MUNDIAL 2026

Saiba tudo aqui
Mais sobre o Mundial 2026

Javier Cercas: "Trump é o pior sintoma de uma doença mundial, o nacional-populismo. Não é fascismo, é outra perversão: pessoas que atacam a democracia crendo que a defendem"

1 jul, 18:00
Adicione a CNN como fonte preferidaSiga-nos no Google News ?Saiba mais

GRANDE ENTREVISTA || "A democracia perfeita é uma ditadura", diz Javier Cercas, para quem, em Espanha, o franquismo "cheirava a merda. Não quero isso, quero uma democracia.” Ora, "a Europa é, neste momento, o bastião da democracia no mundo” e a possibilidade de ela se unir e tornar-se uma superpotência é o que assusta os EUA e a Rússia. E se a Igreja Católica “é a coisa mais estranha do mundo”, o escritor diz que a fé da sua mãe era bem menos hesitante que a do Papa Francisco. Grande entrevista ao escritor na sua visita a Portugal, “país de poetas”

O autor espanhol é um dos cabeças-de-cartaz da primeira edição do Babell, o festival da Fundação Livraria Lello no Porto. Cercas não concebe a escrita sem “humildade e coragem” e afirma que a Igreja Católica “é a coisa mais estranha do mundo”. Mas reserva as palavras mais duras para Trump: “É o símbolo visível, e o pior sintoma, de uma doença mundial, ocidental, que se chama nacional-populismo”.

 

CNN Portugal - Consta que o seu plano inicial era tornar-se um escritor fixe para ter muitas namoradas. Como lida com as expectativas em relação à sua carreira como escritor? Foi mais longe do que tinha imaginado ou ficou aquém das expectativas?
Javier Cercas - Depende do que se entende por carreira. Se ser escritor é ter muitos leitores, ganhar a vida com isso, ser traduzido para muitas línguas, receber prémios e tudo isso, então tenho de dizer que nunca tive essas expetativas, nunca me passou pela cabeça. Desse ponto de vista, as expetativas foram superadas. O que eu queria era ser escritor. Queria escrever o melhor possível, mas nunca me passou pela cabeça a ideia de ser escritor profissional. Estar aqui, no Porto, ter muitos leitores em Portugal e em muitos outros lugares. Nunca imaginei que tal coisa pudesse acontecer.

CNN - Em que momento percebeu que tinha conseguido, que era mesmo um escritor profissional?
JC - Quando publiquei um livro intitulado "Soldados de Salamina". Eu tinha quase 40 anos, já tinha publicado muitos livros antes… muitos não, mas alguns livros que a minha mãe, o meu pai, as minhas irmãs e alguns amigos tinham lido. E isso parecia-me normal, nunca me queixei. Mas o que aconteceu com esse livro foi muito estranho: foi um "best-seller" em muitos países, e continua a ser muito lido. Mas em Espanha foi outra coisa, atingiu dimensões estratosféricas.

CNN - E não é um livro fácil…
JC - Os livros de que gosto são os mais fáceis. Há um que se chama "Dom Quixote da Mancha", que é mesmo muito fácil, é o melhor livro do mundo. Não sei se ["Soldados de Salamina"] é fácil. É um livro especial, disso não tenho dúvidas. Não é um livro convencional, mas os livros convencionais são maus, não são? É por isso que são convencionais. A verdade é que esse livro foi um sucesso comercial colossal — não só em Espanha, em todo o mundo. A partir desse momento, felizmente, tive muitos leitores e continuo a tê-los. Mas enfim, eu já tinha 40 anos. O sucesso de um escritor é escrever o melhor livro possível. E ainda estou a tentar fazer isso.

CNN - Onde e quando escreve? O que faz para escrever o melhor livro possível?
JC - Trabalhar. O segredo é trabalhar... e rezar, se fores crente.

CNN - Mas o Javier não é crente.
JC - Não sou. Mas não importa, rezo na mesma.

O escritor espanhol Javier Cercas numa foto de arquivo, a 29 de abril de 2025. Foto de Federico Parra / AFP via Getty Images

O sucesso de um escritor é escrever o melhor livro possível. E ainda estou a tentar fazer isso

CNN - Reza a quê, ou a quem?
JC - A Cervantes. Aos grandes [escritores]. A sorte também conta. É preciso ter muita paciência e saber que o máximo a que um escritor pode aspirar, como dizia [William] Faulkner, é a colher um fracasso digno. É preciso tentar e tentar, sabendo que o êxito é um impostor. O êxito e o fracasso, como dizia [Rudyard] Kipling, são impostores. Mas é preciso continuar na luta e dar o melhor de nós. Na verdade, é isso que tem piada, não é? O grande prazer é fazer aquilo que sentimos que estamos chamados a fazer.  [Jorge Luis] Borges, que é um dos meus mestres, se não mesmo o meu mestre fundamental, dizia que o prazer de escrever, para ele, era o prazer de cumprir o seu próprio destino. E isso é muito bom, é um prazer imenso. Tenho 64 anos e já sei que era isso o que queria fazer. Percebi-o relativamente cedo, embora escrever não seja apenas um prazer. É uma paixão, e a paixão, por vezes, traz consigo angústia e amarguras.

CNN - E sacrifícios. Continua a ser um prazer para si? Roberto Bolaño disse uma vez que, se pudesse, passaria o dia a ler, porque escrever é uma escravidão e uma chatice, dá muito trabalho. Concorda?
JC- Não, de todo. Dá trabalho, sim, mas então por que é que ele escreveu? Não vejo sentido nisso.

CNN - Segundo ele, para ganhar a vida.
JC - Não, não ganhava a vida com isso. Nunca ganhou a vida com isso, de forma alguma.

CNN - Ele dizia que, se ganhasse a lotaria, deixaria de escrever.
JC - Os escritores dizemos coisas destas às vezes para causar boa impressão.

CNN - O Javier disse, noutra ocasião, que o pior da vida de escritor é ir a festivais, a mesas redondas... e dar entrevistas como esta que estamos a fazer agora. Continua a ser a parte mais aborrecida para si?
JC - Na verdade, isso não faz bem parte da vida do escritor. O que o escritor faz é escrever. Sinto que estou a cumprir o meu destino, como dizia Borges, quando estou a escrever. Estas coisas, como estar aqui agora, sinto que tenho de as fazer, mas não são, essencialmente, o meu trabalho. No entanto, quando as faço, tento aproveitar ao máximo.

Uma das poucas certezas que tenho é que o protagonista da literatura não é o autor. Isso é um mal-entendido romântico; o protagonista da literatura é o leitor, a pessoa que termina os livros.

CNN - Sim, já agora. Ossos do ofício...
JC - É como falar com os leitores. Esta noite [26 de junho] vou ao Porto para falar com muitos leitores, para muitos leitores. Levo isso muito a sério e tento divertir-me o mais possível, porque uma das poucas certezas que tenho é que o protagonista da literatura não é o autor. Isso é um mal-entendido romântico; o protagonista da literatura é o leitor, a pessoa que termina os livros. Já o disse muitas vezes, mas nunca me canso de o repetir: um livro é uma partitura, e é o leitor que a interpreta. Cada leitor interpreta-a à sua maneira, e é nisso que reside o feitiço, a magia da literatura. Um livro sem leitores é letra morta. Quando o leitor abre as suas páginas e começa a ler, essa letra morta ganha vida. Além disso, é uma vida nova em cada caso, porque cada leitor investe ou infunde no livro a sua própria experiência, a sua vida. É possível imaginar a literatura sem autores. Se todos os autores desaparecessem agora, a literatura continuaria a existir. Mas é impossível imaginar a literatura sem leitores. Por isso, sei que os leitores e as leitoras que terei no futuro são aqueles que dão vida, aqueles que dão sentido à literatura. À minha e à dos melhores [escritores], a de Cervantes, a de Shakespeare. Por isso, sinto um enorme respeito pelo leitor.

Sem humildade, não se pode ser um bom escritor. Acho que é impossível. A humildade e a coragem são as principais virtudes.

CNN - Escreveu um livro chamado "O Impostor". Já alguma vez sentiu, ou acha que pode vir a sentir, a síndrome do impostor?
JC - Sinto-a constantemente. Agora, por exemplo: por que é que me estão a fazer todas estas perguntas? Sinto-a constantemente, exceto quando escrevo. Quando escrevo, sinto que estou a fazer o que tenho de fazer, que sou eu mesmo.

CNN - Tem essa convicção.
JC - Sim, e além disso é uma convicção que não é inventada, não é ilusória. É verdadeira. O verdadeiro eu do escritor é aquele que está nos livros. O outro é um impostor, no meu caso e nos outros. O verdadeiro Cervantes é aquele que está no Dom Quixote. É aí que está realmente o autor. Já a pessoa de carne e osso é um pouco vã, um pouco difusa. Shakespeare é ainda mais difuso porque praticamente nada sabemos sobre ele. Era uma pessoa interessante? Talvez não. Por que tem de ser interessante? O que importa é que aquilo que escreveu era interessante. Eu deveria escrever sobre este assunto… as pessoas pensam que é um cliché, que os escritores têm de ser pessoas com muito ego, com grande arrogância.

CNN - Há alguns assim…
JC - Os maus. Os melhores são os mais humildes. Acho que a humildade é, se não a principal virtude, uma das principais virtudes do escritor. Os melhores escritores que conheci são os mais humildes, e o melhor de todos era um senhor chamado Cervantes, o mais humilde de todos. Tinha uma humildade militante, e basta ler o «Dom Quixote» para perceber isso, porque olha para toda a gente com um respeito espantoso, dos mais altos aos mais baixos. A humildade é isso. Sem humildade, não se pode ser um bom escritor. Acho que é impossível. A humildade e a coragem são as principais virtudes.

A democracia espanhola é insuficiente, medíocre e merece todas as críticas. É muito imperfeita, mas a democracia perfeita não existe. A democracia perfeita é uma ditadura.

CNN - Escreveu um livro sobre "El País", o grande jornal da democracia; outro sobre o episódio mais importante da Transição, que consolidou a democracia em Espanha. Podemos dizer que é um escritor do chamado "Regime de 1978"?
JC - Se o "Regime de 78" for a democracia espanhola, adoraria ser esse escritor. Porque gosto de viver numa democracia, adoro.

CNN - Também foi o que lhe calhou em sorte...
JC - Não, eu nasci numa ditadura. Nasci em 1962, ainda faltavam 13 anos para o fim do franquismo. Senti o cheiro do franquismo, percebi o que era.

CNN - E não cheirava bem, pois não?
JC - Cheirava a merda. Não quero isso, quero uma democracia. Se há algo em que acredito politicamente é na democracia, que significa o poder do povo, e o povo somos todos nós. A designação "Regime de 78" é uma designação depreciativa para a democracia espanhola. O que essa designação, inventada há relativamente pouco tempo, quer dizer, é que a democracia espanhola não é uma democracia, mas sim o franquismo por outros meios. O franquismo era conhecido como regime, era "o" regime. "Regime de 78" significa que a democracia espanhola não é uma democracia. Isso é uma mentira. A democracia espanhola é insuficiente, medíocre e merece todas as críticas. É muito imperfeita, mas a democracia perfeita não existe. A democracia perfeita é uma ditadura. O franquismo autodenominava-se "democracia orgânica". Era perfeita, não se podia mexer nela. Assim que foi tocada, desmoronou-se. O que define uma democracia é o facto de ser aperfeiçoável, infinitamente aperfeiçoável. A democracia espanhola é isso mesmo — aliás, não é triunfalismo, porque, de facto, em todos os "rankings" de qualidade democrática, está entre as democracias plenas do mundo, no grupo da frente. Se alguém me chamar de escritor do "Regime de 78", ou seja, da democracia espanhola, fico muito contente. Prefiro ser o escritor de uma democracia do que o escritor de uma ditadura.

Não há nada menos normal no mundo do que a Igreja Católica. É a coisa mais estranha do mundo.

CNN - Também escreveu um livro sobre o Papa Francisco. Vai escrever um livro sobre Felipe VI?
JC - Nunca se sabe [risos]. Em primeiro lugar, ["O Louco de Deus no Fim do Mundo"] não é um livro sobre o Papa, é sobre a Igreja Católica. Em segundo lugar, era uma inquietação que eu tinha há algum tempo. O que se passa com a religião? O que fazemos com a religião agora que vivemos num mundo sem Deus, para usar a frase de [Friedrich] Nietzsche? Vivemos num mundo sem Deus, embora continue a haver muitos crentes. Mas o que podemos fazer com isso? Era uma pergunta que eu tinha e, de repente, por um milagre, o Vaticano abriu-me as suas portas de par em par. Foi em maio de 2023. A Igreja Católica nunca tinha aberto as portas a um escritor, e muito menos a um escritor como eu, ateu e anticlerical — tal como o Papa Francisco, que era anticlerical, não ateu. Às vezes pergunto-me: como é possível que um escritor como eu aceite escrever um livro assim? A minha resposta é outra pergunta: como é que não vou aceitar escrever um livro assim? A Igreja Católica, sobretudo em Portugal, Espanha, Itália, França… países onde o cristianismo teve uma presença avassaladora, parece-nos algo normal. Não há nada menos normal no mundo do que a Igreja Católica. É a coisa mais estranha do mundo. Não existe nenhuma, nenhuma instituição como essa, nem remotamente semelhante. Com mais de 2000 anos de existência, tem sido e continua a ser totalmente determinante para a história, para a cultura, a política, a arte, a ética… para tudo. Então, se por um milagre, abrirem as portas a um escritor pela primeira vez, e esse escritor for eu… bem, como dizer que não? Foi por isso que escrevi esse livro. Surgiu de uma oportunidade e também de uma necessidade profunda. No dia em que me fizeram essa proposta, em Turim, nessa mesma noite pensei na minha mãe. A minha mãe era uma pessoa profundamente crente, seriamente católica. A certa altura do livro diz-se que, se compararmos a fé da minha mãe com a do Papa Francisco, a do Papa Francisco era um tanto ou quanto hesitante. Era uma daquelas mulheres espanholas… em Portugal também as houve, em todo o lado.

Se compararmos a fé da minha mãe com a do Papa Francisco, a do Papa Francisco era um tanto ou quanto hesitante.

CNN - Já as houve, e ainda as há.
JC - Ainda as há, claro. Crentes inabaláveis. Quando o meu pai morreu, ela dizia que o iria ver depois da morte. E a minha mãe não dizia isso porque lhe tivesse ocorrido a ela, certo? A minha mãe dizia isso porque está no cerne do cristianismo. Surpreendentemente, muitos cristãos esqueceram-se disso, mas está no cerne do cristianismo.

É o que diz São Paulo, que, de certa forma, inventou o cristianismo. Paulo diz: “Nós ressuscitaremos porque Cristo ressuscitou, e se Cristo não ressuscitou, vã é a nossa fé”. A nossa fé não serve para nada. E quando me lembrei disso, soube do que iria tratar este livro. Este livro trata de um louco sem Deus. Eu, tal como a imensa maioria dos europeus e ocidentais, educados no cristianismo e que, em algum momento, perderam a fé, sou um louco sem Deus. O louco de Deus é Francisco, porque é o primeiro Papa que se autodenominou Francisco, tal como Francisco de Assis, que se autodenominava “o louco de Deus”. Um louco sem Deus que vai à procura do louco de Deus até ao fim do mundo, porque eu viajo com ele até à Mongólia para lhe fazer a pergunta mais elementar e mais central, a mais simples e a mais complexa do cristianismo.

A minha mãe vai ver o meu pai depois da morte? Sim ou não? O Papa é a máxima autoridade da Igreja, o único que, para um católico, tem autoridade para responder a essa pergunta. Fui para lhe fazer essa pergunta, ouvir a resposta e levá-la de volta à minha mãe. É disso que trata este livro. No fundo, todos os meus livros são romances policiais. Todos os romances que me interessam, os meus e os dos melhores escritores — Cervantes, Kafka — são, de certa forma, romances policiais, porque em todos há um enigma e alguém que tenta decifrá-lo. E esse é o cerne, o centro do romance policial. Este romance também é assim. A diferença é que, neste romance, o enigma é o enigma dos enigmas, o enigma central do cristianismo e, por conseguinte, um dos enigmas centrais da nossa civilização.

Todos os romances que me interessam, os meus e os dos melhores escritores — Cervantes, Kafka — são, de certa forma, romances policiais, porque em todos há um enigma e alguém que tenta decifrá-lo.

CNN - Ou seja, se há vida depois da morte.
JC - A ressurreição da carne e a vida eterna, como diz o Credo, não é verdade? É disso que trata, na verdade, este livro. É dessa urgência que surge este livro.

CNN - Nesse mesmo livro demonstra grande familiaridade com José Tolentino de Mendonça e com a obra de Mário Cesariny. Que outras figuras portuguesas tem vindo a descobrir? Ou que figuras portuguesas atuais, literárias e artísticas, lhe chamam a atenção?
JC - Não posso dizer que conheça bem a literatura portuguesa, mas há alguns escritores portugueses que foram importantes para mim. Pessoa é, provavelmente, o mais importante. Descobri-o ainda muito jovem, tinha 18 ou 19 anos quando o "Livro do Desassossego" foi traduzido para espanhol. A primeira tradução causou-me um verdadeiro choque.

Javier Cercas, foto de arquivo, outubro de 2021. Foto de Leonardo Cendamo/Getty Images

Eça de Queiroz é um escritor que, numa determinada época, me encantou. Há tantos… agora há muitos jovens, muita gente que escreve e muitos poetas, porque Portugal é um país de poetas. 

 

NN - O que achou chocante nesse livro?
JC - Fiquei chocado com imensas coisas, mas o mais surpreendente foi ver como uma inteligência podia ser inimiga de alguém, e como isso se podia manifestar num cenário. Esse livro é um cenário. Bernardo Soares é a inteligência, a encarnação da inteligência transformada em inimiga de si mesma. E isso é um espetáculo espantoso, de uma lucidez espantosa. E depois fui descobrindo alguns dos muitos heterónimos, acho que são mais de 50…

CNN - Os mais conhecidos são três ou quatro, mas sim…
JC - Caeiro, Reis… esses foram os primeiros que conheci. E isso foi deslumbrante. Li Camões com deslumbramento, mas apenas uma vez; devia voltar a lê-lo. Eça de Queiroz é um escritor que, numa determinada época, me encantou. Há tantos… agora há muitos jovens, muita gente que escreve e muitos poetas, porque Portugal é um país de poetas.

Tolentino de Mendonça aparece no livro como uma personagem. Eu não o conhecia e, na verdade, também não o conheço assim tão bem, mas tenho uma longa conversa com ele. No livro aparecem muitas conversas com pessoas do Vaticano, de fora do Vaticano, com missionários na Mongólia… O livro é uma viagem à Mongólia, que é um lugar muito exótico, mas, acima de tudo, é uma viagem ao Vaticano, que é muito mais exótico do que a Mongólia. Tive o privilégio de poder conversar com muitas pessoas próximas do Papa, que ocupam cargos de grande responsabilidade, como é o caso do cardeal Tolentino, do cardeal Fernández… Amigos íntimos do Papa, intelectuais, leigos, etc. Mas também pessoas comuns e missionários, que são, talvez, algumas das figuras mais impressionantes do livro.

Só obedeço a duas pessoas. Uma já faleceu, que era a minha mãe, e a outra também já faleceu, embora esteja bem viva, que é Cervantes

O livro é um romance, mas não é ficção — é muito importante referir isto. Uma das principais virtudes de um romance é a capacidade de absorver e integrar todos os outros géneros. "O Louco de Deus», tal como outros livros meus, abrange vários géneros: reportagem, ensaio, biografia, autobiografia, livro de história. Há quem diga que é um tratado de teologia escrito por um ateu. Já disseram de tudo e, em parte, pode ser lido dessa forma; mas, no fim de contas, é um romance, porque, embora não haja nada de ficção, nada no livro foi inventado. Como é que eu iria inventar algo tão incrível como a ressurreição da carne ou a vida eterna? Ou como a Igreja Católica? É uma loucura. Não há nada inventado, mas é um romance porque está construído como um romance, e porque o romance para mim, tem a extraordinária capacidade de integrar todos os outros géneros, de os transcender e transformá-los noutra coisa.

Alguns dos meus romances são romances sem ficção. Sei que a condição necessária, em teoria, para um romance, é que seja uma ficção. Historicamente, tem sido assim, mas atrevi-me a dar mais um passo, que é criar romances sem ficção. E por que o fiz? Por uma razão muito simples: porque só obedeço a duas pessoas. Uma já faleceu, que era a minha mãe, e a outra também já faleceu, embora esteja bem viva, que é Cervantes. Só oiço o que ele diz, e ele disse-me: "Faz o que quiseres". É isto que diz Cervantes, a lição mais importante de Cervantes. No romance, um género que ele inventou sem saber que o estava a inventar, porque não tinha consciência disso, a única regra é que não há regras. Aqui vale tudo, é a liberdade total. Então, disse a mim mesmo, num determinado momento, num livro intitulado "Anatomia de um Instante": se preciso de prescindir da ficção, porque não o vou fazer? Cervantes disse-me: "Faz o que quiseres".

CNN - E não lhe tem corrido mal.
JC - Bem, parece que não. O livro continua a ter muitos leitores, tal como os meus outros livros.

CNN - Deu-se essa liberdade a si próprio, por assim dizer.
JC - Não, foi o Cervantes que ma concedeu, e concede-a a todos nós. A questão é que não a usamos. O século XIX deu-nos um modelo de romance e ficámos um pouco presos a ele. Mas com o romance podem fazer-se muitas coisas. Eu tento fazê-las, à minha maneira.

Trump é o símbolo visível, e o pior sintoma, de uma doença mundial, ocidental, que se chama nacional-populismo. É uma doença política que tem muitas manifestações, mas não é fascismo.

CNN - Noam Chomsky diz que a Administração Trump é uma espécie de circo com três pistas que mantêm o público em estado de choque. As pessoas estão distraídas e, enquanto isso, os que trabalham nas sombras favorecem as elites e deixam a população desprotegida face a fenómenos como as alterações climáticas. Concorda? É um truque de ilusionismo para aprovar medidas que vão contra a maioria das pessoas?
JC - Contra a maioria das pessoas e a favor da família Trump. Parece-me evidente, é uma calamidade. Chomsky tem razão, claro; mas, por vezes, vê a realidade apenas através do filtro norte-americano, o que o impede de ver algumas coisas que estão fora desse foco. Uma das piores coisas do trumpismo é que não afeta apenas os Estados Unidos, está a permear a política mundial. É um modelo para a política mundial. Trump é o símbolo visível, e o pior sintoma, de uma doença mundial, ocidental, que se chama nacional-populismo. É uma doença política que tem muitas manifestações, mas não é fascismo. Acho que o Chomsky rejeitaria esse rótulo, e eu concordo com ele. O fascismo é um fenómeno histórico; há elementos do fascismo no nacional-populismo, mas é outra coisa, de certa forma, mais perigosa. E está em todo o lado.

CNN - Por que razão é mais perigosa?
JC - Porque o fascismo era um regime, uma ideologia abertamente contrária à democracia. O fascismo considerava que a democracia era algo ultrapassado…

CNN - Era fraca, frágil…
JC - Antiga, inútil... e por isso era preciso acabar com ela, inclusive com métodos violentos. A dialética dos punhos e das armas de que falava José Antonio Primo de Rivera, o líder do fascismo espanhol, era inequivocamente antidemocrática. O nacional-populismo é mais perverso, ataca a democracia em nome da democracia. E isso é muito mais perverso, porque o que faz é esvaziar a democracia. Há muitos exemplos desta perversão; o ataque ao Capitólio foi o mais visível. As pessoas esqueceram-se de que os tipos que assaltaram o Capitólio não o fizeram com o intuito de acabar com a democracia norte-americana. Diziam que iam salvá-la: “Estão a roubar-nos a democracia”. Trata-se de um ataque flagrante e evidente à democracia, em nome da própria democracia. E isso não o vemos apenas nos Estados Unidos; estamos a vê-lo em muitos lugares. Isso é muito perigoso, porque há pessoas que acreditam estar a defender a democracia, quando, na realidade, por vezes, a estão a atacar. Trump é o símbolo, o sintoma mais visível dessa perversão. Vamos ver o que acontece, ainda não encontrámos o antídoto. É preciso lembrar que o fascismo acabou por provocar a Segunda Guerra Mundial. Esperemos que isso não se repita e que tenhamos aprendido alguma coisa.

A Europa é, neste momento, o bastião da democracia no mundo. Estamos muito insatisfeitos com a forma como funciona. É frágil, é insuficiente. Aspiro a uma Europa federal, capaz de conciliar a unidade política com a diversidade linguística e cultural.

CNN - Tenho as minhas dúvidas.
JC - Eu também, só que agora dispomos de instrumentos que antes não tínhamos. Vou referir o mais evidente e talvez pense que é frágil, mas é extremamente importante. Temos algo chamado União Europeia. A união da Europa é a única utopia razoável que inventámos, e a Europa é, neste momento, o bastião da democracia no mundo. Estamos muito insatisfeitos com a forma como funciona. É frágil, é insuficiente. Aspiro a uma Europa federal, capaz de conciliar a unidade política com a diversidade linguística e cultural. Há 25 anos que ando a dizer isto, em todo o lado. Dizem que sou um sonhador, mas pessoas como Mario Draghi, que não é um sonhador, estão a falar de federalismo. Temos instrumentos que nos podem proteger, se os aproveitarmos ao máximo, contra esta praga.

CNN - Esse federalismo é compatível com a formação de alianças com outras potências médias, como o Canadá, a Austrália ou a Coreia do Sul, face às superpotências?
JC - Eu discordo daquilo que disse, apesar de ter sido muito elogiado…

Ema Europa unida seria uma superpotência, teria capacidade para enfrentar os Estados Unidos. Pode pensar-se que é difícil, mas não é. É preciso empenhar-se nisso e acreditar nisso. É o projeto mais revolucionário e mais ambicioso do século XXI.

CNN - O discurso de Mark Carney?
JC - Sim, o do primeiro-ministro canadiano. Discordo. Se a Europa se unir, não é uma potência média, é uma superpotência! Mas tem de se unir, essa é a questão. Por que razão é a Europa, para Donald Trump e para Putin, o inimigo principal? Porque sabem que, se a Europa se unisse de verdade, se houvesse um exército europeu que unisse os exércitos nacionais [dos Estados-membros]… Isto para falar do aspeto mais duro, o militar. A economia da União Europeia, antes da saída do Reino Unido, era a mais poderosa do mundo e agora é a segunda ou a terceira. Portanto, não é uma potência média. A França é uma potência média, tal como o Canadá, etc. Mas uma Europa unida seria uma superpotência, teria capacidade para enfrentar os Estados Unidos. Pode pensar-se que é difícil, mas não é. É preciso empenhar-se nisso e acreditar nisso. É o projeto mais revolucionário e mais ambicioso do século XXI. Sei que é difícil, porque nunca se fez nada assim. Nunca na história países que estiveram permanentemente em guerra uns contra os outros — e essa é a história da Europa — se uniram de repente em prol do bem-estar comum.

CNN - Sim, mas nós, europeus, há 70 anos que estamos a construir algo semelhante a isso…
JC - Claro! Temos uma moeda comum, um sistema judicial comum. Temos muitas coisas em comum que antes eram inimagináveis.

CNN - Em Espanha, há um primeiro-ministro que está a ser atacado por todo o lado. Diz-se que, em qualquer outro país democrático, um primeiro-ministro rodeado de corrupção como Pedro Sánchez já se teria demitido. Acha que vai sobreviver? Ou que Sánchez deveria resistir perante um contexto inflamável, com a ameaça da extrema-direita, de partidos como o Vox ou a Aliança Catalã?
JC - As eleições são daqui a um ano, se tanto. Pedro Sánchez tem uma reputação muito boa no estrangeiro porque fez o que devia fazer: condenar o que se estava a passar em Gaza, as atrocidades cometidas por Israel com a cumplicidade dos Estados Unidos. Condená-las é exatamente o que se deve fazer, na minha opinião. Condenar a violação do direito internacional, defender um mundo regido pelo direito e não pela força, etc. A nível interno, tem problemas de corrupção muito graves. Isto não é muito divulgado no exterior, mas são muito graves. A sua mulher, o seu irmão, o seu antigo braço direito condenado a 24 anos… há uma série de casos terríveis. Votei nele duas vezes. Há um ano, quando esses casos de corrupção começaram, o que propus foi o que [Keir] Starmer fez; isto é, afastar-se.

CNN - Dar um passo ao lado.
JC - Claro, e que haja outro candidato; o PSOE tem muita gente. Um passo ao lado, ou para trás, e que outra pessoa, não rodeada de corrupção, assuma a liderança do partido. Vamos ver o que acontece com o ex-primeiro-ministro [Rodríguez] Zapatero, amigo íntimo de Sánchez, que também foi acusado e está à espera de um julgamento grave. Outra pessoa talvez poderia conduzir a esquerda, em melhores condições, a novas eleições. Em Portugal está o caso de [António] Costa, que se demitiu sem hesitar quando aconteceu algo muito menos grave...

CNN - Muito tangencial comparado com este assunto.
JC - Sem qualquer importância comparado com isto. Costa disse, lembro-me muito bem, que o primeiro-ministro não pode estar sob suspeita.

CNN - Invocou a dignidade do cargo.
JC - Claro, é uma obviedade. Depois, as consequências disso poderiam ser positivas ou negativas. Há quem ache que não, que se abre a porta à extrema-direita. Tudo bem, mas as coisas podiam ter sido feitas muito melhor, não é verdade? Isso não significa que ele não tenha feito o que estava certo. A situação agora é muito difícil [para Sánchez], não sei o que vai acontecer. A situação interna em Espanha não é boa e, além disso, não está a fazer uma política muito de esquerda. Votei nele, mas há um problema enorme com a habitação, uma desigualdade enorme. Os grandes números, a macroeconomia, funcionam bem; a microeconomia não funciona bem, [o dinheiro] não chega às pessoas. O que caracteriza a esquerda é que [esse dinheiro] tem de chegar às pessoas. É preciso impedir que a extrema-direita chegue ao poder e isso é possível. A doença já chegou a Espanha, mas pode ser evitada, e para isso é preciso que os partidos políticos sejam responsáveis, mas eles estão a pensar…

CNN - A curto prazo.
JC - Sim, os partidos políticos espanhóis funcionam muito mal, são clubes antidemocráticos. Não existe democracia interna. Vamos ver o que acontece. Não sou vidente.

CNN - Bem sei. Boa sorte e que o festival corra bem. Muito obrigado pela entrevista.
JC - Muito obrigado por ter falado de outros assuntos, não só de política.

Relacionados

Informação em todas as frentes, sem distrações? Navegue sem anúncios e aceda a benefícios exclusivos.
TORNE-SE PREMIUM

Artes

Mais Artes