Japão reforça pactos de defesa com Reino Unido e EUA

6 mai, 05:23
Fumio Kishida em Londres com Boris Johnson

Primeiro-ministro nipónico esteve em Londres e chegou a acordo de princípio com Boris Johnson sobre novo pacto de defesa bilateral. Nos EUA, o ministro da Defesa do Japão e o seu homólogo concordaram em reforçar a cooperação militar. Pentágono disponibiliza a "gama completa" de capacidades nucleares e de defesa convencional dos EUA

Com a invasão russa da Ucrânia a abrir um novo capítulo no desafio à ordem internacional baseada em regras e nas normas da Carta das Nações Unidas, e com a China a surgir cada vez mais como uma super-potência económica e militar com uma atitude agressiva em relação aos seus vizinhos, o Japão tem feito tudo para reforçar os pactos de segurança e defesa com os seus aliados ocidentais. Esta quinta-feira, o primeiro-ministro Fumio Kishida esteve em Londres e chegou a um acordo de princípio com Boris Johnson para um novo pacto de defesa entre os dois países. Quase em simultâneo, o ministro da Defesa nipónico esteve no Pentágono para reforçar a cooperação militar com os EUA.

Em Londres, Kishida e Johnson esboçaram o que virá a ser um novo pacto de cooperação em matéria de defesa entre Londres e Tóquio. O acordo de princípio visa garantir um "Indo-Pacífico livre e aberto", em contraponto às ambições expansionistas de uma China cada vez mais assertiva no Oceano Pacífico, e ao tom cada vez mais beligerante da Rússia em relação ao Japão.

O objetivo de Londres e Tóquio é assinar um acordo de acesso recíproco (RAA, nas iniciais inglesas), que, quando assinado, permitirá um destacamento mais rápido das tropas de ambos os países em caso de necessidade de apoio militar. Um RAA, juntamente com um acordo de aquisição e de serviço cruzado que permite às nações partilharem munições e fornecimentos, será um grande salto na cooperação de defesa entre as duas capitais. O futuro pacto permitirá também às forças de ambos os países participar em ações conjuntas de formação e de socorro em caso de catástrofe. 

O Japão assinou em janeiro um RAA semelhante com a Austrália, naquele que foi então apresentado como acordo histórico, pois Tóquio apenas tinha um pacto de segurança e defesa deste género, com os EUA, o principal parceiro militar dos japoneses desde a sua derrota na II Guerra Mundial.

Após o acordo com a Austrália, Kishida pretende assinar um pacto semelhante com o Reino Unido, aproximando ainda mais o Japão dos países do AUKUS, o novo pacto de segurança trilateral assinado entre EUA, Austrália e Reino Unido em setembro de 2021.

 

"A Ucrânia pode ser a Ásia Oriental de amanhã"

 

O chefe do governo nipónico esteve em Londres no final de uma tournée diplomática de uma semana que o levou à Indonésia, Vietname, Tailândia, Itália e Reino Unido. No encontro com Boris Johnson, Kishida agradeceu o crescente envolvimento da Grã-Bretanha na região Indo-Pacífico. Segundo a agência de notícias Kyodo News, os dois líderes expressaram "forte preocupação" com as tentativas unilaterais de alterar o status quo nos mares do Sul da China e da China Oriental, e com o "rápido mas não transparente" desenvolvimento de atividades militares naquela área do globo - uma referência à emergência da China como grande potência militar da região, com forte presença da sua Marinha de guerra e a expansão da sua zona de influência até ao Pacífico Sul, com o recente acordo de cooperação e segurança com as Ilhas Salomão.

As tentativas de “coerção económica” também foram condenadas por Kishida e Johnson, noutra referência velada a um instrumento de pressão cada vez mais utilizado por parte de Pequim.

"A Ucrânia pode ser a Ásia Oriental de amanhã", disse Kishida numa conferência de imprensa em Londres, após um encontro com Johnson. Palavras que ecoam os receios de que Pequim venha a utilizar as lições da invasão russa para uma eventual invasão da ilha democrática de Taiwan no futuro.

"A agressão da Rússia não é uma questão apenas para a Europa. A ordem internacional que abrange o Indo-Pacífico está em jogo", reiterou Kishida.

 

Pentágono promete "gama completa" de capacidades nucleares e de defesa convencional

 

Em simultâneo com a viagem de Kishida à Europa, o seu ministro da Defesa, Nobuo Kishi, deslocou-se aos Estados Unidos, onde se encontrou com o seu homólogo, Lloyd Austin. Os responsáveis pela Defesa dos dois países concordaram em alinhar as respetivas estratégias de segurança e reforçar a cooperação militar, de modo a dissuadir qualquer tentativa de alterar o status quo pela força no Indo-Pacífico.

De acordo com o Ministério da Defesa do Japão, citado pela Kyodo News, Kishi transmitiu a "forte determinação" do Japão em reforçar de forma significativa as suas capacidades de defesa. Austin congratulou-se com essa determinação e reafirmou o empenho dos EUA na defesa do Japão. Esse envolvimento, disse, inclui a capacidade de dissuasão alargada apoiada pela "gama completa" de capacidades nucleares e de defesa convencional dos EUA, assegurou o chefe do Departamento de Defesa, durante a reunião no Pentágono.

 

Momento de mudança para a Defesa do Japão

 

O aprofundamento da cooperação entre Tóquio e os seus grandes aliados ocidentais em matérias de segurança e defesa acontece num momento crucial para o futuro das políticas de Defesa do Japão. 

O país confronta-se com uma ameaça tripla por parte de países da região: a crescente assertividade da China como super-potência económica e militar; o regresso da ameaça militar por parte da Coreia do Norte; a deterioração das relações com a Rússia após a invasão da Ucrânia.

A crescente tensão com a China é um dado dos últimos anos, a permanente ameaça colocada pela Coreia do Norte faz parte da paisagem da região também há bastante tempo, mas a súbita hostilidade da Rússia contraria um processo de aproximação entre Tóquio e Moscovo ao longo das últimas duas décadas. Tanto a China como a Rússia têm disputas territoriais com o Japão desde a II Guerra Mundial, que nunca foram sanadas, e que nos últimos tempos têm justificado posições mais agressivas nas declarações das respetivas chancelarias.

O Japão planeia actualizar este ano a sua Estratégia de Segurança Nacional, e a guerra da Rússia contra a Ucrânia levou Tóquio a mudar a forma como encara este país vizinho - é provável que na futura Estratégia de Segurança Nacional Moscovo seja descrito como um “desafio de segurança”, e já não como um parceiro de segurança, conforme é classificado do documento que está atualmente em vigor.

A guerra no Leste da Europa, o regresso dos ensaios de mísseis balísticos da Coreia do Norte - em abril um deles atingiu a Zona Económica Exclusiva do Japão - e as constantes incursões de navios de guerra chineses em águas nipónicas têm dado um novo impulso para Tóquio reforçar as suas capacidades de defesa e dissuasão. 

O Partido Liberal Democrático, do primeiro-ministro Kishida, propôs recentemente um aumento substancial das despesas com a Defesa - possivelmente para um montante equivalente a 2% do produto interno bruto acima do actual 1% - e o desenvolvimento de uma capacidade de ataque a posições de lançamento de mísseis em território inimigo. Essa possibilidade é, no entanto, apresentada como uma forma de defesa contra ameaças externas. 

A concretizar-se essa mudança, será uma revolução em relação a toda a história do Japão desde a II Guerra Mundial. O país tem uma Constituição com uma norma pacifista, que proíbe o recurso à guerra como meio de resolução de conflitos. As forças armadas japonesas são chamadas Forças de Auto Defesa, porque a lei fundamental proíbe expressamente a possibilidade de ataques militares por parte do país. Porém, perante a atual preocupação sobre a defesa do país, há no partido maioritário quem admita uma revisão constitucional que atenue a renúncia absoluta à guerra. 

 

Taiwan pode ser a próxima Ucrânia?

 

No Pentágono, o ministro da Defesa nipónico disse que o ataque da Rússia ao seu vizinho é "um sério desafio à ordem internacional" e que "tal mudança unilateral do status quo pela força é uma preocupação também na região Indo-Pacífico". O secretário da Defesa dos EUA concordou que a agressão da Rússia tem implicações "muito para além da Europa" devido ao desafio que representa para a ordem baseada em regras.

O comportamento da China, disse Austin, ameaça minar as "normas, valores e instituições comuns que sustentam essa ordem". 

A invasão russa do seu vizinho suscitou preocupação em Tóquio sobre se Taiwan poderia ser a "próxima Ucrânia", caso a China opte por forçar a reunificação com a ilha, que é uma democracia com autogoverno desde 1949. Tal gesto poderia levar os Estados Unidos a entrar em conflito com a China, e colocaria também sérios desafios de segurança ao Japão, tanto por ser um aliado dos EUA, como pela proximidade geográfica em relação a Taiwan e a existência da disputa territorial sobre as ilhas Senkaku, no sul do arquipélago nipónico.

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