Goodall morreu de causas naturais na Califórnia, durante uma digressão de conferências nos Estados Unidos, de acordo com o seu instituto.
Morreu Jane Goodall, uma das figuras mais influentes da ciência e da conservação da natureza e uma das mais importantes primatologistas de sempre. Tinha 91 anos.
A notícia foi avançada pelo Instituto Jane Goodall que, num comunicado divulgado nas redes sociais, elogia o trabalho da investigadora que, como etóloga, "revolucionou a ciência, e foi uma defensora incansável da proteção e restauração do nosso mundo natural”.
Os estudos de campo que Jane Goodall realizou com chimpanzés não só quebraram barreiras para as mulheres e mudaram a forma como os cientistas estudam os animais, como também documentaram emoções e traços de personalidade nestes primatas, aproximando a linha entre os humanos e o reino animal.
Goodall morreu de causas naturais na Califórnia, durante uma digressão de conferências nos Estados Unidos, de acordo com o seu instituto.
Após completar o ensino secundário, fez um curso de secretariado, ao mesmo tempo que trabalhava como empregada de mesa para arranjar dinheiro para viajar para África, onde, ainda criança, disse que haveria de viver um dia.
Em meados da década de 1950 partiu para Nairobi, no Quénia, onde trabalhou como secretária.
Posteriormente, no Zaire, secretariou o antropólogo Louis Leakey, que desenvolvia estudos sobre gorilas e que a convidou para iniciar um projeto na Reserva Natural de Gombe, na Tanzânia, mas sobre chimpanzés.
Em junho de 1960, Jane Goodall iniciou esse trabalho.
Após três meses de observações, em plena selva, descobriu que os chimpanzés eram omnívoros, tal como os humanos, ao ver um espécime a comer uma cria de porco selvagem.
Umas semanas mais tarde, observou um chimpanzé a afiar com a língua um pedaço de uma planta para depois escavar uma colónia de térmitas, registando pela primeira vez um ser não-humano a preparar uma ferramenta.
Sobre os chimpanzés, observou ainda que tinham personalidades e emoções distintas.
Impulsionada por Louis Leakey, Jane Goodall deixou temporariamente o trabalho de campo em África para se doutorar em 1965, no Reino Unido, na Universidade de Cambridge, em etologia, ciência do comportamento dos animais no seu meio natural.
Continuou na Tanzânia até 1975, orientando muitas vezes o trabalho de campo de outros candidatos a doutoramento.
Dois anos depois, fundou um instituto com o seu nome, sediado nos Estados Unidos, destinado à conservação e investigação da vida selvagem.
Os anos de observação de chimpanzés na Tanzânia foram condensados no livro "The Chimpanzees of Gombe: Patterns of Behavior" ("Os Chimpazés de Gombe: Padrões de Comportamento", em tradução livre), editado em 1986.
Entre as várias honras que Jane Goodall recebeu, contam-se o Prémio Albert Schweitzer (1987), o Prémio Kyoto no Japão (1990), o título de Mensageira da Paz da ONU (2002) e de Dama Comandante da Ordem do Império Britânico (2003), o Prémio Templeton (2021), a Medalha Stephen Hawking para a Comunicação de Ciência (2022) e a Medalha Presidencial da Liberdade nos Estados Unidos (2025).
A cientista viajou pelo mundo a dar palestras sensibilizando as audiências para a conservação dos chimpanzés.
Em Lisboa participou numa conferência do Rotary Club, em 2013, onde se descreveu como "o peculiar primata branco que chegou a Gombe, na Tanzânia, e se apaixonou instantaneamente pelas suas criaturas", e numa conferência da revista National Geographic, em 2017, onde entrou no palco do Teatro Tivoli com três chimpanzés peluches e a vocalizar os sons emitidos por estes animais, de acordo com a imprensa.
No documentário biográfico "Jane", produzido e distribuído pela National Geographic em 2017, quando questionada sobre até quando iria estar ligada aos chimpanzés, aos quais lhes deu nomes em vez de números, a etóloga respondeu "até morrer". A profecia cumpriu-se, mais uma vez.