A Itália lá tão longe

23 set, 13:16
Giorgia Meloni Fratelli d'Italia Irmãos de Itália Getty Images

Continua a guerra na Ucrânia. Olhando para aquela tempestade de violência, que importam as eleições italianas do próximo domingo? Para alguns, pouco ou quase nada. De facto, que importaram as eleições suecas de há uns tempos? Para alguns, pouco ou quase nada. E que importou, aliás, que nas eleições francesas o partido da senhora Marine le Pen tivesse tido um crescimento dramático da representação parlamentar? Para alguns, pouco ou quase nada.

Que interessa a Polónia, tão “iliberal” (mas que apoia sem falhas a frente contra o agressor russo), ou a Hungria, tão “iliberal” (mas que apoia, com poucas falhas, a Federação Russa e, sobretudo, gosta bastante do senhor Putin)? Talvez estes dois casos interessem um pouco, ao ponto de se propor um castigo mezza voce à Hungria, dizendo logo que, se ela fizer um esforço, está tudo resolvido. A Hungria respondeu: vou fazer um esforço. Siga adiante, siga, não queremos ajuntamentos.

Tem sido esta a atitude geral, sem particular sobressalto ou alarme. Nenhum destes sinais, vindos de eleições ou de avaliação política, assumiu protagonismo, por duas razões principais. Por um lado, “estamos” em guerra (o que, de certa forma, é verdade), que como se sabe é tempo de limpar pouco as armas. Depois, dizem outros, esta é uma guerra que opõe as democracias às autocracias de Moscovo e outros parentes próximos (República Popular da China, Irão, Coreia do Norte, entre outros). Ou seja, se por definição deste nosso lado só existem democracias, os exemplos atrás referidos revelam-se de escassa relevância: as democracias não resvalam para o populismo nem estão nunca sujeitas a ameaças substanciais.

O problema é que algumas destas afirmações partem de premissas não demonstradas, por muito que se seja tolerante relativamente a alguns excessos de slogans nestes tempos conturbados.

Começando pelo princípio, a oposição convocada pela guerra na Ucrânia não é uma entre democracias e autocracias, mas entre o agressor russo e a agredida Ucrânia (assim como aqueles que estão do seu lado). Se o agressor fosse uma democracia, e o agredido uma autocracia, a violação da regra básica do direito internacional que proíbe a agressão seria a mesma, e teria a mesma gravidade. Infelizmente, os atos de agressão não são um exclusivo das autocracias. Por isso, trata-se neste conflito da defesa do direito internacional, da condenação de quem tanto mal faz ao sistema internacional, e não – diretamente – de um confronto entre sistemas políticos. No que mais importa, o “mau” aqui responde porque agrediu e não (nesta fase) por ser uma autocracia.

Se esta primeira premissa cair, e cai porque nada a sustenta, emergem duas outras consequências. Uma é que este esclarecimento nos liberta do casamento mentiroso entre democracias “liberais” e democracias “iliberais”. Admita-se, para quem nisso faça finca-pé ideológico, ou goste da muleta qualificativa, a menção às democracias “liberais”. O que não faz sentido, e exemplos práticos demasiado concretos não faltam, é manter-se o termo democracias “iliberais”, a não ser que, a prazo, se trate de proteger regimes que se aproximem de autocracias, só que das “nossas”, das “boas”.

Como segunda consequência, fica claro não poder descurar-se a frente interna, as nossas democracias, as expectativas dos cidadãos, os seus receios quando veem o que têm perante si e aquilo que temem possa estar a chegar de muito pior (e que pode realmente chegar). Deixou de ser suficiente dizer-se que somos democracias, ou que, por exemplo, o facto de estarmos (bem) envolvidos no apoio à Ucrânia justifica, sem necessidade de muito mais explicações, os sacrifícios, qualquer que seja a sua envergadura. Quem cometer esse erro petulante arrisca-se, na volta do correio, a ser enxotado, dando lugar a projetos muito pouco democráticos, na convicção e na prática. Não esqueçamos duas outras coisas: nas democracias, as desigualdades estão a aumentar, os esquecidos e os vulneráveis estão a aumentar, e uma das razões para a maior fragilidade sistémica também virá, decerto, de estarem as democracias cada vez menos solidárias.

A defesa apaixonada da paz é muito mais fácil quando não depende do preço do pão e do valor das prestações da casa. José Azeredo Lopes

É possível que seja populista dizer-se que aqueles que estão com dificuldade para aguentarem até ao fim do mês ficam pouco sensíveis aos valores da paz e aos custos que a sua defesa importa. Mas não deixa de ser verdade, por muito que nos custe ouvi-lo (porque é verdade), que a defesa apaixonada da paz é muito mais fácil quando não depende do preço do pão e do valor das prestações da casa, para não falar dos casos em que só se trata mesmo de sobreviver.

Joe Biden disse, em março de 2021, que o nosso século iria assistir a uma batalha entre democracias e autocracias, em que as democracias teriam de voltar a provar a sua utilidade, o seu “mérito”. Neste ponto, acertou na “mouche”, mesmo porque falou quase um ano antes do eclodir da guerra.

Os alertas são mais do que suficientes, e bem os dispensaríamos. A Suécia decidiu um esticão surpreendente, com os extremistas e xenófobos Democratas Suecos a ocuparem de forma gorda a ala mais à direita do espectro político (muito gosta a extrema-direita de se chamar democrata…). França, Suécia, e agora Itália, são sinais bastantes para, pelo menos, pararmos para pensar.

Se Joe Biden falou sobre os méritos da democracia, Emmanuel Macron veio agora, de forma algo pessimista, alertar para os riscos que as democracias enfrentam, não deixando de lado os próprios Estados Unidos.

Georgia Meloni diz que não aos excessos, mas nunca é muito categórica, cultiva uma ambiguidade plural. Azeredo Lopes

 

Em Itália, os “Irmãos de Itália” de Giorgia Meloni (na língua italiana, “Fratelli d’Italia” tem outra patine) são o grande favorito das eleições de domingo, e as sondagens desde há muito os confortam. É, portanto, provável que a Itália escolha pela primeira vez uma mulher Primeiro-Ministro; e que seja a Primeiro-Ministro mais jovem de sempre (com 45 anos). Mas é também a líder, infelizmente carismática, de uma mistura que alguns descrevem como pós-fascista (seja lá o que isso for), radical, conservadora e de extrema-direita. Estes “Irmãos” têm de tudo um pouco, afastam quem elogie o Adolfo de má memória, se o elogio for público; e dizem não se rever no comportamento daqueles que, tomados de alguma excitação, fazem a saudação fascista porque sim.

Georgia Meloni diz que não aos excessos, mas nunca é muito categórica, cultiva uma ambiguidade plural. Promete alinhamento com Bruxelas (por exemplo, no que se refere às sanções contra a Rússia), diz que se revê nas decisões piores dos Republicanos, gosta quando o Governo do Reino Unido manda requerentes de asilo para o Ruanda (logo ali ao lado) e, naturalmente, é profunda e convictamente democrata. Participou em lugar de destaque na Juventude do defunto MSI (Movimento Social Italiano), que de modo descarado reivindicou a herança de Benito Mussolini. E do mesmo MSI se separou em tempo, para ajudar a lançar o seu atual partido.

Meloni tem uma das “virtudes” políticas maiores numa altura em que a política e as sociedades estão mais espartilhadas, voláteis e menos “coerentes” do que no passado: é camaleónica, adapta-se com agilidade àquilo que intui ser a vontade do interlocutor. Quer azul? Será azul. Quer amarelo? Amarelo será.

Em 2018, por exemplo, muito se falou da visita italiana de Steve Bannon, quando ungiu os Fratelli d’Italia e a sua líder como peças relevantes da internacional reacionário-extremista que ainda não desistiu de organizar. Hoje, ninguém liga quando diz que Meloni é a Margaret Thatcher italiana. Sinal dos tempos, o cheiro a vitória embeleza-nos.

 “Prontos a reerguer a Itália”, eis o mote nacionalista que Meloni escolheu para campanha, com referências pouco disfarçadas à “grandeza” passada de há algumas décadas, aliás bastante mais imaginada do que real. Meloni apoia sem reservas o húngaro Viktor Orbán, critica sem reservas quaisquer reparos que a União queira fazer às suas derivas, e gostava imenso do agora em crise Grupo de Visegrado. Meloni aceitaria certamente, até com um piquinho de orgulho, o qualificativo de democrata “iliberal”. Porém, como tem demonstrado, é uma política competente, sabe que só chegará ao poder (está quase) depois de alternar o quente e o frio e realizar a quadratura de um círculo que é uma mescla de origens: fascista, conservadora, populista, europeísta e atlantista. Muita coisa junta, um catálogo político de ideias em promoção que Georgia Meloni vai comprando consoante as circunstâncias, incluindo-se aqui a trilogia (com uma pequena alteração de sequência) “Deus, Família e Pátria”, requentada, mas sempre eficaz.

Meloni cresceu e alcandorou-se acima do extremista Matteo Salvini, assim como de Silvio Berlusconi. Nestas eleições, porém, os três vão a jogo unidos, em contraste com um centro-esquerda em que cada um vai por sua conta. Azeredo Lopes

Por isso, por causa desta adaptabilidade sem fim, Meloni cresceu e alcandorou-se acima do extremista Matteo Salvini e da sua Liga, assim como de Silvio Berlusconi (Forza Italia). Nestas eleições, porém, os três vão a jogo unidos, em contraste com um centro-esquerda (Partido Democrático, Movimento 5 Estrelas) em que cada um vai por sua conta. Nesta altura, já não podem ser divulgadas sondagens em Itália. A tendência, no entanto, aponta solidamente para a possibilidade real de maioria absoluta da direita/extrema-direita, a tal coligação que marca pontos na contagem dos mandatos justamente por juntar forças.

Façamos, porém, como João Pinto nos ensinou: prognósticos, só no fim do jogo. Mesmo assim, a instabilidade democrática (ou, como Macron disse, a crise das democracias) confronta-nos cada vez mais, e seria simplista atribuir tudo a Putin. Ou seja, quando muito, a invasão da Ucrânia foi o acelerador de partículas que expôs as mazelas democráticas de forma mais crua.

É indiscutível que os populismos estão a crescer no plano eleitoral (e social) europeu desde há mais de dez anos. Azeredo Lopes

A Suécia deixou de ser uma democracia com o resultado alcançado pelos nada “Democratas” suecos? Não, nem a França, nem a Itália (mesmo que Meloni ganhe, como deve ganhar). Tudo depende do peso e da influência que as amálgamas mais dos extremos consigam impor, pelo seu peso eleitoral crescente.

No entanto, é indiscutível que os populismos estão a crescer no plano eleitoral (e social) europeu desde há mais de dez anos. É certo que, repetindo outra vez Biden, as democracias têm de demonstrar que são a nossa melhor chance coletiva, como tiveram de fazer nos anos trinta do século passado.

Em Itália, olhando de fora (mas não somos nós os italianos que decidem) fica a impressão do desperdício inglório de um político qualificado como Mario Draghi, a quem como europeus devemos bastante. De Georgia Meloni, ganhando e conseguindo formar Governo, que deverá esperar-se? Talvez nada de demasiado extremo, há muitas nuvens escuras que se acumulam nesta nossa Europa e a margem de manobra deste como dos outros poderes europeus é menor. Além disso, é muito diferente estar na oposição e defender tudo e o seu contrário, e chegar ao poder e ter de decidir entre pulsões de difícil compatibilização.

O importante destas eleições, portanto, talvez seja o facto de constituírem mais um sinal de alerta. Nada que não conheçamos. Mas, se antes não reagimos, alguém acredita que comecemos agora?

 

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