“Porque o que está em causa não é o acordo de paz. É a gestão do tempo. Kiev quer segurança existencial, mais sanções e manter os EUA por perto. Moscovo quer consolidar o que ocupou, levantar sanções e lançar nova ofensiva no verão. A Europa procura estabilizar a sua nova relevância. E os Estados Unidos… bom, é esperar para saber o que pensa Trump hoje.”
Em Istambul, num salão de império onde o século XXI parece apenas estar de visita, volta a encenar-se o velho ritual: cenário solene, discursos pesados — e, no fim, o regresso à guerra.
Ucrânia e Rússia voltam hoje à mesa das negociações, com a presença de conselheiros de segurança da Alemanha, França e Reino Unido, sob a mediação cada vez mais central da Turquia. Não é a primeira ronda, nem será a última. Mas talvez seja a mais carregada de simbolismo desde o início do ano. Ocorre poucos dias depois de Berlim deixar de se esconder — e poucas horas após o ataque ucraniano mais eficaz, tecnicamente apurado e ousado desde o início da guerra: um strikeirrepreensível, num momento diplomático desconfortável.
Friedrich Merz, chanceler alemão, rompeu com a ambiguidade herdada de Scholz e autorizou o uso de armamento alemão em território russo. A decisão veio acompanhada de um pacote de ajuda militar de cinco mil milhões de euros e de um acordo para produção conjunta de mísseis com a Ucrânia. Berlim deixou de ser apenas financiadora para se afirmar como actor estratégico. A Alemanha acordou.
Do outro lado do Atlântico, os Estados Unidos repetem o discurso habitual, mas com novos subtítulos. Keith Kellogg, conselheiro de Trump e agora enviado especial para a Ucrânia, afirmou que as preocupações da Rússia com a expansão da NATO são “justificadas” e assegurou que a adesão de Kiev à Aliança não está, de momento, em consideração. O recado foi claro — e o subtexto, ainda mais: o futuro da Ucrânia poderá ser decidido fora da NATO. Talvez até sem ela. Mais um caso em que o timing não podia ser pior.
Kellogg reconheceu ainda que estão a ser alinhados memorandos de entendimento entre Moscovo e Kiev como base técnica para um eventual roteiro negocial. Mas ninguém se ilude: o objectivo não é um acordo. É o controlo do processo. E, nisso, Erdogan é perito.
Erdogan não se limita a acolher a cimeira. Molda-a. A Turquia posiciona-se como mediador activo, propõe uma futura reunião entre Zelensky, Putin e Trump, e inscreve-se como novo eixo entre Ocidente e Oriente. O objectivo é óbvio: converter influência regional em autoridade diplomática.
Não se trata de idealismo — é cálculo. Ancara percebeu que a União Europeia hesitou durante anos, mas que a Alemanha assumiu finalmente o comando e avança agora em velocidade de cruzeiro; que os EUA já retiraram da Ucrânia o que lhes convinha e andam aos ziguezagues; e que Moscovo precisa, como nunca, de um interlocutor que não o confronte directamente. É nesse espaço que a Turquia se instala — entre cereais, drones e diplomacia — a consolidar a sua nova centralidade estratégica.
A sua posição nesta cimeira não é neutra — é deliberadamente estratégica. Ancara recusa reconhecer a anexação da Crimeia desde 2014 e reafirmou, na última cimeira, que aquele território é ucraniano. Não se trata apenas de princípios. Trata-se de influência no Mar Negro. Erdogan sabe que um domínio russo total deixaria a Turquia isolada e vulnerável. Ao manter pontes com ambos os lados, apoiar discretamente Kiev e apresentar-se como mediador, Ancara defende os seus corredores comerciais, os interesses energéticos e a sua ambição regional. A sua suposta neutralidade é, na verdade, uma forma de controlo.
As posições permanecem intransigentes. A Ucrânia exige cessar-fogo supervisionado, garantias internacionais de segurança e a restituição da integridade territorial. A Rússia quer reconhecimento das anexações, neutralidade militar de Kiev e levantamento de sanções.
Traduzindo: Kiev pede justiça e sobrevivência; Moscovo exige aceitação dos factos consumados. A cimeira de hoje não visa resolver — apenas testar até onde se pode manter a aparência de convergência.
Para a Alemanha, o encontro é também uma oportunidade de afirmação. Merz quer deixar para trás a imagem de uma Alemanha que apenas transfere fundos. A presença dos seus conselheiros em Istambul sublinha essa viragem estratégica.
Enquanto os políticos se instalam nas salas de reuniões de Istambul, a Ucrânia voltou a agir — e com impacto. No domingo, 1 de Junho, lançou um ataque coordenado com drones contra bases aéreas em território russo, destruindo ou danificando mais de 40 aeronaves, entre elas bombardeiros estratégicos Tu-95 e Tu-22M3, e aviões de alerta antecipado A-50.
Foi uma operação cirúrgica, sofisticada, planeada durante mais de um ano e conduzida a partir de dentro do território russo, com drones escondidos em camiões. Um sucesso militar com significado político: Kiev mostrou alcance, precisão e capacidade táctica. E respondeu directamente aos bombardeamentos russos contra civis e infraestruturas energéticas.
O momento, em véspera de negociações, poderá parecer inconveniente. Mas entre todos os que hoje se sentam à mesa, a Ucrânia continua a ser a única que quer, de facto, acabar com a guerra — e não apenas congelá-la. Foi, acima de tudo, um aviso a Moscovo.
Esta guerra já não se joga apenas com tanques ou mapas. Joga-se com percepção, surpresa, guerra electrónica e inteligência artificial. É por isso que cada negociação não trava o conflito — apenas o redesenha.
Não se espera paz. Espera-se um gesto. Um sinal. Um parágrafo ambíguo, uma fotografia útil. Qualquer coisa que mantenha viva a ficção da diplomacia. Para já, isso basta.
Porque o que está em causa não é o acordo o acordo de paz. É a gestão do tempo. Kiev quer segurança existencial, mais sanções e manter os EUA por perto. Moscovo quer consolidar o que ocupou, levantar sanções e lançar nova ofensiva no verão. A Europa procura estabilizar a sua nova relevância. E os Estados Unidos… bom, é esperar para saber o que pensa Trump hoje.
A cimeira de Istambul é um teste — mas não à presença da Europa. Pela primeira vez em décadas, a Europa chega à mesa com mais do que boas intenções: traz política de defesa, tropas no terreno e uma Alemanha que já não pede licença para liderar.
Com uma brigada estacionada na Letónia, mais cinco a caminho de pontos estratégicos, os mísseis Tauros desbloqueados, armamento a ser produzido com Kiev e um plano europeu de rearmamento de 800 mil milhões até 2030, a Europa conquistou o direito de estar nesta sala — mesmo que fale menos do que observa.
E é, talvez, o único verdadeiro vencedor desta cimeira. Não porque tenha trazido paz. Mas porque deixou de ser irrelevante. Está, finalmente, a construir o poder necessário para que a sua diplomacia deixe de ser decorativa.
É pouco? É o início. Mas é, sem dúvida, mais do que alguma vez se fez nas últimas décadas.