Israel está apreensivo com a possibilidade de o Presidente norte-americano, Donald Trump, selar um entendimento com o Irão antes de estarem resolvidas as questões fundamentais que levaram os dois países ao conflito. A informação foi avançada à CNN por diversas fontes israelitas.
Para o governo de Telavive, qualquer pacto que preserve parcialmente o programa nuclear de Teerão e ignore o desenvolvimento de mísseis balísticos ou o apoio a milícias aliadas na região significaria que a guerra terminaria de forma incompleta.
"O principal receio é que Trump se canse das negociações e aceite um acordo — qualquer acordo — com concessões de última hora", explicou uma fonte israelita. Embora Washington tenha garantido que o stock de urânio altamente enriquecido será uma prioridade, a mesma fonte sublinhou que a exclusão dos mísseis balísticos e das redes de influência iranianas das conversações "é um problema grave".
Durante o conflito, o Irão disparou mais de mil mísseis balísticos contra Israel e os Estados árabes do Golfo, além de várias vagas de drones.
Um acordo parcial que não neutralize as principais capacidades militares de Teerão e que alivie a pressão económica sobre o país poderá, segundo as autoridades, estabilizar o regime e garantir-lhe um fluxo imediato de liquidez. Estas preocupações evidenciam o fosso entre Trump, que parece pouco inclinado a retomar as hostilidades, e Benjamin Netanyahu, que teme um desfecho aquém dos objetivos inicialmente traçados.
Em resposta, uma porta-voz da Casa Branca afirmou que o Irão "tem plena consciência de que a realidade atual é insustentável", assegurando que Trump "tem todas as cartas na mão" no processo negocial.
"Os seus mísseis balísticos foram destruídos, as instalações de produção desmanteladas, a marinha afundada e os seus aliados estão fragilizados", referiu Olivia Wales num comunicado enviado à CNN. A responsável acrescentou que o país está a ser "estrangulado economicamente pela Operação Fúria Económica", perdendo cerca de 500 milhões de dólares por dia devido ao bloqueio naval norte-americano nos portos iranianos.
Apesar dos esforços, um entendimento final continua incerto. Persistem divergências profundas quanto à reabertura do Estreito de Ormuz e ao futuro do programa nuclear, com Israel a preparar-se para a eventualidade de os combates recomeçarem. Contudo, a administração Trump mantém a aposta na via diplomática, revelando-se relutante em reiniciar um conflito que fez disparar o preço dos combustíveis nos Estados Unidos.
Metas reduzidas
No início da guerra, Trump sugeriu que o objetivo dos Estados Unidos passava por destruir o programa de mísseis balísticos, cessar o apoio a grupos armados regionais e encerrar as instalações nucleares para impedir o desenvolvimento da bomba atómica. No entanto, passadas dez semanas, as negociações parecem centradas apenas no urânio — especificamente no enriquecimento para fins militares — e na livre circulação no Estreito de Ormuz.
Esta redução de prioridades é visível no discurso público do primeiro-ministro israelita. Em fevereiro, antes do início das hostilidades, Netanyahu exigia cinco condições para um acordo aceitável. Na semana passada, numa mensagem em vídeo dirigida ao Gabinete de Segurança, reduziu a lista a apenas um ponto: "O objetivo mais importante é a retirada de todo o material enriquecido do Irão e o desmantelamento das capacidades de enriquecimento". Não houve qualquer menção aos mísseis balísticos ou ao apoio a grupos como o Hezbollah ou o Hamas.
Uma fonte próxima do processo explicou que Israel já compreendeu que os mísseis e as milícias "estão provavelmente fora da mesa", uma vez que não constam dos primeiros esboços diplomáticos. É por essa razão que Netanyahu está a priorizar a questão do urânio como a ameaça mais imediata.
O primeiro-ministro israelita confia sobretudo no contacto direto com Trump, uma vez que não deposita total confiança no enviado Steve Witkoff ou em Jared Kushner, o genro do Presidente, que têm liderado as conversações com o Irão. Paralelamente, Netanyahu tem procurado obter informações através de canais diplomáticos informais com o Paquistão e o Qatar.
"Ficaremos satisfeitos se não houver acordo"
"Existe um receio real de que Trump aceite um mau acordo. Israel está a tentar exercer a maior influência possível", explicou outro responsável israelita à CNN. Ainda assim, Netanyahu atua com cautela para não ser visto como o responsável por empurrar Trump de volta para a guerra.
O setor de segurança de Israel teme, especificamente, um acordo provisório que prolongue o cessar-fogo e alivie as sanções sem resolver a questão nuclear. Teerão tem insistido que um pacto preliminar deve cobrir apenas o alívio económico e o Estreito de Ormuz, adiando o dossier nuclear para etapas posteriores.
Um alto responsável de Telavive garantiu à CNN que o país permanece em alerta máximo perante uma possível rutura das negociações. "Estamos atentos. Ficaremos satisfeitos se não houver acordo, se o cerco a Ormuz continuar e se o Irão sofrer mais alguns ataques", afirmou, reconhecendo que a decisão final cabe a Trump.
Entretanto, fontes próximas das discussões confirmam que os Estados Unidos e Israel mantêm a coordenação de planos militares para o caso de a diplomacia falhar, incluindo ataques a infraestruturas energéticas e operações contra a liderança iraniana. Boaz Bismuth, presidente da Comissão de Negócios Estrangeiros e Defesa do Parlamento, resumiu a situação numa publicação digital: "Ou há negociação, ou há estrondo".
Surgiu ainda nas conversações a ideia de uma "cláusula de caducidade" — uma disposição que permitiria a expiração de certas restrições após um determinado número de anos, tal como acontecia no acordo de 2015 assinado por Barack Obama. Israel teme que este novo modelo contenha elementos semelhantes ao pacto anterior, que tanto Trump como Netanyahu criticaram duramente no passado.
Fontes israelitas revelaram que o país está a pressionar para a inclusão de duas salvaguardas: a proibição total de enriquecimento durante o período de vigência da cláusula e o desmantelamento das instalações subterrâneas de Fordow e Pickaxe Mountain, locais onde se acredita que o Irão esteja a avançar com as suas capacidades nucleares. Para as chefias militares de Israel, se a guerra terminar sem que o urânio enriquecido seja retirado do território iraniano, a missão será considerada um fracasso.
