Estes croquetes são uma loucura e a fila de espera para os provar é de mais de 30 anos (não, não leu mal)

CNN , Maggie Hiufu Wong e Tetsu Sukegawa
20 nov, 10:00
Há uma lista de espera de 30 anos para provar estes croquetes de carne japoneses. (Imagem Asahiya)

Quem encomendar uma caixa de croquetes congelados de carne de vaca Kobe de Asahiya, um talho em Takasago, na prefeitura de Hyogo, no oeste do Japão, vai ter de esperar mais de 30 anos até receber a sua remessa.

Não, não leu mal. Trinta. Anos.

Asahiya, fundada em 1926, vendia produtos de carne da prefeitura de Hyogo, incluindo a carne de Kobe, durante décadas antes de introduzir os croquetes de carne no menu, nos anos que se seguiram à Segunda Guerra Mundial.

Porém, só no início dos anos 2000 é que estes pastéis de batata e carne de vaca fritos se tornaram uma autêntica sensação na Internet, o que resultou numa fila de espera quase sem precedentes.

Uma ideia de negócio desfavorável

Os cobiçados Extreme Croquettes são um dos quatro tipos de croquetes de carne Kobe disponíveis na Asahiya. Não consegue esperar três décadas? Os croquetes Premier Kobe Beef da loja têm uma lista de espera mais agradável de só quatro anos.

“Começámos a vender os nossos produtos online em 1999”, explica Shigeru Nitta, proprietário de terceira geração da Asahiya. “Nessa altura, oferecíamos Extreme Croquettes para os clientes experimentarem.”

Ao crescer em Hyogo, Nitta visita os ranchos locais e os leilões de carne de bovino com o seu pai desde muito jovem. Em 1994, quando tinha 30 anos de idade, ficou à frente da loja do seu pai.

Depois de experimentar o comércio online durante alguns anos, percebeu que os clientes estavam hesitantes em pagar uma grande quantia por carne de vaca de primeira qualidade através da Internet.

Shigeru Nitta é o proprietário de terceira geração da Asahiya (Imagem Asahiya)

Foi aí que tomou uma decisão arrojada.

“Vendemos os Extreme Croquettes ao preço de 270 ienes (1,86€) por peça. A carne de vaca neles contida custa cerca de 400 ienes (2,76€) por peça”, diz Nitta.

“Criámos estes croquetes saborosos a preços acessíveis que demonstram o conceito da nossa loja como uma estratégia. Primeiro, os clientes apreciam os croquetes e, depois, esperamos que eles gostem o suficiente para comprarem a nossa carne Kobe."

Para minimizar a perda financeira inicial, a Asahiya produzia apenas 200 croquetes na sua própria cozinha ao lado da loja, todas as semanas.

“Vendemos a carne criada pelas pessoas que conhecemos. A nossa loja só vende carne que foi produzida na província de Hyogo, quer se trate de carne de vaca Kobe, de porco Kobe ou de frango Tajima. Este tem sido o método da nossa loja desde muito antes de eu me tornar no proprietário”, conta.

O avô de Nitta costumava ir de bicicleta até Sanda, outra zona popular de criação de Wagyu, em Hyogo, com um carrinho de mão para ir pessoalmente buscar os produtos.

“Uma vez que por volta desse período a nossa loja tinha ligações com os produtores locais de carne de bovino, não precisávamos de os ir buscar ao exterior da prefeitura”, acrescenta Nitta.

A produção acelera e a popularidade cresce

O preço baixo dos Extreme Croquettes não transparece a qualidade dos ingredientes utilizados. São feitos no dia a dia, sem conservantes. Os ingredientes incluem carne de vaca Kobe com três anos de idade e batatas provenientes de um rancho local.

Nitta diz que encorajou o rancho a utilizar estrume de vaca para cultivar as batatas. Os caules das batatas servirão depois de alimento às vacas, criando um ciclo.

Eventualmente, a sua conceção incomparável chamou a atenção dos habitantes locais e dos meios de comunicação social. No início dos anos 2000, quando saiu uma reportagem sobre os croquetes de Asahiya, a sua popularidade disparou.

“Deixámos de os vender em 2016 porque o tempo de espera ultrapassou os 14 anos. Estávamos a pensar parar as encomendas, mas recebemos muitas chamadas a pedir para continuar”, indica Nitta.

Os Extreme Croquettes são feitos com carne Kobe fêmea de três anos de idade com classificação A5 (Imagem Asahiya)

A Asahiya recomeçou a aceitar encomendas para estes croquetes em 2017, mas aumentou o preço.

“Nessa altura, aumentámos o preço para 500 ienes (3,45€)/540 ienes (3,73€) com imposto sobre o consumo. Mas desde que a exportação de carne de vaca Kobe começou, os preços da carne de vaca duplicaram, portanto o facto de a produção de croquetes ser deficitária não se alterou”, afirma.

A produção também foi aumentada de 200 croquetes por semana para 200 croquetes por dia.

“A realidade é que os Extreme Croquettes ficaram muito mais populares do que outros produtos”, Nitta ri-se, ridicularizando a sua própria ideia de negócio que lhe faz perder dinheiro.

“Já nos disseram que devíamos contratar mais pessoas e fazer croquetes mais rapidamente, mas penso que não há nenhum dono de loja que contrate empregados e produza mais para fazer mais défice... Peço desculpa por fazer os clientes esperar. Quero fazer croquetes rapidamente e enviá-los o mais depressa possível, mas se o fizer, a loja vai à falência.”

Felizmente, Nitta diz que cerca de metade das pessoas que experimentam os croquetes acabam por encomendar a sua carne Kobe, portanto, acaba por ser uma boa estratégia de marketing.

A missão de Nitta: que mais pessoas apreciem a carne Kobe

Cada caixa de Extreme Croquettes, que inclui cinco peças, é vendida por 2.700 ienes (18,64€).

A loja envia uma newsletter regular aos clientes em espera, que os atualiza com a previsão de envio mais recente. Uma semana antes da data de entrega, a loja confirma a entrega com os clientes pacientes mais uma vez.

“Com o passar do tempo, é natural que haja pessoas que mudaram os seus endereços de correio eletrónico. Nestes casos, telefonamos-lhes diretamente e avisamo-los da data de entrega. Elas próprias podem alterar o seu endereço através do nosso website ou, quando lhes telefonamos, podem avisar-nos”, esclarece Nitta.

Os clientes que estão neste momento a receber os croquetes fizeram as suas encomendas há cerca de 10 anos.

Ter uma lista de 30 anos de encomendas não rentáveis a cumprir pode ser stressante, especialmente porque o preço da carne Kobe e do trabalho continua a subir. Contudo, um fator mais importante tem encorajado a Nitta a continuar.

O tempo de espera para estes 'Extreme Croquettes' congelados é de cerca de 30 anos neste momento (Imagem Asahiya)

“Quando comecei a vender croquetes na Internet, recebi muitas encomendas de ilhas distantes e isoladas. A maioria deles tinha ouvido falar da carne de Kobe na televisão, mas nunca a tinha provado porque tinham de ir às cidades se quisessem experimentar. Apercebi-me de que havia muitas pessoas que nunca tinham comido carne de vaca Kobe. É por essa razão que continuei a oferecer croquetes para provarem e recebo mais encomendas de carne, caso gostem. Foi por isso que comecei a fazer isto em primeiro lugar, portanto não me importava mesmo que fosse deficitário”, assume Nitta.

Um dos momentos mais marcantes da loja foi quando receberam uma encomenda de um doente com cancro que estava prestes a ser operado enquanto esperava pelos seus Extreme Croquettes.

“Ouvi dizer que os nossos croquetes eram a sua motivação para que corresse tudo bem com a cirurgia. Foi o que mais me surpreendeu”, recorda Nitta.

O paciente sobreviveu e fez várias encomendas desde então. Nitta recebeu uma chamada do doente que lhe disse: “Espero viver muito tempo sem voltar a ter cancro”, depois de ter colhido amostras dos croquetes.

“Ainda me lembro. Fiquei comovido com o comentário”, diz.

Ao permitir que mais pessoas apreciem a carne Kobe, espera que a popularidade destes croquetes ajude a promover a indústria local.

“Estou muito agradecido. Com toda esta popularidade, creio que posso ajudar a indústria inteira, não só a minha loja, ao fazer com que as pessoas que não têm estado interessadas na carne se interessem. Quero ter o maior número de pessoas possível a comer carne Kobe, e não só as produzidas na minha loja”, ambiciona Nitta.

Como experimentar os croquetes de carne

A Asahiya tem agora duas localizações: a sua loja original na cidade de Takasago e uma loja na cidade de Kobe. Os seus croquetes de carne de vaca congelada só são vendidos a nível nacional.

Embora a Asahiya funcione principalmente como talho, Nitta diz que os viajantes podem visitar a sua loja de Kobe, onde vendem dois tipos de aperitivos prontos a comer, chamados “Tor Road” e “Kitanozaka” croquetes, com o nome de ruas próximas.

“Kitanozaka” utiliza carne magra e tem um preço de JPY360 (2,50€) cada. “Tor Road” usa lombo e cachaço, e custa JPY460 (3,18€).

“Maturamos a carne durante 40 dias e as batatas durante um mês para que fiquem mais doces”, explica Nitta.

Quanto ao futuro, o proprietário de 58 anos diz que estão a pensar expandir-se.

“Gostaria de criar um pequeno espaço onde as pessoas pudessem, talvez, comer um pouco. A nossa loja Kobe é um local turístico”, diz. “Mas se se tornar um restaurante, os nossos restaurantes vizinhos podem ficar aborrecidos porque também lhes fornecemos a carne.”

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