Nove anos depois, os Salesberry garantem que a maior sensação de segurança, o ritmo de vida mais tranquilo e a integração na cultura italiana fizeram desaparecer a vontade de regressar aos Estados Unidos
Jason Salesberry nunca tinha posto os pés em solo italiano antes de se mudar para o país, em outubro de 2017. Hoje é proprietário de uma casa numa vila no topo de uma colina e já está a planear a colheita do seu olival com cerca de dois hectares.
Nos nove anos desde que a família chegou a Nápoles sem nunca antes ter visitado Itália, a sua vida transformou-se numa sucessão de aventuras pela Europa - desde voos de parapente na Suíça e mergulho na Grécia até dias passados na praia local e a saborear gelados napolitanos.
"Viver no coração da Europa abriu um mundo de aventuras para a nossa família", conta hoje Jason à CNN Travel.
É uma vida que o veterano da Marinha dos Estados Unidos, que cresceu em San Diego, na Califórnia, e esteve anteriormente colocado em Porto Rico e no Japão, nunca imaginou ter. No entanto, sempre foi fascinado pela cultura italiana e sonhava, um dia, vivê-la em primeira mão.
Depois de conhecer a mulher, Sherry, também veterana da Marinha norte-americana e natural de Trindade e Tobago, e de constituírem família, esse sonho transformou-se num plano concreto.
Um salto para o desconhecido
"Nunca imaginei que o caminho da minha vida me levasse até uma vila no topo de uma colina no sul de Itália", afirma Jason.
"Foi, na verdade, apenas uma aventura. Queríamos experimentar algo novo."
Havia também motivações práticas. Jason explica que estava cada vez mais preocupado com os crimes violentos em Chesapeake, no estado da Virgínia, onde a família vivia desde 2009. Queria proporcionar um ambiente mais seguro e estável à filha pequena.
"Quando comparei os índices de criminalidade da Europa com os dos Estados Unidos, a decisão tornou-se clara", afirma. Candidatou-se a uma vaga numa base militar perto de Nápoles e foi contratado pouco tempo depois.
Mas, enquanto Jason estava ansioso por dar o salto para o desconhecido, Sherry precisou de muita persuasão.
"Eu praticamente protestei contra a ideia de vir para cá", admite. Acabou por aceitar a mudança com uma condição muito clara: ficariam apenas três anos. "Sou filha única e a minha mãe não queria que eu viesse."
Como encaravam a mudança como uma missão temporária, decidiram manter a casa de três quartos que tinham na Virgínia em vez de a vender. Fizeram as malas apenas com o essencial, sem saber ao certo o que esperar das habitações em Itália.
Em outubro de 2017 chegaram a Nápoles com a filha e o cão. No início estavam ansiosos e não conseguiam evitar perguntar-se se tinham tomado a decisão certa. Jason recorda vividamente a primeira noite no país, quando "o peso da falta de familiaridade" levou Sherry às lágrimas.
Acabaram por encontrar uma casa para arrendar no complexo da Marinha dos Estados Unidos, em Pozzuoli, uma cidade histórica construída sobre uma caldeira vulcânica. O local oferecia vistas magníficas, mas também os isolava da vida local, "numa bolha americana".
Aprender a abrandar
À medida que se instalaram, a família apaixonou-se pela gastronomia local e pelo ritmo de vida mais calmo de Nápoles.
"Nos Estados Unidos, toda a gente anda ocupada", explica Sherry. "Tens o teu horário das nove às cinco, depois tens de preparar tudo para ir para a escola e para o trabalho no dia seguinte. Aqui não é assim."
Conta, entre risos, que tiveram de se adaptar a uma cultura onde um jantar pode durar duas ou três horas.
"Tivemos de aprender a arte de abrandar", acrescenta Jason. "Mas os benefícios compensaram largamente as adaptações."
Como berço da pizza, Nápoles proporcionou inúmeras descobertas gastronómicas. A família adorava experimentar os restaurantes familiares da cidade e perceber como cada cozinha dava um toque próprio às receitas clássicas de massa e pizza.
Mas os horários locais causaram algum choque cultural.
Os restaurantes raramente abriam para jantar antes das 19h00, precisamente quando a família já começava a preparar-se para descansar. Além disso, Jason e Sherry, que trabalha num banco, continuavam muitas vezes a cumprir horários de trabalho dos Estados Unidos.
Depois havia o trânsito. O estilo de condução "intenso" em Nápoles assustou tanto Sherry que demorou oito meses a ganhar coragem para conduzir.
"Ainda hoje não me consigo habituar", admite, explicando que considera os condutores locais muito "imprevisíveis" e que está constantemente "com os olhos em todo o lado". "Na América sabes o que o outro condutor vai fazer. Aqui fazem o que lhes apetece."
Até o sistema de recolha de lixo se revelou um desafio, exigindo a separação dos resíduos em cinco categorias diferentes, com regras que variavam de bairro para bairro.
Do ponto de vista financeiro, a família verificou que o dinheiro rendia muito mais do que na Virgínia. O custo mais baixo dos produtos frescos e dos serviços permitiu-lhes viver confortavelmente durante anos apenas com um salário, embora comer fora tivesse um preço semelhante ao dos Estados Unidos.
Apesar de sentirem falta da conveniência da comida rápida americana, Jason reconhece que, antes da mudança, recorria frequentemente a refeições rápidas e processadas. Acredita que, se tivesse permanecido em Virgínia, hoje seria "muito menos saudável".
À medida que ultrapassavam as dificuldades iniciais, a família começou a perceber que já não tinha tanta vontade de regressar aos Estados Unidos. Quando chegaram ao fim dos três anos previstos, em 2020, a pandemia de Covid-19 e os confinamentos tornaram a permanência em Itália a opção mais lógica.
"Eu pensava mesmo que íamos voltar e estava preparada para isso", conta Sherry, que confessa que ainda resistia à vida em Itália, ao ponto de nem sequer pendurar quadros nas paredes. Jason era diferente, diz ela. "Acho que, no fundo, ele sempre quis ficar."
Mas Sherry acabou por abraçar a nova vida, deixando de depender apenas de aplicações de tradução para aprender italiano e inscrevendo-se em aulas formais da língua. Atualmente é quem melhor fala italiano na família, conseguindo lidar com as situações do dia a dia graças a uma mistura de vocabulário e gestos.
"Temos de ficar fluentes este ano", afirma. "Porque nenhum dos nossos vizinhos italianos fala inglês e não posso ser a única a desenrascar-me."
Em 2022, a família voltou a ponderar regressar aos Estados Unidos. Jason diz que estavam "50-50 entre ficar e voltar", mas um tiroteio em massa num supermercado Walmart em Chesapeake, na Virgínia, em novembro desse ano, acabou por inclinar a balança.
A questão da segurança
"Estava muito preocupado com a segurança da nossa filha", diz Jason sobre a menina, agora com 10 anos, que frequenta uma escola americana na base militar.
"Esse foi o verdadeiro ponto de viragem." Jason reconhece que também existe criminalidade em Nápoles, mas considera que não tem a mesma dimensão. "Simplesmente não se ouve falar disso aqui", afirma. "A segurança era a prioridade."
Ainda assim, enfrentaram outros desafios. Ao longo de oito anos sentiram um aumento da atividade sísmica nos Campos Flégreos, que culminou com um sismo de magnitude 4,4.
"Abalou completamente a cidade", recorda Jason. "Foi aí que pensámos: temos de nos mudar."
À procura de uma vida mais tranquila e rural, longe da zona sísmica, encontraram o destino ideal em Caiazzo, uma vila situada a norte de Nápoles. Compraram uma propriedade com sete quartos, cinco casas de banho, cerca de dois hectares de terreno e um olival histórico com 40 oliveiras, por aproximadamente 250 mil euros.
Embora ambos continuem a trabalhar na base militar e possuam autorizações de residência (Permesso di Soggiorno) que lhes permitem viver e trabalhar em Itália a longo prazo, Jason diz que o contacto diário com italianos faz com que se sintam cada vez mais integrados.
"É preciso fazer um esforço consciente para sair, aprender, conviver e mergulhar na cultura", afirma, acrescentando que o seu italiano melhorou bastante desde que se mudaram para o campo.
Uma nova aventura
Os dias da família são agora ocupados com obras na propriedade e aprendizagem agrícola. "Estamos a embarcar na nossa próxima grande aventura italiana: aprender a cuidar da terra e a colher as nossas próprias azeitonas", conta Jason, acrescentando que esperam produzir "um excelente azeite" já em outubro.
Quase uma década depois daquela que deveria ser apenas uma curta estadia temporária em Itália, a família Salesberry já descartou a ideia de regressar aos Estados Unidos. Entretanto, ganharam também um novo membro na família: um cão de rua local que "os adotou". (Infelizmente, o cão que trouxe da Virgínia acabou por morrer.)
"Estamos com ele porque foi ele que nos escolheu", afirma Sherry.
Ao refletir sobre a experiência, Sherry diz ter reparado que cada vez mais norte-americanos procuram mudar-se para Itália, mas deixa um aviso para quem pensa seguir o mesmo caminho sem preparação.
"Não acho que seja para toda a gente", afirma, sublinhando que é preciso pelo menos um ano para ultrapassar o choque cultural e compreender verdadeiramente o país. "Mas nunca saberíamos se não tivéssemos tentado… Quando viemos para cá, não fazíamos ideia de que iríamos ficar, comprar uma casa e continuar aqui tantos anos depois."
A família ainda não excluiu totalmente a hipótese de regressar à Virgínia dentro de alguns anos e manteve a casa que lá possui. No entanto, acredita que o estilo de vida italiano lhes assenta melhor e os faz mais felizes.
"A vida é muito tranquila", conclui Sherry. "E, sinceramente, já não me imagino a voltar. Apesar de toda a minha família estar lá, foi aqui que vivemos a maior parte da nossa vida em família."
