Viajou para Itália para salvar o casamento. Acabou a casar-se com o guia turístico

CNN , Francesca Street
8 mar 2025, 11:00
Monica Kennedy (CNN)
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Quando Monica Kennedy reservou a viagem à Costa Amalfitana, esperava que as férias em Itália salvassem o seu casamento.

Estávamos em 2017. Monica vivia numa bela casa em Connecticut, nos Estados Unidos. Trabalhava como assistente jurídica clínica na Faculdade de Direito de Yale. Estava casada há mais de 20 anos. Os seus filhos adultos tinham ido para a universidade. No seu tempo livre, Mónica dava aulas de ioga e passava tempo com os amigos. Quem via de fora, a sua vida parecia perfeita.

Mas o seu casamento de décadas estava a passar por dificuldades que se agudizaram com o tempo. Por baixo da superfície, Monica sentia-se infeliz e a sua relação estava a desmoronar-se.

“Tínhamos casado jovens e tínhamos dois filhos, que já eram crescidos. E as nossas vidas estavam a seguir dois caminhos diferentes”, conta Monica à CNN Travel.

No seu íntimo, Monica sabia que estava a aproximar-se do “fim da relação”. Mas, com os seus anos de história em conjunto, era difícil aceitar esse desfecho. E era assustador imaginar a vida sozinha.

“A viagem para Itália era uma espécie de forma de ver se conseguíamos salvar a relação”, explica Monica.

“E foi lá que conheci o Isidoro.”

Um encontro fatídico

Isidoro Langella vivia e trabalhava na Costa Amalfitana, uma faixa de costa escarpada e bonita no sul de Itália, conhecida pelas suas casas coloridas construídas em falésias, rodeadas por águas em tons azul-turquesa.

Isidoro, de Nápoles, organizava pequenas excursões de grupos às cidades espalhadas ao longo da costa.

“Era esse o meu trabalho quando a conheci - conduzir um carro de luxo, um Mercedes, levá-los de um hotel de luxo de cinco estrelas numa excursão de oito ou nove horas”, conta Isidoro à CNN Travel. “Damos-lhes informações sobre a história, sobre a nossa cultura, levamo-los a restaurantes.”

Isidoro era genuinamente apaixonado pela história e arte italianas. Gostava do seu trabalho. Nunca tinha sido casado, não tinha filhos. Estava satisfeito.

“A minha vida estava centrada em Sorrento, na Costa Amalfitana”, indica Isidoro.

Quando conheceu Monica e o seu marido, Isidoro lembra-se de pensar que eram quase exatamente iguais a todos os outros casais norte-americanos abastados que ele transportava por Amalfi.

Após anos de trabalho, Isidoro notou que os homens norte-americanos eram “um pouco mais informais, até desleixados”, enquanto as mulheres estavam sempre imaculadamente arranjadas.

“Quando se trabalha todos os dias neste ramo, todos os dias vamos buscar clientes nos hotéis de Sorrento, Positano... são todos iguais”, afirma.

Embora Isidoro achasse que Mónica era “classicamente bonita”, ela não se destacou entre os demais turistas.

Por outro lado, Monica confessa que ficou impressionada com Isidoro nesse primeiro encontro. Não foi amor à primeira vista, não foi nada disso. Mas admite que gostou logo dele e sentiu-se confortável na sua presença.

“O Isidoro era muito amável, gentil, conhecedor, e realmente adorável”, descreve. “E estava bem vestido”, nota.

Para Isidoro, a única coisa que distinguiu Monica e o seu marido nesse primeiro encontro foi o que ele considerou ser uma “energia estranha” no casal.

Embora ambos fossem superficialmente educados e amigáveis, Isidoro conseguia sentir que algo não estava bem entre eles. Isso deixou-o vagamente desconfortável.

Por isso, quando, depois de terminada a visita, o casal convidou Isidoro para almoçar com eles, ele não queria ir. Mas sentiu que tinha de dizer que sim.

E o almoço foi um pouco dececionante.

“Foi a pior comida que comi em Itália”, admite Monica.

“Não era um restaurante agradável”, concorda Isidoro.

Apesar do esparguete pouco impressionante, Monica classificou o dia como um sucesso - o que não é pouco quando se trata de um casamento em declínio. Saiu de lá agradecida a Isidoro e à sua presença amável.

“Ele era tão simpático”, recorda. “Conhecia muito bem a Costa Amalfitana e a região. E foi um dia fácil e muito agradável.”

Antes de Monica e o marido se separarem de Isidoro, o guia turístico passou-lhe os seus contactos, incluindo o seu Facebook.

Era uma prática habitual, segundo Isidoro. Os seus antigos clientes indicavam-no frequentemente a futuros clientes.

Por isso, Isidoro não ficou surpreendido quando, cerca de um ano depois, Monica lhe fez um pedido.

“Uma amiga minha tinha uma filha que estava a estudar em Florença e queria ir até à Costa Amalfitana”, explica Monica.

A amiga de Monica estava preocupada com a possibilidade de a filha se deslocar por Itália apenas com outros estudantes norte-americanos a reboque.

“Então eu disse-lhe: 'Conheço uma pessoa - ele é encantador, ela estaria segura e eu confio nesta pessoa'”, recorda Monica. “Entrei em contacto com o Isidoro e ele fez todos os preparativos para as levar. E depois, à última da hora, eles cancelaram.”

Quando Mónica descobriu, sentiu-se “muito mal”. Pediu desculpa e enviou uma longa mensagem a Isidoro.

“Ele tinha preparado tudo”, conta Monica. “E foi aí que começámos realmente a falar.”

Reconectar à distância

A viagem à Costa Amalfitana não salvou o casamento de Monica. Quando entrou em contacto com Isidoro sobre os planos de viagem da filha do seu amigo, estávamos em meados de 2018. Mónica estava oficialmente a meio do seu divórcio.

Quando a filha da sua amiga cancelou os planos, Monica sentiu-se muito culpada.

“Ele disse: 'Não te preocupes com isso'. Eu respondi: 'Oh, tempo é dinheiro, e sinto-me mal por teres feito todos estes preparativos'”, relata Monica.

“Ela queria pagar-me para nada”, lembra Isidoro, ainda um pouco incrédulo, mesmo após todos os anos que já se passaram.

As primeiras mensagens foram formais, de negócios. Mas, de alguma forma, a conversa sobre o cancelamento da viagem transformou-se numa conversa sobre outros assuntos.

Isidoro fez uma publicação sobre o filme clássico italiano “Cinema Paradiso”. Monica contou-lhe como ficou emocionada quando viu o filme quando era estudante, nos anos 80. Começaram a conversar sobre outros filmes de que gostavam. Depois sobre livros, arte, música, família. Para surpresa de ambos, algo estava a crescer entre eles - uma ligação que nenhum deles esperava ou conseguia identificar.

“Não esperava que tivéssemos tanto em comum e que nos déssemos tão bem como nos demos”, admite Monica.

“Em italiano dizemos 'corrispondenza d'amorosi sensi'. É de um poeta, mas na tradução significa 'na mesma onda'”, diz Isidoro.

Monica e Isidoro começaram a enviar mensagens um ao outro regularmente. Faziam confidências um ao outro. Partilhavam pormenores das suas vidas - dos mais mundanos aos profundos.

“Passámos muito tempo a conhecer-nos - apenas através do WhatsApp e de mensagens, a conversar”, diz Mónica. “Sinto que foi quase à moda antiga, porque se conhece muito bem uma pessoa dessa forma, porque não se passa tempo a jantar fora, não há distrações externas.”

“Não tens máscara”, concorda Isidoro. “És livre.”

Cerca de um ano depois de se conhecerem na Costa Amalfitana, Monica e Isidoro reconectaram-se à distância e ficaram mais próximos desde então
(Cortesia de Monica Kennedy)

À medida que os meses passavam, o ritmo das conversas aumentava. E, com o tempo, Monica e Isidoro começaram a falar sobre a possibilidade de se encontrarem pessoalmente.

Era uma ideia que entusiasmava ambos. Mas Monica também tinha consciência de que esta ligação intensa entre eles poderia estar limitada à esfera online - afinal, só tinham estado juntos uma vez e, na altura, ela era casada com outra pessoa. E se ela tivesse inventado esta química? Talvez fosse apenas uma ilusão após o divórcio.

Mas a única forma de ter a certeza, decidiu, era regressar à Costa Amalfitana e reencontrar Isidoro.

Por isso, reservou um voo.

Monica tem sete irmãos e partilhou os seus planos de viagem com a irmã mais próxima, que a encorajou.

“Acho que ela ficou feliz por ver que eu estava feliz pela primeira vez em muito tempo”, afirma Monica.

Outras pessoas na sua vida ficaram menos entusiasmadas - surpreendidas e preocupadas com a decisão de Mónica de viajar sozinha para Itália.

Foi, como Monica admite hoje, uma decisão fora do seu carácter.

“Casei-me quando era muito jovem. Tinha 23 anos. Não tinha de todo uma vida aventureira”, confessa. “Por isso, acho que algumas pessoas pensaram que eu tinha perdido o juízo - vou para Itália e conheço um homem estranho.”

Mas Monica sentiu-se confiante na sua decisão. Essa confiança surpreendeu-a a ela própria. Em conversa com Isidoro, ambos falaram sobre a estranheza, da imprevisibilidade inerente à situação. Estavam ambos na mesma página.

“Definimos: 'Muito bem, se quando estivermos juntos não houver química, vamos ser apenas amigos'”, recorda Monica. “E acabou por acontecer que... havia química...”

Claro que o reencontro no aeroporto foi inevitavelmente “surrealista”, descreve Monica. Tanto ela como Isidoro não sabiam bem como agir um com o outro e não sabiam bem o que se estava a passar entre eles.

“Mas, em cinco minutos, já estávamos descontraídos”, conta.

A semana seguinte passou num instante, entre passeios à beira-mar, noites sentados um em frente ao outro em bares com vista para a costa. Conversas longas que espelhavam as suas trocas de impressões online. Monica sentia uma certeza crescente de que a sua decisão de voar para Itália tinha valido a pena.

“E foi assim que começámos a nossa relação”, conta Monica.

Uma relação à distância

Após a primeira visita de Monica a Itália, ambos iniciaram uma relação à distância
(Cortesia de Monica Kennedy)

Depois daquela primeira semana juntos em Itália, Monica e Isidoro separaram-se com a certeza de que se voltariam a ver. Certeza essa que veio a concretizar-se: Monica voltou a Itália para visitar Isidoro. A relação entre ambos continuou a crescer.

“E depois de ela ter vindo várias vezes, eu fui para os EUA”, conta Isidoro.

Em Connecticut, Isidoro conheceu os filhos de Monica, que regressavam da faculdade.

Monica estava consciente de que o divórcio não tinha sido fácil para os filhos. Eram adultos, viviam as suas próprias vidas, mas, naturalmente, ainda estavam magoados com a separação dos pais. Monica também tinha noção de que poderia não ser fácil para os filhos vê-la com outra pessoa.

“Foi mesmo muito difícil para eles no início”, admite. “Mas são ambos livres-pensadores e acho que me compreendem e só querem que eu seja feliz, tal como eu quero que eles sejam felizes”, diz Monica. “Eles gostam do Isidoro.”

O casal estavam a entrar no ritmo da longa distância quando a pandemia chegou e as restrições de viagens os separaram em continentes opostos.

“Foram quase 300 dias”, conta Mónica.

Durante longos períodos de tempo, nenhum deles fazia ideia de quando poderiam voltar a encontrar-se.

“Finalmente, Itália e alguns outros países da Europa permitiram o reencontro de pessoas que estavam numa relação de compromisso”, lembra Isidoro.

No final de 2020, Monica viajou para Itália para passar algum tempo com Isidoro e trabalhar à distância. O reencontro foi um momento inesquecível para ambos. Monica regressou assim que pôde em 2021. A dada altura, o casal deu por si a falar sobre o seu futuro. Queriam assegurar-se de que não voltariam a separar-se.

“Estávamos desesperados”, lembra Monica. “Quando se está separado durante tanto tempo e tudo parece tão inseguro... estávamos apenas a tentar ter uma vida normal juntos.”

Monica e Isidoro estavam apaixonados. Sabiam que queriam passar o resto das suas vidas juntos. Assim, de forma quase espontânea, decidiram casar-se e planejam uma pequena cerimónia - só os dois - em Sant'Agnello, na costa de Sorrento.

“Mas, pouco antes disso, comecei a ficar muito doente”, revela Monica.

Monica sofre de diverticulite crónica, o que significa que o seu intestino por vezes fica inflamado. Geralmente, consegue controlar a doença, mas por vezes tem crises.

O período que antecedeu o casamento foi particularmente difícil. Monica teve de ser hospitalizada.

Isidoro apoiou-a durante todo o processo e, apesar de o casamento ter sido adiado, Monica e Isidoro acabaram por se casar a 28 de abril de 2021.

Foram só eles os dois, com dois amigos de Isidoro como testemunhas. As restrições de viagem impostas pela pandemia impediram uma celebração maior. Para Monica e Isidoro, porém, a cerimónia discreta, a par com o dia ensolarado, fez daquele dia muito especial.

Monica e Isidoro casaram-se em 2021, numa pequena cerimónia na Costa Amalfitana
(Cortesia de Monica Kennedy)

“Tivemos um almoço num bom restaurante num local agradável, Mirano, na Costa Amalfitana, num restaurante mesmo em frente ao mar”, recorda Isidoro.

Depois do casamento, Isidoro e Monica estavam muito entusiasmados por começarem “esta aventura juntos”, descreve Isidoro. Isidoro mudou-se para os Estados Unidos com Monica e ambos começaram a esboçar planos para criar uma agência de viagens em conjunto.

Parecia ser a combinação ideal entre as capacidades de guia turístico de Isidoro e a mentalidade empresarial de Monica. E Monica teve a ideia do nome perfeito: “To Amalfi With Love Tours of Italy”.

“O nome é uma referência à nossa história de amor”, explica Monica.

O objetivo da agência é oferecer “uma experiência autêntica”, começa por dizer Isidoro, que diz adorar partilhar com os turistas a sua “paixão pela história e cultura” de Itália.

Após um período a viver juntos nos Estados Unidos, Monica e Isidoro decidiram mudar-se para Itália.

Monica sentia que o elevado custo de vida nos Estados Unidos, os horários de trabalho implacáveis e o fraco equilíbrio entre vida profissional e pessoal não estavam a ajudar no seu estado de saúde. O casal acreditou que o negócio incipiente iria prosperar em Itália.

“Queríamos fazer mais contactos em Itália, explorar rotas, encontrar locais que estivessem fora dos caminhos habituais”, conta Monica.

Por isso, Monica guardou os seus pertences num armazém, deixou o seu emprego em Yale e ambos comparam uma casa na Toscânia - um sítio novo para ambos.

Instalaram-se alegremente na aldeia de Castiglione del Lago, na Úmbria, nas margens do Lago Trasimeno.

“É muito tranquilo aqui”, descreve Monica. “Fizemos crescer o nosso negócio. Acabou por ser uma aventura bem sucedida em todos os sentidos. A única parte difícil para mim é estar longe dos meus filhos, apesar de já serem adultos, mas eles dizem que estão muito orgulhosos de mim - e de nós - pelo que estamos a fazer.”

Sonhar alto - e em conjunto

Hoje, o casal vive feliz na Toscânia, Itália 
(Cortesia de Monica Kennedy)

Por vezes, Monica abre as janelas da sua casa na quinta italiana, observa as colinas verdes e olha para o lago e não consegue acreditar na vida que está a viver.

“A minha vida foi criada em Connecticut”, relembra. “Nunca pensei que o meu guia turístico, nesta viagem com o meu agora ex-marido a Itália, acabasse por se tornar meu marido.”

Isidoro diz-se grato por poder enfrentar os altos e baixos da vida com Monica ao seu lado. Diz que ela o incentiva a sonhar em grande.

“Somos dois sonhadores, como podem imaginar, por isso talvez o mundo pertença aos sonhadores”, conclui Isidoro.

A história do casal não termina aqui, garantem. Não têm a certeza se a Toscânia é para sempre. Talvez um dia regressem aos Estados Unidos. Talvez dividam o seu tempo entre os dois países.

Mas há uma coisa que é certa: eles veem-se um ao outro como sendo para sempre.

“É difícil exprimir em palavras o facto de estarmos tão satisfeitos juntos e de estarmos a viver um sonho”, confessa Monica, descrevendo a relação como uma “pedra de toque” à medida que navegam pelos altos e baixos da vida.

Para Monica, a sua inesperada história de amor com Isidoro é um lembrete para nunca desistir da felicidade. Nunca se contentar com menos.

“Penso que a vida, as outras pessoas, o barulho e as normas sociais, todas essas coisas podem atrapalhar o nosso caminho. Por isso, se conseguirmos parar um pouco e ouvir o que o nosso coração nos diz, acredito que tudo se encaixa”, diz Monica.

“Quando o universo nos leva a conhecer alguém, nunca sabemos o que vai acontecer. Acho que foi isso que aconteceu. Foi apenas um momento. E quem é que esperaria que tudo isto surgisse a partir daí? Que encontro casual”.

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