Vandalizar esculturas, nadar nos canais ou descer escadarias de Maserati. Eis os motivos que levam turistas a aterrorizar Veneza

CNN , Por Julia Buckley
30 out, 15:00
Os maus comportamentos dos turistas deste ano em Veneza

Nadar em canais protegidos pela UNESCO. Invadir locais históricos. Conduzir pela escadaria mais famosa do mundo. E justamente quando se pensava que este cenário não poderia piorar: esmagaram esculturas inestimáveis num ataque de raiva.

À medida que se foram levantando as restrições de viagens este verão e os turistas voltaram a inundar a Europa, as notícias de que os visitantes estavam a vandalizar e a ter comportamentos de risco em Itália não param de chegar.

Em junho, dois turistas americanos causaram danos no valor de 25.000 dólares nos degraus espanhóis em Roma, quando empurraram - e depois atiraram - as suas trotinetes elétricas pela escadaria abaixo.

Uma atitude chocante, correto? Pois bem, em maio, outro visitante saudita conduziu o seu Maserati alugado pela mesma escadaria de pedra, partindo dois dos degraus.

Entretanto, em Veneza, um grupo de turistas nadou, de forma despreocupada, nos canais protegidos pela UNESCO, e que se unem ao sistema de esgotos da cidade. Em agosto, dois australianos surfaram pelo Grande Canal, e em maio, um grupo de americanos despiu-se para dar um mergulho todos nus ao lado do emblemático Arsenal de Veneza do século XIV.

Seria de pensar que ficariam por aí...

Mas não: Também em agosto um australiano decidiu conduzir a sua vespa pelo antigo local romano de Pompeia e, em outubro, um americano quebrou duas esculturas inestimáveis no Museu do Vaticano, aparentemente depois de lhe ter sido dito que não podia ver o Papa. Dois meses antes, um casal americano foi apanhado a esculpir as suas iniciais no Arco de Augusto, um monumento com 2.000 anos ao lado do Coliseu.

Mas, será isto pior do que o habitual, ou será que eventualmente acabámos por nos esquecer que as pessoas têm comportamentos destes quando estão de férias? 

O número de visitantes internacionais de janeiro a julho de 2022 aumentou 172% em relação a 2021 e mesmo 57% em registos pré-pandémicos, de acordo com a ENIT, a agência turística italiana.

Eike Schmidt, diretor da Galeria Uffizi em Florença - o museu mais visitado de Itália em 2021 - afirma que turistas com comportamentos destes não são novidade.

“Não foi pior este ano - aquilo a que estamos a assistir agora é igual àquilo a que assistíamos em 2019, e voltou porque os visitantes voltaram”, diz ele.

“Há certamente pessoas que não respeitam os locais em que se encontram.” Como a mulher que ele testemunhou na pré-pandemia, sentada no meio das obras de arte inestimáveis, a fazer uma pedicure.

O Uffizi está tão bem vigiado que os incidentes raramente acontecem no interior, afirmou Schmidt - mas no exterior é uma história diferente. A galeria cria o seu próprio culto pedestre, com bancos embutidos esculpidos da pedra local pietra serena, funcionando como um lugar para os turistas cansados e com fome se sentarem a apreciar o local.

Em maio, um turista conduziu um Maserati pelos degraus espanhóis. (Polizia Roma Capitale)

Só que eles não se limitam a estar sentados. Cientes de que as bancadas foram esculpidas à mão no século XVI, sentam-se e comem, espalhando na pedra porosa os molhos da comida, que rapidamente mancham a pedra. Também é frequente grafitarem o exterior da galeria.

Em 2018, afirmou Schmidt, os funcionários faziam um esforço conjunto todas as manhãs para limpar “todas as marcas que as pessoas deixavam nos edifícios à noite, depois de terem bebido uns copos”.

Ele diz que esta política valeu a pena.

“As pessoas não têm tanta tendência para escrever numa superfície limpa - mas se alguém fez um pequeno desenho ou escreveu uma palavra má, torna-se muito mais fácil [acrescentar a sua] porque a barreira psicológica é mais baixa. Mas muito raramente escrevem coisas no edifício. O que voltou pós-pandemia é o problema dos panini e vinho e coca-cola e todo o tipo de coisas gordurosas e com açúcar. As pessoas compram-nas em locais que não têm lugares onde se possam sentar e depois procuram-nos noutro sítio e a primeira coisa que encontram são os monumentos.”

No ano passado, Schmidt apelou a que as empresas de fast food fossem taxadas com valores mais elevados do que os restaurantes que têm lugares sentados e casas de banho para os seus clientes, mas agora refere: “Nada mudou, nenhum político quer participar neste debate.”

"Já houve quem roubasse gôndolas"

Em maio, um visitante italiano danificou permanentemente a Igreja do Redentor com graffitis. (Luigi Brugnaro)

As coisas estão menos pacíficas em Veneza, onde a polícia municipal até agora tratou 43 incidentes de turistas que nadaram em canais este ano, segundo o comissário chefe Gianfranco Zarantonello. Isso é quase o dobro do total para todo o ano de 2021, no qual foram apanhadas 24 pessoas a nadar nos canais. E bastante preocupante, porque é pior do que os 37 casos em 2019.

Houve, também, até agora 46 casos de turistas que danificaram monumentos de Veneza este ano.

“Estão a ter comportamentos que sempre tiveram, só que este ano os números voltaram ao que eram antes da pandemia, o que corresponde a um aumento de comportamentos de vandalismo”, diz ele.

“Por vezes Veneza não é vista como uma cidade. Os turistas comportam-se como se estivessem na praia.”

E enquanto de fora parece que estes episódios se estão a tornar mais violentos - um turista roubou um táxi aquático este verão conduzindo-o à máxima velocidade pelo Grande Canal - Zarantonello afirma que este comportamento radical não é nada de novo. “Há uns anos um turista russo roubou um vaporetto (autocarro aquático)”, conta ele. “Já houve quem roubasse gôndolas. Uma vez caíram [de uma gôndola roubada] no Ano Novo e quando chegámos ao pé deles, um dos indivíduos já estava a morrer de hipotermia. Nós salvámo-lo.”

Para além dos turistas a nadar nos canais, este ano até agora Zarantonello e os seus colegas lidaram com uma turista checa em topless num memorial de guerra, um belga a descer numa vespa pela marginal [pedestre], dois australianos a surfar o Grande Canal em eFoils, e um italiano de outra região a danificar de forma permanente com graffiti uma das principais igrejas da cidade.

Embora Zarantonello não acredite que estas ocorrências tenham sido agravadas pela pandemia, Schmidt sugere: “É a sua primeira viagem em dois anos, é jovem e não lhe é permitido álcool no seu país de origem, está aqui pela primeira vez e pode ter comportamentos dos quais se envergonharia se estivesse no seu país.”

"O resultado do elevado volume de visitantes"

Em junho, dois americanos atiraram as suas trotinetes elétricas pelos degraus espanhóis abaixo, danificando o monumento. (Polizia Roma Capitale)

Os turistas com este tipo de conduta não são, de modo algum, um fenómeno novo, obviamente. Os turistas britânicos, australianos e americanos são há muito conhecidos pelo seu terrível comportamento no Sudeste Asiático, por exemplo.

Mas Tom Jenkins, CEO da Associação Europeia de Turismo (ETOA), diz que há uma série de incidentes muito específicos em Itália - e isso deve-se ao seu tecido singularmente sensível. Itália desenvolve os seus ambientes e arquitetura valiosa enquanto cidades de arte e, quando se adicionam visitantes a estes locais, esta torna-se uma combinação explosiva.

“Itália é peculiar na riqueza de características turísticas que o país tem, e é única na medida em que as pessoas ocupam estes espaços de uma forma que não ocorre em muitos outros países”, afirmou.

Veneza e Roma, acrescentou, são cidades vivas em que as pessoas coexistem com tesouros culturais. “Não há nenhum local em França [o país mais visitado do mundo] que seja tão sensível quantos estes. E [estas cidades italianas] recebem 65 milhões de visitantes internacionais por ano, pelo que não é assim tão surpreendente que, dentro do elevado volume de pessoas que passeiam nestes espaços, uma pequena fração se comporte de forma irresponsável.”

Como o ambiente é tão frágil, qualquer dano é suscetível de afetar um local de património mundial, diz ele, e os outros países têm menos património que possa ser danificado.

“Penso que o que estamos a observar é o resultado do elevado volume de visitantes - e do comportamento terrível de uma fração desse número total”, afirmou.

“Também é possível que Itália atraia pessoas que têm um interesse mais amplo que vai além da curiosidade artística, arquitetónica e arqueológica, e estas pessoas não se encaixam necessariamente nesse ambiente”. Aquela ideia da dolce vita, de que Itália é um lugar de liberdade, não está a trazer nada de positivo ao seu património.

"Um sítio sem regras"

Os turistas querem imitar filmes como 'La Dolce Vita'. (FilmPublicityArquivo Arquivo/United Archives/Getty Images)

Mas nem tudo se deve à fragilidade de Itália, afirmam os peritos italianos. Este ano, não tivemos histórias semelhantes a sair de França, Espanha ou outros destinos europeus populares. Pelo contrário, dizem eles, aquilo que os estrangeiros pensam sobre Itália está a conduzi-los a más condutas.

Para a historiadora cinematográfica Nicola Bassano, filmes como “La Dolce Vita”, o clássico de 1960 de Federico Fellini, no qual Marcello Mastroianni e Anita Ekberg saltam para a Fonte de Trevi para se beijarem, criaram uma falsa ideia de Itália no estrangeiro.

“A Itália é vista e julgada pelos turistas estrangeiros - e particularmente pelos americanos - através de estereótipos enraizados nos filmes, especialmente “La Dolce Vita” e “Férias em Roma” e através da imagem que os estrangeiros criaram de nós através da imigração [italiana]”, diz ele.

“É visto como um lugar desprovido de regras e leis, onde tudo é arte e, portanto, nada é arte.”

“Os turistas não se identificam com o património artístico porque não têm qualquer relação com a nossa história - por isso referem-se à sua imaginação cultural e, portanto, ao nosso cinema.” A cena da Fonte de Trevi no “Dolce Vita” tornou-se uma referência que gostam de imitar.

“Não distinguem entre o romano vestido de centurião para ganhar gorjetas e o Coliseu. Tudo se torna parte de um espetáculo onde não há regras.”

Maria Pasquale, jornalista e autora de “How to be Italian”, concorda.

“O mundo está enamorado pela Itália e o estilo de vida italiano é a marca registada do país”, diz ela. “Na sua abordagem da vida, os italianos têm algo intangível. Parecem estar verdadeiramente na festa mais fixe e magnífica se sempre – onde todos querem entrar, mas os convites são limitados. Porque ser italiano é um sentimento, é difícil de expressar verdadeiramente. E fazer parte dessa festa é entender que esse sentimento é inspirado por muitas coisas: as vistas deslumbrantes, os sons, os gostos, os cheiros, tudo isso. Itália como uma ideia, como uma imagem é excitante, dinâmica, sedutora e inebriante. Oferece aos estrangeiros uma fuga; oferece liberdade.”

“Tantos turistas me têm dito ao longo dos anos, 'Em Itália não há regras'. Mas eles estão enganados. Claro que há regras, mas quem vive aqui e lida com a luta diária de instabilidade burocrática, económica e institucional pode dizer: infelizmente, muitas vezes não há consequências para aqueles que não seguem as regras.”

Jenkins concorda: “Penso que as autoridades têm de começar a ser encaradas como uma entidade que trabalha no sentido de evitar estes episódios. A forma como o vão prevenir é um ponto questionável.” O presidente da câmara de Veneza, Luigi Brugnaro, tem estado constantemente a discutir no Twitter sobre os poderes limitados que as autoridades têm para lidar com os “imbecis”. Uma vez que muitas destas ocorrências, tais como nadar em canais, são classificadas como delitos civis, só podem multar e banir estes indivíduos dos limites da cidade por um período de 48 horas. Só quando os monumentos são danificados é que a ação legal é uma opção viável.

A loucura das férias

O anonimato das viagens mostra o nosso pior lado. (Parco Archeologico di Pompei)

Mas porque é que o mau comportamento surge especificamente nos veraneantes? Para a psicóloga Dra. Audrey Tang, membro da Sociedade Britânica de Psicologia, é uma situação semelhante aos trolls das redes sociais: “Temos uma sensação de anonimato. Não somos conhecidos, e isso dá-nos a sensação de proteção.”

Um elemento adicional, afirma ela, é a “mudança para um comportamento arriscado” - o conceito em que grupos de amigos se unem para se comportarem de formas mais extremas, acabando por fazer coisas que nunca sonhariam em fazer sozinhos.

“Se estiveres lá com amigos, a mudança para um comportamento arriscado pode ocorrer - podes até nem perceber que o estás a fazer, mas estás num grupo e são todos apanhados pelo entusiasmo.”

Mas geralmente resume-se a duas coisas: uma prática e uma psicológica. Beber nas férias “remove o filtro que normalmente temos; acrescenta-se a mudança para um comportamento arriscado e podemos dar por nós a fazer algo que nunca pensaríamos fazer”, diz ela.

“Jung afirmou que todos nós temos um lado negro, e se o suprimirmos é um pouco como uma panela de pressão, e vai explodir a dada altura. As férias dão-nos permissão para explodir. E pode ter-se agravado [desde a pandemia] porque tivemos forçosamente de nos conter.”

Além disso, diz ela, pagar por umas férias gera uma sensação de legitimidade. “Esquecemo-nos que aquilo a que temos direito tem de ser socialmente aceitável. E que somos parte de uma comunidade. Se todos se comportarem da mesma forma que [os que quebram as regras] isso torna-se um problema.”

Ignorância como justificação?

Turistas nadam em Veneza alegando não saber que não era permitido. (CNN)

Por vezes, os turistas dizem que não sabiam que o que estavam a fazer não era permitido - essa foi a desculpa do australiano apanhado a conduzir por Pompeia. E Zarantonello afirma que, por vezes, isso é verdade. Quando se trata de nadar ou surfar em Veneza, refere, “estas são atividades que são permitidas nos seus próprios países, mas proibidas aqui”. Portanto, é o tipo de comportamento que encaram como sendo legal.”

Tang refere que, por vezes, as pessoas não verificam as regras de um destino antes de viajarem. Passar à frente na fila, cuspir na rua, ou mesmo urinar, diz ela, são maneiras de estar “completamente inapropriadas” na Europa, mas são frequentemente aceites noutros locais - embora acrescente que “Isso não é desculpar o comportamento, porque temos de respeitar a situação cultural do local em que nos encontramos a passar férias.”

Jenkins está menos convencido com este argumento.

“Penso que é bastante óbvio que não se deve andar de mota por Pompeia. Estes tipos são claramente idiotas. As pessoas têm escrito nomes em estátuas e quebrado coisas desde o início dos tempos, mas isto não é desculpa. É abominável.”

Talvez se trate menos de ignorância, e mais de um desejo de influência na Internet. À medida que as redes sociais ganham um domínio cada vez mais forte sobre as pessoas, vemos cada vez mais um comportamento ultrajante, afirma Tang: “O mau comportamento recebe mais gostos, partilhas e notoriedade do que as atitudes positivas, e muitas pessoas usam-no para ganhar seguidores e causar impacto. Algo terrivelmente errado pode ser extremamente eficaz nesse contexto.”

Zarantonello observa isto muitas vezes em Veneza. “As atitudes das pessoas são amplificadas pelas redes sociais”, confirma ele.

Um turista inglês, professor universitário, tweetou um vídeo em julho no qual nadava no Grande Canal e depois fugia da polícia, numa tentativa de imitar o seu herói, o poeta do século XIX, Lord Byron. Mas atitudes como esta, explica Zarantonello, estão a prejudicar a cidade que Byron amava – por isso pede a estes indivíduos que considerem as suas ações, mesmo quando se trata de algo tão aparentemente banal como nadar num canal.

“É uma questão de respeito pela cidade. É um lugar tão rico em história, não é uma piscina ou uma praia onde se pode fazer tudo isto”, diz ele.

“Byron esteve aqui há 200 anos. Seria melhor ler um dos seus poemas do que nadar no Grande Canal.”

E quem se considera fã de Itália deve ter cautela. Quando os bustos nos Museus do Vaticano foram danificados na semana passada, Mountain Butorac, que lidera as peregrinações a Roma, disse à CNN que estava preocupado com a possibilidade de haver repercussões para todos nós, e não apenas para o vândalo que os estragou.

Depois da escultura de Pietà, de Miguel Ângelo, ter sido atacada por um húngaro com um martelo em 1972, a mesma foi colocada atrás de um vidro à prova de bala. Butorac teme que este possa ser o sinal do que está para vir:

“Uma das coisas bonitas é que [o museu] permite que os visitantes fiquem literalmente cara a cara com estas esculturas – e o meu receio é que com um comportamento como este, possam ser colocadas barreiras.”

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