As autoridades locais dizem que a igreja de Santa Maddalena atrai até 600 pessoas por dia durante a época alta
Há mais de uma década que imagens de Santa Maddalena, uma pequena igreja de aldeia no norte de Itália, enquadrada por picos recortados das montanhas Dolomitas, circulam online. Mas os habitantes dizem que foi no verão passado que o fluxo constante de visitantes se transformou numa verdadeira enxurrada.
Agora, as autoridades estão a intervir para abrandar o fluxo, introduzindo novas restrições destinadas a travar o turismo de um só dia e a aliviar a pressão sobre a aldeia.
A partir de maio, o acesso à aldeia junto à igreja classificada como Património Mundial da UNESCO será restringido através de uma barreira que permitirá a entrada apenas a residentes e a visitantes que fiquem pelo menos uma noite na zona, de acordo com o município local. Os carros e autocarros turísticos que transportem excursionistas de um dia serão impedidos de entrar.
Os visitantes que se desloquem apenas por um dia — até 600 pessoas durante a época alta — terão, em alternativa, de caminhar 30 minutos ou mais a partir de parques de estacionamento designados para chegar à igreja. O município ainda não decidiu se será introduzido um serviço de transporte para visitantes incapazes de fazer o percurso a pé.
Quando o parque de estacionamento da aldeia atingir a sua lotação máxima, os condutores serão obrigados a estacionar ainda mais longe, diz Peter Pernthaler, presidente da câmara do distrito de Funes, que afirmou à CNN que o sistema de entrada filtrada funcionará de maio a novembro. O estacionamento custa atualmente 4 euros por dia, mas Pernthaler diz que os preços vão aumentar para desencorajar visitantes que chegam apenas para tirar uma fotografia rápida.
“Não quero falar de turismo excessivo. Essa não é a palavra certa”, afirma. “Nem sequer estou a dizer que os turistas são um incómodo. Mas vêm muitos, e temos de os gerir. Pela tranquilidade dos residentes e também para garantir uma experiência positiva para os próprios turistas.”
A ascensão de Santa Maddalena como ponto de atração das redes sociais tem sido um processo de longa data. A igreja ganhou força entre os turistas chineses depois de ter aparecido nos cartões SIM emitidos por um operador de telemóveis chinês há mais de uma década. Mais tarde, a montanha Seceda, situada nas proximidades, foi utilizada como proteção de ecrã na atualização do iOS 7 da Apple em 2013, o que levou a uma onda de visitantes interessados em ver a imagem na vida real - com números diários que, segundo consta, atingem os 8.000 nas horas de ponta.
Ambos os locais tornaram-se desde então presenças regulares no TikTok e no Instagram, atraindo aquilo que os habitantes descrevem como “turistas de entra e sai” — visitantes que registam a paisagem e seguem rapidamente viagem, contribuindo pouco para a economia local enquanto exercem pressão sobre as infraestruturas.
"Destroem tudo"
Segundo a vereadora Roswitha Moret Niederwolfsgruber, os turistas de um dia entopem as estradas estreitas e desencorajam os visitantes que ficam mais tempo. “Destroem tudo à sua passagem para tirar uma fotografia”, explica à CNN. “Tornou-se insustentável, não há equilíbrio”.
As autoridades locais sublinham que o objetivo não é afastar o turismo por completo, mas sim abrandá-lo.
“Há fotógrafos profissionais que vêm aqui, e há turistas que mal podem esperar para tirar uma simples selfie e ir embora”, conta Pernthaler. “Há pessoas que param e ficam aqui durante dias, mas há também aquelas que chegam e partem em uma hora e meia.”
As tentativas de travar o turismo de massas não são novas na região. No verão passado, Georg Rabanser — antigo snowboarder da seleção nacional italiana e proprietário de terrenos de pastagem perto de Seceda — instalou um torniquete para cobrar aos visitantes que atravessavam o seu terreno para fotografar as vistas da igreja de San Giovanni di Ranui, do outro lado do vale. A iniciativa, disse mais tarde à CNN, acabou por atrair ainda mais turistas.
O próprio Pernthaler enfrentou críticas devido às restrições, mas afirma não querer ser recordado como o “presidente da câmara que afasta turistas”. Em vez disso, enquadra as medidas como parte de uma estratégia mais ampla de “turismo lento”, incentivando os visitantes a trocarem visitas apressadas por estadias mais longas e profundas.
A aplicação das regras terá custos, exigindo mais patrulhas, mas Pernthaler argumenta que se trata de um investimento necessário. “Precisamos de ordem, tanto para quem vive aqui como para quem quer chegar, tirar a fotografia clássica e ir embora”, disse aos meios de comunicação locais.
O que pode parecer uma resposta extrema poderá também revelar-se preventiva. Muitos habitantes temem que os próximos Jogos Olímpicos de Inverno em Cortina, com início marcado para a próxima semana, do outro lado das Dolomitas, intensifiquem as pressões existentes. Um estudo do think tank The European House Ambrosetti estima que os Jogos poderão atrair mais nove milhões de visitantes entre 2027 e 2030.
As regiões que deverão beneficiar mais — e sentir maior pressão — incluem Milão, Belluno, Bolzano, Sondrio e Trento, zonas que já enfrentam saturação turística. Para comunidades como Villnöss, o atual afluxo poderá ainda vir a revelar-se a calmaria antes de uma tempestade muito maior.