"Uma receita para o desastre". Como a Itália poderá perder relevância na Europa se Giorgia Meloni vier a ser primeira-ministra

Pedro Falardo , com Lusa
1 ago, 08:30
Giorgia Meloni (AP)

O embaixador Francisco Seixas da Costa considera que a Itália “vai perder relevância no plano da liderança europeia” caso um executivo de direita radical assuma o poder

Com a demissão de Mario Draghi, Itália prepara-se para ir a votos no dia 25 de setembro. As sondagens indicam a forte possibilidade de se constituir uma maioria de direita radical no Parlamento que leve à formação de um governo composto pelo Fratelli d’Italia (FDI) de Giorgia Meloni, líder das sondagens, a Lega de Matteo Salvini, e o Forza Italia de Silvio Berlusconi.

O comentador da CNN Portugal e embaixador Francisco Seixas da Costa explica o que se pode esperar de um governo liderado por Meloni e apoiado pelas outras duas forças. “Há um elemento comum entre esses partidos que é a rejeição da imigração. É esse o alimento da extrema-direita em Itália desde há uns anos, dado ser o país que mais imigrantes económicos recebe do Norte de África, fruto da sua posição geográfica. Essa situação ajudou muito a que a extrema-direita italiana crescesse”, afirma o embaixador, destacando também a “grande crítica à postura da União Europeia, em geral,” por parte do FDI e da Lega.

Por outro lado, Seixas da Costa destaca a diferença de posição entre os partidos de Meloni e Salvini face à guerra da Ucrânia. “Meloni foi, ao longo destes últimos meses, relativamente atlantista, diferindo fortemente da opinião de Salvini”.

E como seria o programa de um governo liderado por Meloni? O antigo secretário de Estado dos Assuntos Europeus afirma que “seria fortemente ancorado na luta contra a imigração e na crítica às políticas europeias em matéria de imigração. Sobre a questão ucraniana, para a qual todos olham para a Itália, devido ao papel desempenhado por Mario Draghi, é tudo muito pouco claro. Não sabemos em que medida a posição de Meloni vai ou não colar-se à de Salvini, ou vice-versa”.

Francisco Seixas da Costa destaca, no entanto, um aspeto bastante negativo para a Itália caso um governo de direita radical assuma o poder. “Este eventual governo introduz um fator muito importante, que é a perda da centralidade da Itália no contexto do diretório europeu, feito em conjunto com a França e a Alemanha e personalizado em Draghi. Agora, com partidos anti-Europa, que introduzem mudanças naquilo que é a postura europeia de solidariedade e humanismo, vão ter dificuldades. A Itália vai perder relevância no plano da liderança europeia, isso é claro”, atira o embaixador.

Em matéria de economia, Seixas da Costa releva também a incerteza em torno do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR). “A Itália tem hoje as taxas de juro mais elevadas entre os países do Sul em matéria de dívida soberana, mas, apesar de tudo, tinha um ‘escudo de proteção’, que era o prestígio de Mario Draghi, em virtude do trabalho fantástico no BCE. Foi quem permitiu à Itália obter o maior cheque europeu no âmbito do PRR. No segundo semestre deste ano, há uma segunda tranche do plano que terá de ser discutida. Sendo uma outra coligação a negociar, a boa vontade da Comissão Europeia não será a mesma”. Ainda assim, acredita que a Itália “não será posta contra a parede” pela Comissão.

Será Meloni aceite por Salvini?

O governo de Draghi, apoiado por partidos de esquerda e direita, durou cerca de ano e meio. Terá um hipotético governo chefiado por Meloni hipótese de superar essa marca? Seixas da Costa tem dúvidas, e aponta um “fator perturbador”: a posição de Salvini. “Salvini não vê com bons olhos a liderança de Meloni. Entrará numa coligação de forma relutante, tendo em conta que ele se considera o líder da direita radical italiana. Um governo destes levará para dentro de si esta conflitualidade entre os dois, que é mesmo de natureza pessoal”, considera.

“Tenho muitas dúvidas que esta coligação tenha condições para sobreviver. Vamos acabar por ter todas as conflitualidades que o fragmentado sistema italiano permite. Penso que não durará tanto como o governo de Draghi, que era a ‘cola’ desse executivo”. O embaixador sublinha ainda que Meloni “não tem experiência governativa nenhuma” e que, dentro da própria coligação, “será muito rivalizada por Salvini”.

“É uma receita para o desastre”, vaticina Seixas da Costa.

Meloni proibiu saudações romanas e menções ao fascismo no partido

Giorgia Meloni tem procurado 'suavizar' a sua imagem internamente e credibilizá-la externamente, contrariando o radicalismo de direita que rivais e potenciais parceiros tentam associar a ela.

Sílvio Berlusconi, líder da Forza Italia (7% a 10% das intenções de voto) e ex-primeiro-ministro italiano, diz temer que Meloni e as posições extremas de Meloni afastem os eleitores do seu partido.

Argumento usado também pelo mais perigoso rival de Meloni, Enrico Letta, líder do Partido Democrático italiano (PD, centro-esquerda, com 22% a 23% das intenções de voto), que alertou que nas eleições de 25 de setembro as opções serão quase certamente entre dois blocos: um progressista e centrista - onde se insere - e outro populista de direita.

“Ou ganha a Europa comunitária, do [programa] Next Generation EU, do Erasmus e da esperança, ou ganha a Europa de Viktor Orbán, do Vox e da Marine Le Pen”.

Para suavizar esta imagem de si e do partido, Giorgia Meloni, 45 anos, no meio dos preparativos para a próxima campanha eleitoral, terá instruído, segundo a imprensa italiana, as direções regionais do FDI a alertarem os membros para evitarem declarações mais extremas e menções à ideologia fascista, e para não fazerem em público a “saudação romana”, que consiste em estender o braço direito, num gesto semelhante à saudação nazi.

A jornalista, deputada e antiga eurodeputada, fundadora e presidente do partido, tem tentado construir uma imagem mais respeitável na Europa Comunitária.

Em Bruxelas, quando foi presidente do partido Conservadores e Reformistas Europeus (ECR), Meloni tornou-se o rosto da extrema-direita europeia no exterior, ganhando legitimidade ao envolver-se com instituições da UE, em vez de rejeitar a integração da UE como um todo.

O FDI é membro - com oito eurodeputados - do grupo parlamentar dos Conservadores e Reformistas Europeus (ECR) no Parlamento Europeu, a que presidiu e agora copreside com os polacos do Direito e Justiça (PiS) e que integra 19 partidos de 15 países, incluindo os espanhóis do Vox.

No início deste ano, o ECR de Meloni apoiou a eurodeputada centrista Roberta Metsola como líder do Parlamento Europeu, permitindo a este grupo nomear um vice-presidente. Em dezembro, o festival anual de Atreju - um evento para a juventude italiana de direita fundado por Meloni em 1998 – convidou e conseguiu ter como oradores ministros e o Comissário Europeu Margaritis Schinas.

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