A terceira maior economia do mundo volta a fechar-se: precaução ou exagero?

CNN
30 nov 2021, 06:43
Primeiro-ministro japonês, Fumio Kishida, com o secretário-geral ONU, António Guterres
Primeiro-ministro japonês, Fumio Kishida, com o secretário-geral ONU, António Guterres

Primeiro, foi Israel. Depois, o Japão. Foram os dois primeiros países a decidir fechar-se ao mundo em consequência da descoberta da nova variante do SARS-Cov2, aparentemente a mais contagiosa de todas as que surgiram até hoje. O encerramento das fronteiras no Japão não esperou pela confirmação do primeiro caso de Ómicron no país: foi confirmado esta terça-feira

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O Japão, terceira maior economia do mundo, opta - ainda que temporariamente - por fechar-se aos estrangeiros, depois de poucas semanas em que ensaiou uma princípio de reabertura. A China, a segunda maior economia do mundo, está fechada desde o início da pandemia, numa política de “covid zero”. No pódio das maiores economias mundiais só os EUA mantêm fronteiras abertas, embora já tenham imposto novas restrições por causa da variante Ómicron.

No Japão, a decisão anunciada na segunda-feira pelo primeiro-ministro Fumio Kishida tem sido aplaudida por uns e criticada por outros. Há quem aponte o dedo a uma medida exagerada e sem bases científicas, e quem valorize a rapidez com que o Governo de Tóquio reagiu ao novo cenário de incerteza.

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No passado, quando surgiram as variantes Alfa e Delta, o antecessor de Kishida, Yoshihide Suga, foi acusado de ter demorado demasiado a reagir a essas novas ameaças. Suga acabou por se afastar do cargo após os Jogos Olímpicos, em boa medida devido às críticas de que foi alvo por causa da sua gestão da pandemia. O atual primeiro-ministro, que está em funções desde outubro, não arriscou ser alvo das mesmas críticas. A medida foi anunciada um dia antes de ser confirmado o primeiro caso, um viajante oriundo da Namíbia.

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Kishida mostrou-se determinado nas decisões, mas cauteloso na justificação. “Esta é uma medida preventiva e de emergência, para evitar o pior cenário”, explicou o chefe do Governo na conferência de imprensa em que anunciou o fecho quase total de fronteiras. “É fundamental que respondamos à situação de forma rápida e flexível”, continuou, mostrando-se aberto a alterar o quadro de medidas assim que a ciência tenha mais respostas.

“É necessário mais investigação para determinar o quão contagiosa é a variante Ómicron, e se as vacinas ainda são eficazes na prevenção da transmissão ou sintomas graves”.

Até haver mais certezas, as regras são as seguintes: a partir desta terça-feira, e durante o próximo mês, todos os viajantes estrangeiros estão impedidos de entrar no Japão, qualquer que seja o seu destino de origem.

Só será admitida a entrada de cidadãos japoneses ou de estrangeiros que tenham autorização de residência no país. Mas os que cheguem de qualquer país onde a variante já esteja identificada (como é o caso de Portugal) ficam sujeitos a um período de quarentena obrigatória de 10 dias em instalações determinadas pelas autoridades, sob vigilância médica (os chamados hotéis de quarentena). As refeições são entregues à porta do quarto, três vezes por dia, e as pessoas ficam impedidas de deixar esses alojamentos sob qualquer pretexto até ao final dos dez dias de isolamento.

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O fecho de fronteiras não é uma decisão nova. Foi, desde o início da pandemia, uma das principais armas do executivo japonês para controlar a disseminação da covid no país. Logo na primeira vaga da pandemia, o Japão fechou fronteiras de forma bastante rigorosa - durante algum tempo, nem aos diplomatas estrangeiros era permitido entrar.

Mesmo quando os indicadores da pandemia permitiram o retomar dos voos internacionais, em 2019 e 2020, o Japão manteve a política de fronteiras fechadas. Os poucos que recebiam visto de entrada eram diplomatas, ou altos quadros de empresas com autorização de residência, e pouco mais. Por regra, passavam por rigorosos controlos: teste PCR negativo no aeroporto de origem; novo teste PCR no aeroporto de chegada no Japão; três dias de isolamento num hotel de quarentena sob vigilância das autoridades e, em caso de teste negativo, podiam então seguir para outros 14 dias de isolamento em casa ou no seu hotel (o período de quarentena foi entretanto reduzido para 10 dias para quem já tenha as duas doses das vacinas reconhecidas pelo Japão - Pfizer e Moderna).

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Só no início deste mês, quase dois anos após os primeiros casos de SARS-Cov2, essas regras foram aliviadas. Continuou a proibição de entrada de turistas, mas abriu-se uma nesga para os estudantes estrangeiros com autorização para estudar no Japão, e para curtas viagens de negócios - a economia japonesa tem-se ressentido bastante do isolamento em que o país entrou, como mostram os dados do PIB no terceiro trimestre deste ano, que ficaram bastante aquém das expetativas dos analistas, e também longe do crescimento registado por outros países da região que optaram por políticas de fronteira menos agressivas.

Este relaxamento decidido há menos de um mês, que deveria ser o primeiro passo de uma reabertura gradual, acaba de ser revertido por causa da variante Ómicron.

O controlo rigoroso das fronteiras do Japão contrasta com as medidas relativamente suaves que são impostas dentro do país. Nunca houve lockdown no Japão, até porque o confinamento generalizado é uma impossibilidade legal. A Constituição japonesa dá muito pouca margem ao Governo para tomar medidas que limitem as liberdades individuais.

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O auge dessas limitações aconteceu na primeira vaga, quando as escolas foram fechadas, espetáculos foram cancelados, o horário dos restaurantes foi fortemente reduzido e a venda de alcool em estabelecimentos de restauração foi proibida. Houve várias declarações de estado de emergência em 2020 e 2021 - nomeadamente quando a coincidência da variante Delta e a realização dos Jogos Olímpicos fizeram disparar o número de contágios, colocando o sistema de saúde sob enorme pressão. Mas mesmo nesses períodos, a principal restrição legal tinha a ver com restrições à restauração, à realização de espetáculos e limitação da vida noturna.

Apesar dos instrumentos legais serem muito limitados, as recomendações oficiais são geralmente acatadas pela população. A principal dessas recomendações foi o apelo ao teletrabalho nos períodos mais agudos da pandemia - com impacto real na mobilidade dos cidadãos, sobretudo em grandes cidades como Tóquio, cuja área metropolitana concentra quase um terço dos 126 milhões de habitantes do país.

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Para já, só com um caso da nova variante e com uma baixíssima incidência da pandemia, a vida de todos os dias não sofreu qualquer alteração devido à nova variante. O Metro de Tóquio circula sobrelotado nas horas de ponta, mas salta à vista o uso generalizado de máscaras - uma prática que não começou com a covid, mas que o novo coronavirus tornou ainda mais comum. É quase impossível encontrar alguém sem máscara nas ruas ou nos transportes públicos.

Com cerca de 77% da população vacinada com duas doses, o Japão é o país do G7 com maior cobertura vacinal. Nos últimos dias, as autoridades reforçaram o apelo para que os mais idosos e os profissionais de saúde recebam o reforço da vacina.

A esperança é, com o controlo de fronteiras, impedir - ou pelo menos retardar - a entrada da nova variante no país.

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