Guterres em Hiroshima: “A humanidade está a brincar com uma arma carregada”

6 ago, 06:21

Na primeira cidade atacada com uma bomba nuclear, o secretário-geral da ONU voltou a apelar à abolição destas armas. Primeiro-ministro japonês prometeu “todo o esforço” para um mundo sem arsenais atómicos

Setenta e sete anos depois da bomba atómica lançada sobre Hiroshima, o secretário-geral da ONU foi à cidade-mártir deixar um aviso: “A humanidade está a brincar com uma arma carregada”. E renovou o apelo para que os líderes dos países que têm arsenais nucleares abdiquem dessas armas. 

“As armas nucleares são um disparate”, disse Guterres, acrescentando que e há uma única forma de garantir que não acabam por provocar a aniquilação total: “só há uma solução para a ameaça nuclear - não ter armas nucleares”.

As palavras de Guterres acabam por repetir o apelo feito na sede da ONU, no início da semana, por ocasião do início dos trabalhos para a revisão do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares. Mas tiveram o peso de ser pronunciadas no local onde se comprovou, pela primeira vez, o poder destruidor destas bombas - e perante dezenas de sobreviventes desse dia, e centenas de descendentes e familiares dos que morreram na explosão ou das suas consequências (140 mil pessoas, só nesse dia, e nos cinco meses seguintes).

As palavras sombrias do português foram recebidas com um aplauso forte das mais de três mil pessoas que assistiam à cerimónia. Apesar do calor e humidade quase insuportáveis, não houve quem perdesse a pose solene. Só as palmas pontuais interrompiam o silêncio reverencial com que o público assistiu ao evento, que se prolongou por uma hora.

Exatamente às 8h15, a hora a que a “bomba A” foi detonada sobre o local onde hoje existe o Parque Memorial da Paz, ouviu-se o sino, tocado por dois jovens. O som reverberou e encheu o espaço. Para além do sino, só se ouviam as aves do parque e as cigarras, a banda sonora omnipresente do verão japonês.

Sombra da Ucrânia e nova corrida às armas

Quando Guterres subiu ao palanque, já o presidente da câmara de Hiroshima tinha feito a tradicional “declaração da paz”. Este ano, ensombrada pela guerra na Europa. Kazumi Matsui, o anfitrião da cerimónia, denunciou o impacto da agressão russa à Ucrânia, que está a alimentar uma nova corrida ao nuclear. “Está a ganhar espaço a ideia de que só se consegue a paz com dissuasão nuclear”, lamentou o mayor, como já havia dito em entrevista exclusiva à CNN Portugal. 

"Aceitar o status quo e abandonar o ideal de paz mantida sem força militar é ameaçar a própria sobrevivência da raça humana. Temos de parar de repetir os mesmo erros”, alertou Matsui.

Também o líder da ONU referiu que "as crises com graves implicações nucleares estão a alastrar rapidamente”, e citou “o Médio Oriente, a Península da Coreia, a invasão russa da Ucrânia".

“Uma nova corrida às armas está a acontecer, a uma velocidade cada vez maior”, denunciou Guterres, questionando-se: “o que aprendemos com a nuvem em forma de cogumelo que inchou por cima desta cidade?”

PM japonês reafirma recusa total de armas nucleares

Esta semana começou em Nova Iorque a conferência da ONU para a revisão do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP). Nesse encontro, Guterres considerou que vivemos “um momento de perigo nuclear como não se via desde o auge da Guerra Fria”. “Hoje, a humanidade está apenas a um mal-entendido, um erro de cálculo, da aniquilação nuclear“, admitiu o antigo primeiro-ministro português.

O chefe do governo do Japão esteve na abertura dessa conferência, num gesto inédito. Apesar do empenhamento que o Japão costuma assumir em questões de não proliferação, nunca um primeiro-ministro nipónico se havia envolvido tanto numa revisão do TNP. A comunicação social japonesa revelou que mesmo dentro do Governo japonês houve quem discordasse da ida de Kishida a Nova Iorque, para uma conferência cujos resultados práticos são improváveis. Mas o governante insistiu - a família de Kishida é originária de Hiroshima, e este sempre foi o círculo pelo qual foi eleito deputado, desde o início da sua carreira.

No discurso deste sábado, o chefe do governo nipónico lembrou a sua ligação pessoal à “cidade bombardeada de Hiroshima”, e prometeu “todo o esforço para concretizar um mundo livre de bombas atómicas”.

No plano interno, o chefe do governo também assumiu um compromisso forte com a manutenção dos “três princípios de não nuclear” do Japão: não produzir armas atómicas, não as possuir e não as permitir no seu território - uma garantia em resposta a algumas vozes no seu partido que começam a apelar à colocação de mísseis nucleares dos EUA no Japão como forma de dissuasão contra possíveis ataques inimigos, venham eles da Coreia do Norte ou de algum outro vizinho problemático, como a China ou a Rússia.

A tarefa assumida por Kishida não será fácil. Implica, segundo o próprio, ligar a "realidade" de um ambiente de segurança global que está  em deterioração com o "ideal" de um mundo sem armas nucleares.

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