marinha.
Era como se a administração estivesse a elaborar a lista em tempo real.
Mas o ponto fundamental aqui é que nenhuma dessas listas incluía manter baixos os preços do petróleo e do gás nos Estados Unidos.
E dado que o Estreito de Ormuz estava aberto antes do início da guerra, esse objetivo específico pode ser interpretado simplesmente como um regresso ao status quo anterior à guerra - sendo a desnuclearização o único objetivo que representaria uma nova conquista.
Na verdade, a nova ênfase nos preços baixos dos combustíveis por parte de alguns elementos da administração parece ser o mais recente sinal de que os objetivos estão a ser flexibilizados para preparar uma conclusão da guerra que fique muito aquém das ambições iniciais de Trump.
Em maio, tornou-se claro que a administração já não iria dar destaque a determinados objetivos.
Em junho, a administração Trump assinou com o Irão um memorando de entendimento que praticamente não mencionava objetivos anteriormente considerados centrais para os Estados Unidos.
E, nos últimos dois meses e mais, Trump tem feito declarações que pareciam indicar que poderia reduzir as suas exigências em matéria nuclear.
Enquanto anteriormente a administração sublinhava que o Irão teria de entregar o seu urânio enriquecido, Trump tem falado sobre a possibilidade de os danos causados ao programa nuclear iraniano terem sido suficientes e de os materiais nucleares estarem enterrados demasiado fundo para poderem ser recuperados. O presidente também falou sobre a possibilidade de o Governo norte-americano simplesmente monitorizar a situação a partir do espaço para garantir que o Irão não tentaria recuperá-los.
Chegou mesmo a afirmar que o Irão já estava desnuclearizado.
Por outras palavras, Trump soava como alguém que sabia que poderia não conseguir obrigar o Irão a aceitar um acordo nuclear verdadeiramente restritivo.
A sua administração falar dos preços da energia como "objetivo número um" - mesmo que Trump não o faça - encaixaria perfeitamente nesta evolução para longe dos objetivos rígidos que a administração estabeleceu.
Se um regresso ao status quo anterior à guerra é realmente o "objetivo número um" neste momento, isso diz muito sobre o pouco que esta guerra conseguiu alcançar.
