Com Lula a presidente, que futuro terá Bolsonaro e o bolsonarismo?

1 jan, 08:10

À semelhança de Donald Trump, o político de extrema-direita perdeu a reeleição, não sendo certo se se vai recandidatar. No entanto, uma coisa parece garantida: o movimento que ainda lidera “não vai desaparecer” e os seus filhos podem ser os próximos a comandá-lo

É o fim do mandato de Jair Bolsonaro como presidente do Brasil. Após um período de inúmeras polémicas, marcado indelevelmente pela pandemia de covid-19, o político de extrema-direita não vai marcar presença na tomada de posse do sucessor, Lula da Silva, marcada para este domingo.

A ausência deste evento não deverá marcar, contudo, a afastamento de Jair Bolsonaro da vida política, apesar de o próprio ter garantido que se iria “recolher” caso perdesse as eleições. Mesmo que o polémico militar na reforma acabe por se afastar dos holofotes, é quase garantido que o bolsonarismo, à semelhança do trumpismo nos Estados Unidos, tenha chegado para ficar, considera Amanda Lima, jornalista e comentadora da CNN Portugal.

“Os políticos bolsonaristas vão estar em peso no Senado e na Câmara dos Deputados”, afirma. Na nova legislatura saída das eleições de 2022, o partido de Bolsonaro, o Partido Liberal, vai ter 13 senadores. Outros partidos que fizeram parte do Governo do presidente cessante também têm expressão na câmara alta do Congresso Nacional: o União Brasil terá 12 membros, enquanto os Progressistas e os Republicanos terão sete e três, respetivamente. No total, os partidos da coligação de Bolsonaro vão ocupar 35 dos 81 lugares do Senado.

Na Câmara dos Deputados, o cenário é igualmente favorável à direita radical. O Partido Liberal vê o seu número de parlamentares subir de 77 para 99, e o União Brasil sobre de 51 para 59. Os Progressistas, por seu turno, atingem os 47 deputados, enquanto 41 membros dos Republicanos assumirão funções. Se a estes juntarmos deputados dos partidos que, embora não tenham feito parte do Governo, apoiaram Bolsonaro, como o Partido Social Democrático (PSD) e o Movimento Democrático Brasileiro (MDB), o bolsonarismo tem a maioria nesta câmara.

Apesar de dominado o Congresso, a presidência está nas mãos da esquerda e do PT. Mas não é isso que vai desmoralizar os mais fervorosos apoiantes do militar na reforma, diz Amanda Lima. “Independente de como for o mandato de Lula, a extrema-direita vai tentar voltar ao poder. O capital político é muito sólido, basta ver a pequena diferença de votos na segunda volta, se pensarmos na dimensão do país”, observa a jornalista, que nota, também, que Bolsonaro, estando fora do Palácio do Planalto, “perderá o foro privilegiado e certamente vai responder por crimes, que podem impactar uma possível candidatura”.

A comentadora da CNN Portugal afirma, por conseguinte, que é “demasiado cedo para avaliar se Bolsonaro se vai recandidatar”. Mas, caso não possa ou não queira voltar ao cargo, quem poderá ser o seu sucessor? Amanda Lima nomeia seis pessoas: a mulher Michele, e os três filhos mais velhos de Jair Bolsonaro, bem como Damares Alves e Ricardo Salles.

Os possíveis sucessores de Jair Bolsonaro

Michele Bolsonaro, refere Amanda Lima, terá dificuldades em ascender ao topo devido ao “machismo” dos apoiantes do seu marido, mas o mesmo não se pode dizer de Flávio, Carlos e Eduardo Bolsonaro, que já ocupam cargos públicos.

Flávio, o mais velho do clã, foi deputado estadual no Rio de Janeiro entre 2003 e 2019, ano em que foi eleito senador pelo mesmo estado. No final de 2018, o Ministério Público do Rio começou a investigá-lo, bem como o seu ex-assessor Fabrício Queiroz, devido a suspeitas de lavagem de dinheiro e ocultação de riqueza. De acordo com o Conselho de Controlo de Atividades Financeiras (Coaf) do Brasil, Queiroz movimentou cerca de 1,2 milhões de reais (214 mil euros) entre janeiro de 2016 e janeiro de 2017, um valor considerado atípico para as suas funções. Flávio Bolsonaro foi considerado suspeito da prática de “rachadinhas”, nome dado à prática de ficar com parte do salário dos funcionários de um gabinete, mas permanece em liberdade. O mesmo não aconteceu com Fabrício Queiroz, que acabou detido em 2020 no âmbito do processo.

À semelhança do seu irmão, Carlos Bolsonaro também é suspeito da prática de “rachadinhas”. No entanto, o vereador do Rio de Janeiro é mais conhecido por liderar o “Gabinete de Ódio”, o nome dado ao grupo de assessores do seu pai e que se notabilizou por difundir fake news acerca dos opositores do líder de extrema-direita. Durante a campanha presidencial de 2018, este gabinete foi responsável pela notícia falsa sobre as “mamadeiras de piroca”: segundo a narrativa, o PT e o seu candidato, Fernando Haddad, estariam a distribuir pelas creches biberões com bocais em forma de pénis.

Eduardo Bolsonaro, senador pelo Rio, parece ser o mais contido. Ainda assim, em 2018, sugeriu que o Supremo Tribunal do Brasil fosse invadido por “um cabo e um soldado” caso decidisse impugnar a candidatura do seu pai à presidência.

Flávio (esquerda) e Eduardo Bolsonaro (direita) no Rio de Janeiro

Por seu turno, Damares Alves, pastora evangélica eleita senadora pelo Distrito Federal em 2022, é conhecida pelas suas posições extremistas na oposição ao feminismo e ao aborto. No caso desta última prática, a antiga ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos do Brasil foi além dos seus poderes para evitar que uma menina de 10 anos abortasse após ter sido violada, decisão permitida pela lei brasileira e já autorizada pelo tribunal. De acordo com a Folha de S. Paulo, Alves reuniu-se mesmo com responsáveis locais, acusação que nega.

Damares Alves é também alvo de críticas por ter uma filha adotiva indígena, nascida em 1998 e que, segundo a versão dos pais biológicos, lhes foi retirada sem o seu consentimento.

Por fim, Ricardo Salles é deputado federal por São Paulo e ex-ministro do Ambiente do governo de Jair Bolsonaro. Tal como uma boa parte dos membros do anterior executivo, teve vários problemas com a Justiça, desde investigações por enriquecimento ilícito e tráfico de influência a uma condenação por fraude ambiental. Salles acabou exonerado do cargo ministerial após ter sido acusado de participar num esquema de exportação ilegal de madeira.

O futuro político da direita radical está assegurado, concluir Amanda Lima: “Sem dúvidas, o bolsonarismo é um movimento que se consolidou no Brasil e não vai desaparecer”.

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