"Os riscos das alterações climáticas estão perante nós". Japão antecipa verão sufocante

Agência Lusa , AG
11 abr, 07:49
Calor no Japão (David Mareuil/Getty Images)

Falta de preparação dos sistemas de segurança construídos no passado preocupa as autoridades

O Japão está a antecipar mais um verão sufocante, com um risco crescente de inundações e deslizes de terras, com os termómetros a dispararem e a queima de combustíveis fósseis que alimenta as alterações climáticas a continuar no mundo.

Os dirigentes nipónicos esforçam-se para proteger as comunidades e prometeram reduzir as emissões de gases com efeito de estufa, mas no curto prazo um clima mais agressivo permanece um ameaça.

“Os riscos das alterações climáticas estão perante nós”, disse Yasuaki Hijioka, vice-diretor do Centro para a Adaptação às Alterações Climáticas do Instituto Nacional para os Estudos do Ambiente, em Tsukuba, a nordeste do Tóquio.

“Em princípio, pode-se tentar escapar de uma inundação. Mas o calor afeta uma área de tal modo vasta, que quase não há escapatória. Todos são afetados”, acrescentou.

Segurança datada

O Japão já tem propensão para fenómenos como sismos, tsunamis e tufões. A proteção das infraestruturas tem permitido manter as pessoas seguras na maior parte dos casos. Mas as alterações climáticas significam que as comunidades são apanhadas com frequências de surpresa, uma vez que os seus sistemas foram concebidos para as condições do clima do passado.

“Se levar uma rede elétrica concebida para o século XX para um novo século de extremos de aquecimento e calor, então vai ter de considerar se os seus sistemas de energia e cuidados de saúde estão realmente preparados para um planeta que está a aquecer”, disse Kim Cobb, diretor do Instituto para o Ambiente e a Sociedade da Universidade de Brown.

No ano passado, registaram-se mais de 200 recordes de temperaturas em cidades ao longo do Japão, o que colocou a rede elétrica perto da utilização plena e levou mais de 71 mil pessoas para os hospitais por causa de insolações, durante os meses de maio a setembro.

Os doentes eram idosos na sua maioria, mas também foram hospitalizadas quantidades significativas de crianças e adultos de meia-idade. Por esta causa morreram 80 pessoas.

O tempo mais quente significa também mais humidade, o que acrescenta inundações e deslizes de terra às previsões para o verão, algo a que o Japão tem assistido com uma frequência crescente.

Em 2019, comboios de alta velocidade ficaram parcialmente submersos nas inundações causadas pelo tufão Hagibis. Casas e autoestradas ficaram sob terras, que deslizaram. Túneis inundados retiveram pessoas e carros. As barragens não conseguiram suportar uma chuva surpreendentemente forte e persistente.

A investigação de Hijioka foca-se na gestão de inundações, como o desvio de água dos rios a transbordar para campos de arroz e lagoas para as prevenir.

O problema com o ar condicionado

Para evitar mortes por insolação, há uma proposta de lei vai designar alguns edifícios nas comunidades, como livrarias com ar condicionado, como abrigos. Este tipo de lei ao nível nacional é uma novidade no Japão.

Apesar de o Japão ter uma economia avançada, algumas pessoas não conseguem pagar para ter ar condicionado, em particular nas zonas não habituadas ao calor.

“Há mais pessoas mortas por insolação do que por inundações a partir de rios no Japão”, disse Hijioka.

Michio Kawamiya, diretor do Centro de Investigação para a Modelação e Aplicação Ambiental, e a sua equipa investigam as temperaturas elevadas do Japão e como podem afetar as pessoas.

Entre as suas descobertas estão a de que as cerejeiras, desde 1953, florescem, em média, um dia mais cedo por década, as folhas mudam de cor 2,8 dias mais tarde por década e que o risco de tufões aumentou, ao contrário da quantidade de neve que cai, apesar de permanecer o risco de fortes nevões.

O Japão fez progressos na redução dos gases com efeito de estufa que emite, mas continua a ser o sexto maior emissor mundial. Depois do desastre na central nuclear de Fukushima, em 2011, o país terminou com a geração de energia nuclear, mas, infelizmente para o clima, investiu em centrais de carvão, bem como em importações de petróleo e gás. E as centrais nucleares começaram a ser reativadas desde então.

Pela positiva, os seus excelentes transportes públicos de massa mantiveram os carros fora das estradas. Alguns japoneses têm desligado o ar condicionado para poupar energia, mas isso tem implicações de saúde, porque ocorre precisamente quando o calor está a atingir níveis perigosamente elevados.

Vozes críticas têm apontado o dever de o Japão investir mais nas energias renováveis, como solar e eólica. O plano do governo é o de obter um terço da oferta energética a partir das renováveis até 2030 e acabar com o recurso ao carvão algures na década de 2040.

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