Legislativas em Itália: a oportunidade de Meloni, a sombra de Berlusconi e Putin à espreita (e como a direita radical se tem tornado mais feminina)

23 set, 22:00
Matteo Salvini (esquerda), Silvio Berlusconi e Giorgia Meloni no comício de encerramento da campanha eleitoral em Roma (Foto:  Alessandra Benedetti/Corbis via Getty Images)

No próximo domingo, os italianos vão às urnas para escolherem o próximo primeiro-ministro. As sondagens indicam que Giorgia Meloni, a líder do partido de extrema-direita Irmãos de Itália, será a grande vencedora

Não há campanha eleitoral sem polémicas e a italiana não é, seguramente, uma exceção. Mas, num contexto de conflito armado na Ucrânia, em que os italianos parecem inclinados a dar a vitória à direita-radical, tudo é mais inflamado: na quinta-feira passada, Silvio Berlusconi, líder do Força Itália, dizia na televisão pública RAI que Putin foi "forçado" a invadir a Ucrânia e que o Kremlin queria apenas substituir o governo de Zelensky por um executivo de "pessoos decentes". Depois de semanas em que se voltou a discutir se Putin teria financiado o líder da Liga, o antigo ministro do Interior Matteo Salvini, a afirmação de Berlusconi fez cair queixos em todos os espectros políticos.

O líder do Partido Democrático (PD), de centro-esquerda, não demorou a reagir: "Se na noite de domingo o resultado for favorável à direita, Putin será a pessoas mais feliz", comentou Enrico Letta. "São palavras escandalosas e muito graves". Berlusconi viu-se obrigado a reagir, clarificando a posição do partido e condenando a agressão russa a Kiev como injustificável e inaceitável. "Estaremos sempre com a UE e com a NATO", garantiu em comunicado. Mas será mesmo assim, se a Itália virar à direita e colocar no governo a primeira mulher como primeira-ministra, a popularíssima Giorgia Meloni, com o apoio dos partidos de Berlusconi e Salvini?

Não tenho a certeza de que um governo de extrema-direita em Itália não vá mudar e tornar-se aliado de Putin", admite Luca Manucci, investigador italiano na área do populismo e sistemas políticos do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. "Na última década, tanto Meloni como Salvini foram aliados de Putin. Durante a campanha, mudaram completamente de opinião porque temos uma guerra na Ucrânia. Mas vamos ver o que acontece no inverno, quando a eletricidade e o gás faltarem", acrescenta o investigador.

O que dizem as sondagens?

Itália vai a votos no próximo domingo e, quando faltavam cerca de 15 dias para as eleições legislativas - segundo as sondagens - a coligação dos três partidos Irmãos de Itália (Fratelli di Italia ou FdI, na sigla original), de Giogia Meloni, a Liga, de Matteo Salvini e o Força Itália, de Berlusconi, recolhia cerca de 45 por cento das intenções de voto, o que, a acontecer, significará uma vitória sem precedentes para a direita radical. 

O partido de Meloni é o primeiro nas intenções de voto, com cerca de 25 por cento das preferências dos eleitores, seguindo-se o Partido Democrático de Letta, que ronda os 20%. Em terceiro lugar, o Movimento 5 Estrelas (M5S) que recentemente se separou de uma aliança com o PD, conseguia 14,5% das intenções de voto, com a Liga de Salvini em quarto lugar, reunindo 12,5%. A Força Itália, partido fundado por Berlusconi, chegava aos 8%.

"Se a direita chegar ao poder, como parece inevitável, vai apresentar-se como uma coligação de direita, ou centro-direita. Mas estamos a falar de uma coligação de direita radical, porque o mais moderado é Silvio Berlusconi. E foi ele que, em 1994, abriu a porta em Itália à direita radical porque fez uma aliança com os pós-fascistas ou neofascistas", recorda Manucci. Já a aliança de centro-esquerda, que agora inclui apenas o PD e pequenos partidos de esquerda, nomeadamente ecologistas e pró-europeus, sofre por a esquerda estar "fragmentada" e pelo colapso da coligação com o M5S, que retirou o apoio ao último governo de Draghi e precipitou a demissão do primeiro-ministro, resultando nestas eleições antecipadas.

Enrico Letta, líder do Partido Democrático (Foto: Alessandra Tarantino/AP)

"O papel do M5S é muito importante porque também tem muitos eleitores de esquerda", refere Luca Manucci. "Mas o grande problema da esquerda, do PD, especialmente, é que estes partidos não têm um programa convincente para os eleitores. Usam sempre a mesma mensagem, 'se a direita ganhar vamos ter fascismo, vai ser um problema para a democracia', o que é verdadeiro, mas os eleitores precisam de um programa, de respostas. E quando a esquerda só repete que é preciso votar neles para a direita não ganhar, a mensagem é negativa", esclarece o investigador. "Berlusconi, Salvini e Meloni não fizeram campanha contra a esquerda. Fizeram campanha contra os outros partidos de direita, porque estas eleições são uma batalha entre três partidos de direita", reforça Manucci.

Uma "situação internacional explosiva"

Itália tem uma forte tradição de partidos da direita radical, recorda o historiador Manuel Loff. "É o país onde nasceu o fascismo, esse modelo de uma nova direita radical de massas que nasce no final da Primeira Guerra Mundial. Mesmo depois da derrota militar do fascismo italiano e alemão, em 45, a Itália sempre manteve no seu parlamento a extrema-direita, ao contrário de outros países na Europa ocidental", explica.

Loff recorda que o Irmãos de Itália, o partido de Meloni, por exemplo, é herdeiro do Movimento Social Italiano, formação neofacista fundada depois da Segunda Guerra Mundial. "E, segundo as sondagens, este será o partido mais votado e terá o dobro dos votos do segundo maior partido de direita, que é a Liga de Salvini", recorda. E acrescenta: "não é novo que a direita italiana chegue ao poder. O que é novo é que Berlusconi já não conte para nada na política em Itália e, ao mesmo tempo, a fragmentação do restante espectro político".

O sistema eleitoral italiano favorece maiorias amplas e os três partidos de direita parecem lançados para conseguir ocupar pelo menos dois terços das duas câmaras do parlamento, "o que tem perigosas consequências constitucionais", assinala o historiador. Luca Manucci corrobora: "a direita já admitiu que vai tentar estabelecer um novo sistema político em Itália, presidencial ou semipresidencial, com um Presidente da República que deveria ter mais poderes do que agora. Já sabemos que Berlusconi tentará ser esse presidente da República, naturalmente, mas, para mim, a mudança da Constituição é o perigo maior. Não acho que a direita, sem maioria absoluta ou de dois terços, vá conseguir destruir a democracia italiana ou instaurar um regime fascista. Mas este é o processo que o próprio Berlusconi começou nos anos 90 e que acaba agora por ser uma normalização da direita radical que começou há mais de 25 anos", diz o investigador italiano. E, com uma alteração da Constituição, os riscos maiores seriam, admite Manucci, para as minorias: "para os migrantes, para as mulheres, para todas as pessoas que não sejam homens brancos com poder. Já conhecemos a história, o sentido é claro".

Manuel Loff, por outro lado, aponta que uma vitória da extrema-direita em Itália "significará que um terço da população da União Europeia vai passar a ser governada por governos onde a extrema-direita dirige ou está presente", com a direita radical a conseguir "condicionar muito seriamente as políticas em vários aspetos". O historiador salienta três dimensões onde as consequências seriam maiores: "Em primeiro lugar, a chegada da extrema-direita ao poder vai dar-lhe acesso às nomeações das chefias das forças de segurança e das forças militares, dois dos grandes objetivos do ponto de vista de infiltração no aparelho de Estado", destaca o historiador. "Na situação internacional explosiva que temos, isto é muito preocupante".

Em segundo lugar, Manuel Loff aponta "as políticas sobre refugiados e imigração": "já sabemos que, na perspetiva da extrema-direita, é aqui que, provavelmente, reside a maior capacidade de criação de consenso e recolha de apoio popular. A extrema-direita tem posto a circular no discurso público, sem qualquer pudor, todo o tipo de afirmações xenófobas e rascistas", refere. Por último, Manuel Loff chama a atenção para o impacto da economia ultraliberal que é defendida pela direita radical, nomeadamente "a proposta consensualizada entre os três partidos da extrema-direita italiana em torno da 'flat tax'. "Eles pretendem introduzir um IRC e IRS a 15% para todos, independentemente dos rendimentos. Isto não altera grandemente o que paga a classe média ou baixa, ou as classes trabalhadores, mas altera e reduz muitíssimo o que pagam os mais ricos. O Estado perde recursos para manter serviços públicos, no fundo, é a etapa anterior da privatização de mais serviços públicos. Mas, sobretudo, agrava as desigualdades sociais", reflete Manuel Loff. "Vamos imaginar que um grande conjunto de países da Europa começa a defender um conjunto de soluções desta natureza. Mesmo não tendo a UE capacidade para interferir nas políticas fiscais, pode criar-se aqui uma pressão para haver ingerência", admite o historiador. 

E a economia? 

Nos últimos meses de governação, e confrontado com a invasão russa da Ucrânia, Mario Draghi, que agora deixa o Palácio Chigi, a residência oficial do primeiro-ministro italiano, defendeu sanções à Rússia e liderou o apoio a Kiev. Conhecido como "Super Mario" pela presidência do Banco Central Europeu durante a crise do euro, Draghi comandou um governo tecnocrata que enfrentou a pandemia e deixou satisfeita a maioria dos italianos: uma sondagem do Centro Italiano Studi Elettorali, da Universidade de Florença, citada pela Euronews, refere que 62,4% dos eleitores veem como positivas as ações de Draghi nos últimos 17 meses. "Draghi, com o seu prestígio, conseguiu estabilizar a situação interna italiana mas também dar alguma credibilidade ao país em termos de mercados financeiros internacionais. A saída dele é um rombo para a credibilidade italiana", comenta o economista Miguel Coelho, diretor do Banco Montepio e professor na Universidade Lusíada,

Mario Draghi (Foto: Lusa)

"É importante situar: a Itália é a terceira maior economia da União Europeia e apresenta fragilidades significativas. É o segundo país mais endividado da UE em termos de dívida pública em percentagem do PIB, na ordem dos 150% do PIB, sendo certo que grande parte dessa dívida pública está nas mãos dos italianos e dos bancos italianos", detalha o economista. "Do ponto de vista das contas públicas, a situação em Itália é relativamente complicada e tem tido, nos últimos anos, défices significativos, o que conduziu a que a Itália passasse a ser vista pelos mercados como um país de algum risco", diz Miguel Coelho, precisando mesmo que, perante os mercados, o risco italiano é superior ao português.

"Mas a Itália é incontornável no seio da UE, um país que está sob o escrutínio forte dos mercados financeiros internacionais e que tem um sistema bancário com algumas fragilidades, que só não colapsou porque houve algumas exceções que foram dadas ao estado italiano para poder salvar alguns bancos. Exceções que não foram dadas a Portugal", assinala.

O economista acredita que a "realidade económica vai sobrepor-se à realidade política" e afrouxar, de alguma forma, o ímpeto reformador de um governo liderado por Meloni que, tal como Salvini e Berlusconi, vê o ultraliberalismo como um caminho a percorrer. "Se forçarem determinadas ideias políticas, haverá consequências económicas, e essas consequências serão que a Itália deixa de ter cobertura europeia para sobreviver a esta crise", explica Miguel Coelho. "Poderemos ter tempos mais difíceis na relação entre Itália e os restantes membros da UE para algumas decisões, poderemos ter um discurso populista dentro de Itália, mas acho que o bom senso vai prevalecer", reflete. Ainda assim, não deixa de apontar que Itália é um dos países mais dependentes do gás russo e que "este inverno será um grande teste à capacidade de respondermos às ameaças russas e a um potencial corte do gás. Diria que o caso italiano é preocupante, mas tenho expectativa de que o governo mais à direta não vá esticar a corda de tal forma que ela se parta, porque os principais prejudicados seriam eles", diz Miguel Coelho.

A respeito da política fiscal italiana, em que o governo de Roma tem autonomia - "desde que cumpra os critérios em termos de dívida pública e do défice" - o economista lembra que qualquer solução mais liberal que seja adotada terá sempre de respeitar o Pacto de Estabilidade e Crescimento. "Obviamente que estão condicionados por condições assumidas nos compromissos europeus que assinaram, relativamente a estas matérias, mas não há nenhum consenso sobre a melhor regra de política orçamental" diz o economista. "E, claro, ninguém está disposto a abdicar desta soberania orçamental, entre aspas, seja a esquerda ou a direita".

Uma direita radical feminina mas não feminista

Apesar de tanto Giorgia Meloni como Matteo Salvini terem já defendido posições contrárias à União Europeia ou a saída do euro, hoje um como o outro abandonaram o euroceticismo e Meloni defende, em campanha, o enigmático slogan de "menos Europa, mas melhor Europa". 

Meloni é herdeira de uma força política italiana - os neofascistas - que, tendo sido contrária à integração europeia, pragmatizou. Salvini foi, no passado, muito mais eurocético do que a própria Meloni é hoje. Acho que, em termos de relaçao com a UE, um governo dirigido por Meloni, por exemplo, fará de tudo para que a UE não condene nem abra um processo sobre violações do estado de direito à Polónia e Hungria, rejeitando qualquer política de acolhimento de refugiados, como Salvini já fez quando foi ministro", diz Manuel Loff.

Meloni tem sido clara na oposição feroz à chegada de migrantes e o próprio Salvini foi levado à justiça por fechar os portos aos barcos que resgatavam migrantes do Mediterrâneo, deixando-os em condições precárias no mar.

Admitindo que ambos os líderes dos dois maiores partidos da eventual coligação de extrema-direita também não parecem ir contra as sanções à Rússia por causa de Kiev - ainda que Salvini já tenha demonstrado aqui alguma resistência na punição a Moscovo - o historiador admite que, do ponto de vista de política externa europeia, e salvo nos migrantes e processos de violações húngaro e polaco, a posição italiana pouco se altere. Mas faz uma ressalva: "É evidente que Itália deixará de alinhar com boa parte das iniciativas do chamado eixo franco-alemão, e talvez se tente constituir como chefe de fila deste conjunto de países liderados pela extrema direita", diz Manuel Loff. "Pode-se tornar um dos países de referência para todos aqueles da Europa central, onde a extrema-direita está a tomar o poder", acrescenta. Para além da Polónia de Morawiecki e da Hungria de Orbán, a extrema-direita também já chegou ao governo na Eslováquia e Eslovénia; mais longe de Itália, ainda recentemente o partido nacionalista anti-imigração Democratas da Suécia foi o mais votado nas eleições, sem esquecer Marine Le Pen, em França, que não impediu a reeleição de Macron mas teve o seu melhor resultado de sempre numas presidenciais.

Ainda que, para Bruxelas, as mudanças possam não ser substanciais, um dos maiores receios dos italianos que não votarão num governo de extrema-direita relaciona-se com o recuo de direitos adquiridos. E se, pela primeira vez, Roma verá, previsivelmente, uma mulher no Palácio Chigi, aquilo que Giorgi Meloni defende não parece trazer boas notícias para a igualdade de género, para as famílias de casais do mesmo sexo ou para a comunidade LGBTQ+.

Giorgia Meloni, líder do partido Irmãos de Itália (Foto: Luca Zennaro/EPA)

"A direita radical na Europa, na última década, tornou-se mais feminina. Já o vimos na França, com Le Pen, mas também na Dinamarca ou na Finlândia", reflete Luca Manucci. "Mas as posições dos partidos sobre questões de género ou emancipação feminina são de direita radical. O aborto não vai ser garantido, como não será a independência das mulheres, a escolha das mulheres", diz o investigador. "O eleitorado da extrema-direita em Itália é muito parecido com o da direita radical no resto da Europa, em Espanha com o Vox, em Portugal com o Chega. São pessoas que têm traços em comum, normalmente homens, não muito educados, religiosos", admite Manucci.

Os parceiros de coligação

Outra questão por responder, mas que levanta dúvidas, prende-se com a relação entre os três protagonistas desta aliança de extrema-direita. Meloni, Salvini e Berlusconi acordaram há alguns meses que seria ela a assumir o cargo de primeira-ministra, até porque lidera o partido com mais intenções de voto - ainda que Salvini já tenha vindo dizer que, vencendo a Liga, possibilidade que não está prevista pelas sondagens, o governo será dele.

Matteo Salvini e Silvio Berlusconi (Foto: Gregorio Borgia/AP)

"Será tudo baseado no momento. Agora, Berlusconi tem o papel do grande avô que é europeísta, mas em 2010 era ele quem falava sempre contra a Europa. Meloni e Salvini tiveram opiniões contra o euro, agora já não têm. Vai ser tudo muito estratégico", aponta o investigador. "Foi muito controverso durante a campanha estabelecer se a Meloni é fascista ou não. Acho que não é importante, claramente o partido dela tem raízes fortes no fascismo, mas o problema foi falar sobre o programa e ninguém falou sobre o programa dela, que tem um papel das mulheres completamente mudado, ninguém explicou como era possível ter dinheiro para fazer todas as obras que ela propõe", continua Manucci. "Temos a ameaça do fascismo, sim, é importante, mas obscureceu o tema central: o que é que os partidos propunham". Para o investigador, a clivagem mais importante entre os três poderá residir, eventualmente, na guerra: "será o tema mais quente e vai definir as posições dos partidos, de direita e de esquerda".

Sobre a colaboração entre Irmãos de Itália, Liga e Força Itália, Manuel Loff admite que "as personagens individuais destas coligações, nomeadamente no caso italiano, têm sempre fortes idiossincrasias". A propósito de "questiúnculas, podem abrir situações de crise política". 

Mas o historiador recorda que, dos três governos de Berlusconi, "apenas o primeiro não cumpriu". E Meloni, um vez no poder - "feito inédito para uma líder da tradição histórica do neofascismo italiano, que pela primeira vez terá a presidência do governo em vez de ser parceiro de coligação" - fará tudo ao seu alcance para não abandonar o cargo. "Considerando o passado das duas últimas coligações de Berlusconi, exceto a primeira, que ao fim de dois anos caiu, eu diria que é muito provável que este governo assegure cinco anos", remata.

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