Bolsonaro diz que aceitará eventual derrota nas urnas "desde que as eleições sejam limpas"

Agência Lusa , BC
23 ago, 06:20
Jair Bolsonaro, presidente do Brasil

Em entrevista no principal telejornal brasileiro, o atual presidente negou erros na gestão da pandemia e disse que, quando os seus apoiantes pedem intervenção militar para que fique no governo, não é mais do que "liberdade de expressão"

O Presidente do Brasil declarou que aceitará uma derrota nas urnas, negou ter ofendido juízes e afirmou não ter cometido erros na gestão da pandemia da covid-19, numa entrevista ao Jornal Nacional.

“Seja qual for [o resultado], eleições limpas devem e tem que ser respeitadas (…) Serão respeitados os resultados das urnas desde que as eleições sejam limpas", afirmou, na segunda-feira, Jair Bolsonaro, de foram relutante, ao ser questionado se vai aceitar o resultado da votação em urnas eletrónicas, adotadas no país em 1996.

O presidente brasileiro tem afirmado reiteradamente, sem apresentar provas, que o voto eletrónico é alvo de fraude.

Bolsonaro, que não dá entrevistas a meios de comunicação que não apoiam as políticas adotadas pelo seu Governo, falava numa entrevista exclusiva ao principal telejornal brasileiro.

O Jornal Nacional tem também previsto entrevistas com o antigo Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o ex-governador Ciro Gomes e a senadora Simone Tebet, os três candidatos mais bem colocados nas sondagens relativas às presidenciais de outubro.

Questionado sobre as razões que levam os seus apoiantes a manifestarem publicamente o desejo de que o Brasil adote uma intervenção militar, mantendo-o no Governo, Bolsonaro minimizou estes pedidos e disse tratar-se de liberdade de expressão.

"Quando alguns [apoiantes] falam em fechar o Congresso, é liberdade de expressão deles. Eu não levo para esse lado", afirmou.

Sobre os motivos que o levam a fazer manifestações públicas contra juízes do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e do Supremo Tribunal Federal (STF) publicamente, Bolsonaro negou ter ofendido ministros [tratamento dado aos juízes de tribunais superiores brasileiros].

“Você [o jornalista Willian Bonner] não está falando a verdade quando fala em xingar ministro, isto não existe. É uma ‘fake news’ da sua parte. O que eu quero é transparência nas eleições”, afirmou.

Bonner lembrou que Bolsonaro chamou, no ano passado, "canalha" ao juiz do STF e atual presidente do TSE, Alexandre de Moraes, durante uma manifestação que reuniu milhares de apoiantes, em 7 de setembro, dia em que se comemora a Independência do Brasil.

Bolsonaro também negou erros cometidos na gestão da pandemia, apesar de o Brasil se um dos países com mais mortes causadas pela covid-19 (mais de 700 mil) e esquivou-se a responder se tinha faltou compaixão de sua parte por ter imitado pacientes com crises de falta de ar, numa transmissão ao vivo que faz semanalmente nas redes sociais.

"A solidariedade eu manifestei conversando com o povo nas ruas, visitando as periferias de Brasília, vendo pessoas humildes que foram obrigadas a ficar em casa sem ter um só apoio de governador ou prefeito. E nós demos auxílio emergencial imediatamente", rebateu.

Apesar de ter feito declarações públicas nas quais questionou a eficácia das vacinas contra a covid-19 e de afirmar não ter sido vacinado, o chefe de Estado brasileiro defendeu a política do Governo na pandemia, alegando ter comprado vacinas para a população.

“Nós compramos mais de 500 milhões de doses de vacina, só não se vacinou quem não quis. Comprada por mim e em tempo bem mais rápido do que em outros países”, declarou.

Bolsonaro citou que a vacinação no Brasil começou em janeiro de 2021, sem mencionar que a primeira vacina aplicada no país, a vacina CoronaVac da fabricante chinesa Sinovac, foi comprado pelo rival político e ex-governador de São Paulo João Doria, e depois incluído, apesar das suas críticas, e também a vacina da Pfizer, no Sistema Único de Saúde (SUS) para ser aplicado na população do país.

A destruição da Amazónia e o Mercosul

 O Presidente do Brasil negou ainda governar um país que destrói a Amazónia e disse que a União Europeia quer acelerar o acordo com o Mercosul devido à invasão russa da Ucrânia.

“Olha só, a Amazónia é do tamanho da Europa Ocidental. Ali, na Amazónia, cabe uma Alemanha, cabe uma França, cabe uma Itália, cabe um Portugal, cabe um montão de países. Você pensa que fiscalizar [áreas sob alerta de desmatamento] evita de pegar fogo”, afirmou, na segunda-feira, em entrevista, Jair Bolsonaro, sobre incêndios e a queda de 97% das ações de fiscalização do Governo na Amazónia brasileira.

“Ninguém quer destruir floresta por livre e espontânea vontade”, acrescentou, num outro momento da entrevista que concedeu ao telejornal da Globo e o de maior audiência do país.

Sobre o acordo de livre comércio, assinado em 2019 entre a UE e o Mercosul (Argentina, Brasil, Uruguai e Paraguai), mas por validar devido, sobretudo, aos problemas ambientais no Brasil, Bolsonaro disse que o bloco europeu estará a acelerar as negociações por causa da guerra na Ucrânia.

“O acordo Mercosul e União Europeia estava travado, com os problemas, agora com a guerra da Ucrânia e Rússia, a União Europeia quer acelerar o acordo connosco, para o Mercosul”, afirmou.

Bolsonaro indicou que os países da Europa já estão em contacto com o Brasil para negociar uma possível produção que o país sul-americano estima realizar de hidrogénio verde, uma alternativa energética produzida com fontes limpas e renováveis.

“O Brasil será uma grande potência fornecedora de energia de hidrogénio verde, como já temos atestado (…) E nós vamos exportar esse hidrogénio verde para a Europa toda. Ou seja, o Brasil é exemplo para o mundo”, afirmou.

“Você pega, está na minha frente por coincidência aqui, por exemplo, as áreas reservadas em países, outros, para a agricultura, não é pecuária, é agricultura. Somente a União Europeia, é de 45% a 65%. Você pega países como Alemanha, 56% [do território] para a agricultura. Você pega o Reino Unido, 63% para a agricultura. O Brasil preserva dois terços [do território] 66% da sua área verde. O Brasil não merece ser atacado dessa forma”, sublinhou.

O chefe de Estado brasileiro também apontou problemas em países europeus para combater incêndios em floresta e admitiu que maior parte dos incêndios florestais no Brasil tem origem criminosa.

“Quando se fala em Amazónia, por que não se fala na França, que há mais de 30 dias está pegando fogo. Assim como Espanha e Portugal. Califórnia pega fogo todo ano. Brasil, infelizmente, não é diferente. Grande parte disso aí é criminoso, eu sei disso”, lançou.

Com 32% das intenções de voto e atrás do antigo Presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, que lidera as sondagens com 47%, segundo o instituto Datafolha, Bolsonaro procurava com esta entrevista ao Jornal Nacional reconquistar apoio de eleitores que votaram no atual chefe de Estado, em 2018.

Mas o ambiente tenso entre o Presidente e os jornalistas da TV Globo, ao longo de uma conversa de 40 minutos, colocaram em causa as expectativas da campanha de melhorar a imagem de Bolsonaro, que ainda poderá conquistar votos com o início do horário eleitoral gratuito, a partir de sexta-feira.

«A eleição presidencial no Brasil tem a primeira volta marcada para 02 de outubro e a segunda volta, caso seja necessária, no dia 30 do mesmo mês.

Ao todo, 12 candidatos disputam as presidenciais: Jair Bolsonaro, Luiz Inácio Lula da Silva, Ciro Gomes, Simone Tebet, Luís Felipe D’Ávila, Soraya Tronicke, Roberto Jefferson, Pablo Marçal, Eymael, Leonardo Pericles, Sofia Manzano e Vera Lúcia.

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