Zelensky revela conversa com Bolsonaro: "Queremos o apoio do Brasil. Se amanhã alguém vos atacar, não ficaremos neutros"

20 jul, 11:12
Volodymyr Zelensky

Presidente ucraniano falou ao telefone com o homólogo brasileiro esta semana e pediu-lhe que abandone posição de neutralidade. Mas Bolsonaro não terá mudado de opinião em relação ao conflito que opõe Rússia e Ucrânia

O presidente da Ucrânia falou ao telefone com Jair Bolsonaro na segunda-feira e pediu-lhe que o Brasil assuma uma posição em relação à invasão russa da Ucrânia.

Numa entrevista exclusiva à Globo - e que será transmitida na íntegra no domingo - Volodymyr Zelensky contou pormenores da conversa com o presidente brasileiro e criticou a neutralidade em relação ao conflito decidida por Bolsonaro, que logo no início da guerra optou por não avançar com sanções à Rússia.

Na primeira entrevista a um meio de comunicação da América Latina desde a invasão russa, o presidente ucraniano sublinhou que não apoia a posição de neutralidade de Bolsonaro, dizendo que não acredita "que alguém se possa manter neutro quando há uma guerra no mundo". 

Zelensky deu mesmo como exemplo o que aconteceu na Segunda Guerra Mundial. "Muitos líderes ficaram neutros num primeiro momento. Isso permitiu que os fascistas engolissem metade da Europa e se expandissem mais e mais, capturando a Europa toda. Isso aconteceu por causa da neutralidade", declarou o presidente da Ucrânia, falando por videochamada a partir de Kiev.

"Um país capturou uma parte do nosso território há oito anos. E nessa época havia muitas pessoas que queriam ser mediadoras e permanecer neutras. Por casusa disso permitiram, desde 2014, que a Rússia fizesse essa segunda onda de invasão e eles estão a invadir outras partes. Esse é o significado de 'neutralidade'", afirmou ainda Zelensky, que revelou mesmo que disse a Bolsonaro que precisa "de uma posição do Brasil".

Durante o telefonema, o presidente ucraniano garante ter pedido ao homólogo brasileiro o seu apoio. "Queremos o apoio do Brasil. Eu disse-lhe: 'Se amanhã alguém vos atacar, não ficaremos neutros, independentemente do histórico da nossa relação com esse país que venha a violar a sua soberania. Se alguém capturar a sua terra, matar o seu povo, violar as suas mulheres, torturar as suas crianças, como poderei dizer que sou neutro?'", sublinhou Zelensky.

O presidente da Ucrânia também falou sobre a resposta de Bolsonaro ao seu pedido para que abandone a posição de neutralidade. "Ele disse-me que apoia a soberania e a integridade territorial da Ucrânia. Quero acreditar nisso. Disse-me: 'O Brasil realmente compreende a dor do que está a acontecer convosco, mas a nossa posição é neutra."

Bolsonaro parece, portanto, manter-se inflexível na sua decisão, para a qual poderá contribuir o facto de o Brasil ser altamente dependente dos fertilizantes russos: o presidente brasileiro chegou mesmo a dizer publicamente que uma ação contra Moscovo poderia trazer "sérios prejuízos" à agricultura brasileira. E não se inibiu de criticar Zelensky numa altura em que a Rússia já tinha invadido a Ucrânia, dizendo que os ucranianos "confiaram o destino de uma nação a um comediante". 

Bolsonaro esteve no Kremlin em meados de fevereiro, cerca de uma semana antes de a Rússia invadir a Ucrânia, e reuniu-se com Putin durante cerca de duas horas. Na ocasião, e depois de um aperto de mão ao presidente russo para a fotografia, afirmou estar "muito feliz e honrado" pelo convite para se encontrar com Putin, acrescentando: "Somos solidários com a Rússia."
 

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