"Ele era o homem, o mito, a lenda." Jack Teixeira queria impressionar amigos virtuais

14 abr, 17:32
Tem apenas 21 anos, o avô era açoriano e é o principal suspeito pela fuga de informação no Pentágono. A história de Jack Teixeira

Jack Teixeira é autor de uma das maiores fugas de informação classificada dos últimos anos nos Estados Unidos. Membros do Thug Shaker Central, o grupo fechado da plataforma Discord no qual os documentos foram divulgados, contam como surgiu este chat e como agia este militar que era líder e administrador

Jack Teixeira, o jovem de 21 anos, membro da Guarda Nacional Aérea do Massachusetts que foi responsável pela divulgação de documentos confidenciais dos serviços secretos norte-americanos com matéria altamente "sensível" sobre a guerra na Ucrânia queria informar, mas também impressionar. Quem o diz são outros membros do Thug Shaker Central, o grupo fechado da plataforma Discord no qual esta fuga de informação aconteceu. Ouvidos pelo jornal The New York Times, outros utilizadores e membros deste chat sublinham que o militar era muito respeitado pelos colegas do grupo.

Ele era o homem, o mito. Ele era a lenda. Toda a gente o respeitava", revela um dos utilizadores do Thug Shaker Central, de 17 anos, identificado apenas pela alcunha Vahki.

O chat Thug Shaker Central começou como uma plataforma que juntou homens adultos mas também adolescentes, na pandemia, quando as escolas, os estabelecimentos comerciais e tantos outros serviços foram encerrados por causa dos confinamentos. Estes utilizadores, católicos e fãs de videojogos, debatiam tópicos relacionados com os próprios videojogos, mas também relativos a armas e combates. Partilhavam memes, muitos dos quais racistas e conteúdos antissemita. O próprio Vahki admitiu ao The New York Times ter partilhado memes racistas: "Não há razão para o esconder, eu não sou uma boa pessoa".

O interesse por armas e cenários de guerra que unia estes jovens levou Jack Teixeira, que teria a alcunha de O.G. e era administrador do grupo, a partilhar muita informação de que dispunha como membro da Guarda Nacional Aérea do Massachusetts. O militar era “especialista em sistemas de transporte cibernético”, em tecnologias de informação responsáveis por redes de comunicações, na 102 Intelligence Wing, uma unidade militar que lida com matérias de carácter altamente "sensível".

Como explicou Jack Miller, especialista da CNN Internacional em assuntos relacionados com os serviços secretos norte-americanos, os militares desta ala "são responsáveis por pilotar drones envolvidos em operações de supervisão, reconhecimento e segurança, drones que dão apoio em missões da Força Aérea ou a militares no terreno em lugares como o Iraque, o Afeganistão e a Síria, ou que estão envolvidos em operações especiais em qualquer lado". "Isto significa que estes departamentos têm de ter acesso a um vasto conjunto de informação classificada porque fazem operações em vários lugares do mundo e enfrentam diferentes tipos de ameaças", completa o analista.

Ora, de acordo com outros membros do grupo do Discord, Jack Teixeira começou a partilhar muitos detalhes da informação classificada a que tinha acesso, sobretudo assuntos relacionados com armamento norte-americano. Mas não se ficou por aí: mais ou menos em outubro, o jovem passou mesmo a divulgar ficheiros inteiros com centenas de páginas de documentos confidenciais, que incluíam mapas detalhados da guerra na Ucrânia e informações sobre a máquina de guerra russa. Vahki diz que o militar partilhou cerca de 350 documentos originais, muitos marcados como "TOP SECRET" (Altamente secreto).

Em causa estão informações que vão desde a dificuldade da Ucrânia em lidar com uma quebra de mantimentos até relatos que sugerem que soldados de países da NATO, incluindo os próprios EUA, estão em território ucraniano a combater. Uma das mais recentes revelações indica que os EUA temem que o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, esteja "demasiado recetivo" ao Kremlin.

Como estes documentos saíram de um pequeno grupo fechado do Discord

Todavia, Vahki afirma que Teixeira não era um denunciante como o foram Edward Snowden ou Chelsea Manning, responsáveis por grandes fugas de informação que afirmaram terem violado a lei para que o mundo tivesse conhecimento de certas ações perpetradas pelos EUA. Tudo leva a crer que Teixeira não tinha qualquer intenção de que estes documentos saíssem daquele pequeno chat do Discord.

Ele era cristão, anti-guerra, queria contar aos amigos o que estava a acontecer. Até temos algumas pessoas do grupo que estão na Ucrânia. Gostamos de jogos de combate, de jogos de guerra", sublinha.

Apesar de alguns membros do grupo considerarem que ele usava a informação que tinha só para impressionar os colegas, outros utilizadores referem que ele sabia bem o que estava a fazer. "Ele é uma pessoa inteligente. Ele sabia bem o que estava a fazer quando publicou estes documentos, claro. Isto não foram fugas acidentais", afirmou um dos membros do chat ao jornal Washington Post.

Os documentos até podiam nunca ter saído daquela pequena sala de discussão online, mas tudo mudou quando um dos membros, um adolescente de 17 anos chamado Lucca, publicou alguns desses ficheiros num grupo público do Discord. Estávamos a 2 de março. Os documentos despertaram o interesse de outros utilizadores da plataforma, nomeadamente fãs do popular jogo Minecraft, e não foi preciso muito para que começassem a ser partilhados no Telegram por apoiantes da Rússia na guerra contra a Ucrânia.

O caso acabou por ganhar dimensão no início de abril, impulsionado pelas notícias que foram sendo divulgadas pela imprensa. As informações foram divulgadas "numa fase de confrontação estratégica, quando o principal parceiro da Ucrânia no confronto com a Rússia é os EUA", como nota a comentadora da CNN Portugal Sónia Sénica. E Jack Teixeira começou a aperceber-se das proporções do que poderia ter de enfrentar: “Ele começou a entrar em pânico. Isto era matéria para prisão", explica Vahki.

Por isso, o militar, que também tinha como 'nicknames' (alcunhas) TheExcaliburEffect, jackdjdtex e TexKilledYou, começou a encerrar as contas online e a despedir-se dos amigos virtuais. "Amigos, tem sido bom, amo-vos a todos. Nunca quis que isto acabasse assim. Rezei a Deus para que isto não acontecesse. E rezei, rezei, rezei. Mas só Deus pode decidir o que acontece a partir de agora", escreveu o militar.

Jack Teixeira, lusodescendente cuja família vive em North Dighton, pode enfrentar até dez anos de prisão por cada crime cometido. O jovem de 21 anos será julgado de acordo com o previsto na Lei de Espionagem, que estabelece que cada documento vale a sua própria acusação. No momento da detenção, na quinta-feira, o militar não ofereceu resistência.

Esta sexta-feira, o militar foi presente a um tribunal de Boston e o juiz David Hennessy decretou a prisão preventiva até ao início do julgamento. Ficou marcada para a próxima quarta-feira uma nova audiência, não tendo Teixeira apresentado uma contestação formal à decisão. Teixeira falou apenas duas vezes durante esta primeira audiência, respondendo “sim” quando questionado se entendia o seu direito de permanecer em silêncio e confirmando que tinha preenchido uma declaração financeira.

Veja também o vídeo com a análise de Sónia Sénica, investigadora do Instituto Português de Relações Internacionais:

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