Tóquio apela aos cidadãos que usem gola alta no inverno para reduzir o consumo de energia

21 nov, 03:57
Dia de inverno em Shibuya, Tóquio

Governadora da metrópole diz que a gola alta é "uma das ferramentas" para os cidadãos se manterem aquecidos, sem sobrecarregarem as contas de eletricidade e a rede energética da capital.

A governadora de Tóquio, Yuriko Koike, tem uma sugestão para que os habitantes desta metrópole se mantenham quentes no inverno, sem sobrecarregarem demasiado as contas de eletricidade ou a rede elétrica da região: usar camisola de gola alta. "O aquecimento do pescoço tem um efeito térmico. Eu própria estou a usar um gola alta, e usar um lenço também mantém [o pescoço] quente. Isto vai poupar eletricidade", disse Koike numa conferência de imprensa, citada pela agência France-Presse.

A governadora, usando ela própria uma camisola de gola alta debaixo do casaco, encorajou os residentes de Tóquio a fazer o mesmo, tanto para se manterem quentes durante o inverno como enquanto forma de reduzir o consumo de energia. "Esta é uma das ferramentas para atravessarmos juntos o duro ambiente energético do Inverno", disse, acrescentando que o presidente francês Emmanuel Macron está "a assumir a liderança no uso da gola alta".

As autoridades japonesas estão preocupadas com o consumo de energia neste inverno, tendo em conta a grande dependência energética do país, as disrupções nas entregas de energia e a instabilidade nos preços internacionais de crude e gás natural, duas das principais importações do país. O inverno no Japão costuma ser rigoroso, sobretudo nas regiões a norte de Tóquio. Mas mesmo a capital é frequentemente atingida por temperaturas em torno dos zero graus durante os meses de janeiro e fevereiro, que por vezes provocam queda de neve.

Em contrapartida, os verões costumam ser muito quentes e sufocantes em Tóquio, bem como em todo o território a sul da capital, com os termómetros a subir acima dos 35ºC e uma sensação térmica ainda mais alta devido aos níveis de humidade, que podem ultrapassar os 80%.

Tanto as temperaturas de inverno como as de verão têm como consequência picos de consumo de eletricidade, seja para aquecer as casas e locais de trabalho, seja para as refrescar. No verão passado, Tóquio fez vários alertas de rutura de fornecimento de eletricidade, devido ao níveis extremamente altos de consumo para alimentar os ares condicionados de milhões de lares e locais de trabalho (a cidade de Tóquio tem mais de 13 milhões de habitantes, e a área metropolitana ultrapassa os 37 milhões).

No último verão houve mesmo falhas na rede de energia da região metropolitana, sob uma enorme pressão da procura. As autoridades temem agora que o mesmo possa suceder conforme as temperaturas descem e os ares condicionados são mudados para o modo de aquecimento.

O formalismo e conservadorismo da sociedade japonesa ditam a tradição do uso de fato e gravata nos locais de trabalho, quer seja em funções de escritório ou atendimento ao público, ou mesmo motoristas de táxi e todo o tipo de transportes públicos. Fato e gravata é a farda de trabalho de milhões de "salary men", faça frio ou faça calor. As autoridades têm tentado contrariar essa tradição, para que os trabalhadores usem roupas mais apropriadas às temperaturas, sobretudo no pico do verão e do inverno.

O Japão já lançou várias campanhas para encorajar o uso de vestuário mais casual, sem gravata, para poupar energia durante os verões escaldantes do país. As campanhas de verão têm o mote "Cool Biz" (que se pode traduzir como "negócios frescos") e as campanhas de inverno têm o nome "Warm Biz" ("negócios aquecidos").

O apelo da governadora de Tóquio para o uso de gola alta é mais uma tentativa de contrariar a tradição, a bem do alívio da fatura energética, pressionada pela instabilidade dos mercados internacionais de combustíveis fósseis.

O Japão é uma das economias avançadas mais dependentes da importação de energia, sobretudo desde o acidente da central nuclear de Fukushima, em 2011. Nessa altura, quase todas as centrais foram desconectadas da rede de energia do país, para serem sujeitas a uma revisão profunda das suas condições de segurança. Vários reatores foram definitivamente desligados. Dos 33 reatores que se mantêm operacionais, só 10 estão conectados à rede de distribuição, e nem todos estão a trabalhar a tempo inteiro.

O primeiro-ministro Fumio Kishida anunciou, em agosto, um ambicioso pacote de investimento nas centrais nucleares do Japão, acelerando a reconexão dos reatores cujas condições de segurança foram revistas, assim como a construção de vários reatores de nova geração, mais pequenos e seguros, que irão reduzir a dependência energética do país e cortar na fatura das importações de combustíveis fósseis de fornecedores como a Austrália, os estados do Golfo Pérsico ou... a Rússia.

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