Entre tanta qualidade e bons resultados, é difícil escolher
O segundo lugar de João Almeida na Volta a Espanha que agora terminou é um marco na história nacional. Desde que Joaquim Agostinho celebrou o mesmo feito na mesma prova, há 51 anos, que um corredor português não conseguia obter um resultado tão bom numa Grande Volta.
Este pódio não inédito, mas extremamente raro, atirou o corredor de A-dos-Francos para aquele que é O Debate entre os adeptos portugueses da modalidade: quem é o melhor ciclista português de todos os tempos?
O caso português é um entre muitos outros em que é difícil escolher. Os britânicos dividem-se entre Chris Froome e Bradley Wiggins. Os holandeses têm de escolher entre Joop Zoetemelk, Mathieu Van der Poel, Marianne Vos e Harrie Lavreysen. Mais a sul, em Itália, Fausto Coppi, Gino Bartali e Vincenzo Nibali merecem esse destaque.
Antes ainda de começar a falar no debate nacional, gostaria de deixar uma menção honrosa a vários corredores: Acácio da Silva, o único português a vestir a camisola amarela no Tour de France e dono de algumas vitórias históricas, como a do Monte Etna no Giro d’Italia de 1989; Sérgio Paulinho, medalhado de prata nos Jogos Olímpicos de Atenas de 2004 e vencedor de etapas no Tour e na Vuelta; Ruben Guerreiro, o primeiro e até agora único português a vencer uma das três principais classificações de uma Grande Volta, com a vitória nas montanhas do Giro d’Italia de 2020.
Em Portugal, até há cerca de 11 ou 12 anos, o debate não existia. Joaquim Agostinho era dono de feito que, por muito tempo, ninguém ousou replicar. O ciclista de Torres Vedras, que até começou bastante tarde na modalidade, é até agora o único português a fazer pódio no Tour e fê-lo por duas vezes, com dois terceiros lugares consecutivos em 1978 e 1979. É também o que mais etapas conquistou na mais importante prova do ciclismo mundial, com quatro, incluindo a vitória no Alpe D’Huez, a mais mítica das montanhas da competição, em 1979.
Para além destes resultados, Agostinho tem outros seis top-10 no Tour, o já mencionado segundo lugar na Vuelta de 1974 e grandes resultados em outras provas que perderam prestígio, como a Volta a Portugal, que venceu por três vezes, ou já não existem de todo, como o Trofeo Baracchi, que ganhou em 1969 ao lado de Herman Van Springel.
Agostinho é uma figura quase mítica, uma espécie de Eusébio do ciclismo. Todos os nossos avós e pais sabem que ele era, quais os seus maiores feitos e a maneira trágica e infeliz como morreu. Uma boa parte dos seus resultados ainda não encontram paralelo entre os corredores portugueses. Durante décadas, todos rezámos pelo dia em que um dos nossos voltasse a disputar a vitória numa Grande Volta.
Aquele dia na Toscana
Essas preces pareciam ter-se materializado em Rui Costa. O ciclista da Aguçadora, na Póvoa de Varzim, teve um formidável percurso nos sub-23, finalizando a Volta a França do Futuro de 2008 em segundo lugar e conseguindo um quinto lugar na prova de estrada dos Mundiais desse ano, disputados em Varese, Itália.
Cedo se percebeu que Rui Costa era um corredor sólido para provas de uma semana com a vitória nos Quatro Dias de Dunquerque logo em 2009, o seu primeiro ano como profissional. O caminho até ao topo foi rápido. Em 2011, no seu terceiro Tour de France, o então corredor da Movistar, ainda relativamente desconhecido mesmo para os maiores entusiastas da modalidade, surpreendeu toda a gente e venceu a oitava etapa da prova, num final épico em Super Besse em que foi o único fugitivo a não ser alcançado pelo pelotão.
Em 2012 registou outro resultado algo surpreendente e que nos deixou água na boca, com a vitória na geral da Volta à Suíça. Foi aí que nos deixou a pensar que, finalmente, iríamos ter alguém a entrar numa Grande Volta com estatuto de líder. No ano seguinte, já depois do bis na corrida suíça, Rui Costa chegou ao Tour com claras ambições de chegar ao top-10, embora sem beneficiar do estatuto de líder incontestado da sua equipa.
À partida para a 13.ª etapa tudo parecia seguir bem. Rui Costa seguia em nono e estava em boa forma. Mas o desastre na estrada, em que perdeu mais de 10 minutos após ser forçado a esperar por Alejandro Valverde numa etapa marcada pelas bordures, deitou tudo a perder. Ou assim pensávamos. Fora do radar da geral, Rui Costa aproveitou o tempo perdido para se lançar em fugas e ganhar duas etapas numa só edição do Tour, um feito que apenas Agostinho conseguira. As prestações valeram-lhe um contrato milionário com a Lampre – atual UAE Team Emirates – onde iria ser o líder incontestado.
O melhor de 2013 estava, no entanto, por vir. É difícil explicar a alguém que não entenda de ciclismo o quão especial foi a vitória no Mundial de Florença. Uma prova dificílima, com quase sete horas e meia de duração, marcada pelo frio e pela chuva torrencial, em que Rui Costa competiu sozinho contra as poderosas armadas espanhola e italiana. Só Rui Costa poderia ter ganhado a prova da forma como ganhou, com um ataque pertíssimo do final para alcançar Joaquim Rodríguez e batê-lo ao sprint.
Este foi, infelizmente, o pico da sua carreira. Venceu outra vez a Volta a Suíça, fez pódios no Giro di Lombardia e na Liège-Bastogne-Liège, dois dos Cinco Monumentos, mas o seu tempo na Lampre/UAE Team Emirates não atingiu as expectativas. Rui Costa foi muito criticado pelos fãs por apostar fortemente em conseguir um top-10 na Volta a França durante sucessivos anos quando era evidente que era nas provas de um dia que tinha o seu forte. O seu estilo de corrida, que passava muitas vezes por seguir “na roda” dos outros, também não era apreciado pelos adeptos e, em especial, pelos companheiros de profissão. Mesmo assim, entre os corredores aqui mencionados, tem a mais importante vitória e é o único português que ganhou uma das dez provas que considero serem as mais importantes do calendário: as três Grandes Voltas (Itália, França e Espanha); os cinco Monumentos (Milano-San Remo, Volta à Flandres, Paris-Roubaix, Liège-Bastogne-Liège e Giro di Lombardia), os Mundiais e os Jogos Olímpicos.
A nova esperança
Portugal andou alguns anos relativamente anónimo no ciclismo mundial, órfão de uma figura que o pusesse no mapa. A pandemia de covid-19 veio, no entanto, dar uma pequena ajuda.
É pouco provável que João Almeida tivesse participado no Giro d’Italia de 2020 caso o vírus não existisse. O adiamento de muitas provas forçou os organizadores a colocarem Giro e Vuelta a decorrerem em simultâneo, o que escancarou as portas para a estreia do português em grandes competições logo no primeiro ano de World Tour, ao serviço da Deceuninck Quick-Step.
No seu primeiro dia, um contrarrelógio muito ventoso em Palermo, João Almeida mostrou logo ao que vinha e ficou em segundo lugar, apenas atrás de Filippo Ganna. O português assumiu a liderança da prova após a terceira etapa, na chegada ao Monte Etna, o mesmo que Acácio da Silva conquistou em 1989, e não a largou até ao final da etapa 18, em que o Stelvio - uma escalada mítica - enterrou de vez as possibilidades do corredor de A-dos-Francos vencer na estreia de uma Grande Volta. Durante duas semanas, contudo, eu e milhares de outros fãs de ciclismo portugueses sentiram o que nunca tinham sentido. Estava encontrado o nosso homem para as competições de três semanas.
A consistência de João Almeida impressiona. O ciclista português esteve até agora à partida de dez Grandes Voltas. Descontando as três em que teve de abandonar, o seu pior resultado final é um nono lugar. A mudança para a UAE Team Emirates, onde partilha o “balneário” com o melhor corredor da atualidade e um dos melhores de todos os tempos, Tadej Pogacar, fez-lhe bem e a evolução ao longo das épocas tem sido notória. Há a destacar o pódio no Giro de 2023, onde também venceu a classificação da juventude, e a estreia no Tour, em 2024, dificilmente poderia ter sido melhor, ficando atrás apenas daqueles que eram, na altura, os três melhores voltistas: Pogacar, Jonas Vingegaard e Remco Evenepoel.
2025 foi, porém, o ano da sua verdadeira afirmação. Venceu três das sete principais provas de uma semana do calendário mundial – Volta ao País Basco, Volta à Romandia e Volta a Suíça – e conseguiu o segundo lugar na Vuelta, tendo levado a disputa da corrida até à última subida e vencido no Alto do Angliru, uma das subidas mais difíceis do mundo. João Almeida não é apenas o melhor ciclista de estrada português da atualidade, é também um dos melhores do mundo. Não é certo que vá ganhar uma competição de três semanas, mas é provável que Portugal esteja mais perto do que nunca de celebrar esse feito.
Atenção à pista
Os leitores mais atentos repararam que, no último parágrafo, não coloquei João Almeida como o melhor ciclista português da atualidade em todas as suas vertentes; há um rapaz de Viana do Castelo que também merece a nossa consideração nesta conversa.
O nome de Iúri Leitão entrou pelas casas dos portugueses a 8 de agosto do ano passado, quando deu a Portugal a segunda medalha dos Jogos Olímpicos de Paris, uma prata no Omnium, disciplina na qual tinha sido campeão do mundo em 2023. Leitão chorou de emoção no pódio e não era caso para menos. Há 10 anos, era impensável ver Portugal a ganhar uma medalha olímpica no ciclismo de pista. A história na capital francesa, felizmente, não acabou aí.
Dois dias depois, na véspera do fim dos Jogos e na companhia de Rui Oliveira, Portugal foi apanhado de surpresa pela medalha de ouro da dupla na prova de Madison. Nem nos meus melhores sonhos esperaria uma coisa destas. Portugal nunca tinha ganho um Madison num grande campeonato e as medalhas que tinha eram apenas em Europeus. A ousadia e o espírito de equipa de Leitão e Oliveira eternizaram-nos. Foi a primeira medalha de ouro olímpica de Portugal fora do atletismo. Com o triunfo, Iúri Leitão tornou-se no primeiro desportista português a conquistar duas medalhas na mesma edição de uns Jogos. Estatisticamente, o vianense é, a par de Carlos Lopes e Pedro Pablo Pichardo, o melhor atleta português na história dos Jogos Olímpicos.
A magnitude do feito de Iúri Leitão que, para além de campeão olímpico e mundial, é também pentacampeão europeu, é estratosférica, especialmente se pensarmos que, há 15 anos, o ciclismo de pista praticamente não existia em Portugal. O ouro de Leitão e Oliveira veio dar razão ao que muitos dizem e que já tinha ficado evidente na canoagem: o investimento público no desporto traz resultados.
No caso português, bastou apenas um centro de alto rendimento, o de Sangalhos (que também serve outras modalidades), inaugurado em 2009 após um investimento pouco superior a 12 milhões de euros, para nos dar duas medalhas olímpicas, além das inúmeras medalhas mundiais e europeias nos vários escalões.
O ciclismo de pista não é tão popular como a vertente de estrada e, por isso, Iúri Leitão é muitas vezes esquecido no debate do melhor ciclista português de sempre. Mas não podemos ignorar um campeão olímpico.
Conclusão
Vou deixar para o leitor a escolha do melhor de todos os tempos. Não me vou pronunciar pois sei o quão implacáveis são as redes sociais. Mas há uma escolha para todos os gostos. Se é um pouco mais velho e adepto do Sporting, é provável que Agostinho ocupe o primeiro lugar no seu coração. Se o que acha que é importante no ciclismo são as provas por etapas, João Almeida será a sua escolha. Se é um bocadinho mais eclético e o que valoriza são os grandes triunfos com as cores nacionais, Rui Costa e o Iúri Leitão têm a prioridade. Na verdade, não importa muito quem escolha; os quatro deixaram, e ainda deixam, a sua marca indelével no ciclismo nacional.