Que as próximas linhas estejam todas profundamente erradas e que possamos fumar o cachimbo da paz no Médio Oriente em breve, colocando um ponto final à crise humanitária de Gaza.
Faltam poucas horas para uma resposta definitiva do Hamas ao acordo dos 20 pontos que Trump elaborou para a paz em Gaza (seguindo as passadas titubeantes de Biden). O plano agrada a Netanyahu e aproxima novamente os líderes que pareciam desavindos desde o ataque do governo israelita à delegação do Hamas, a negociar a paz em Doha.
O plano vem reforçado de esperança num cessar-fogo, conta com o apoio de alguns dos países mais influentes do mundo árabe, normaliza as relações económicas entre os EUA e os seus parceiros da região – veja-se o acordo assinado esta segunda-feira entre Jared Kushner e o fundo soberano da Arábia Saudita para a compra da Eletronic Arts – e coloca a responsabilidade do sucesso ou insucesso do processo de paz na ponderação de um grupo terrorista.
Pois bem, as probabilidades estão contra uma resposta positiva do Hamas. É difícil perspetivar que os militantes do Hamas aceitem um desarmamento, pois reside aí o último reduto da defesa bélica de Gaza. Para além disso, o acordo não contempla garantias de reconhecimento, soberania ou integridade territorial do estado palestiniano. Nem perspetiva uma solução para os colonatos na Cisjordânia.
O acordo isola o Hamas, que no início do século contava com o apoio financeiro dos EUA e dos países circundantes (com a conivência de Israel) para erodir o poder da Fatah, mas omite o fundamental – se a paz acontecer amanhã, para onde caminha a Palestina e os Palestinianos?
Um sim ao acordo de paz abre três portas aos destinos de Gaza e nenhuma delas é particularmente convidativa. A primeira hipótese passa pelo estabelecimento de uma comissão governamental transitória liderada por Tony Blair, a ser montada na fronteira egípcia. A exequibilidade prática desta hipótese é quase nula. Blair é persona non grata no Médio Oriente por ter cavalgado a narrativa do armamento “fantasma” de destruição em massa, que culminou na invasão do Iraque em 2003 e na morte de Saddam Hussein. Para além disso, uma comitiva política de transição deve encerrar-se no seu fim, garantir a transição pacifica. Se isso não vier acompanhado de algum tipo de reconhecimento do estado da Palestina ou da efetividade de condições que estabilizem a sua soberania, estamos perante o risco de Gaza se tornar um protetorado britânico ad eternum.
A segunda hipótese, alumia o caminho da expansão da esfera de influência americana no médio oriente e no golfo pérsico. Passa por um acordo concertado entre o governo dos EUA e Israel, que escolherão a configuração e as personalidades constituintes de uma junta – decerto militarizada – que assegurará as condições de governação no território até estarem reunidos uma série de critérios para a dissolução dessa mesma junta e a prosperidade política, económica e social da região. Este plano esbarra na utopia. Nunca o Hamas aceitará um plano que legitima o domínio do território às potências ocupantes ocidentais, muito menos a uma parceria Trump-Netanyahu, sob pena de ver Gaza a afundar-se em resorts ou a caminhar para uma “Afeganistização” com tropas americanas permanentes em toda a faixa.
A terceira hipótese é a única que não passa pela interferência estrangeira de longo prazo num putativo governo palestiniano. Este caminho prevê a mudança de domínio político em Gaza do Hamas para a Fatah (ou autoridade palestiniana), que governa as zonas palestinas da Cisjordânia. Esta transmutação do governo da Cisjordânia para Gaza, sob a égide da Autoridade Palestiniana, já foi discutida por Netanyahu que afirmou que só aceitaria essa mudança caso a Fatah “se reformasse profundamente”.
Guess what? Nenhum tipo de governo assegurado pela autoridade palestiniana encherá as medidas ao primeiro-ministro israelita, que pretende erradicar a possibilidade de reconhecimento do estado palestiniano. Sabemos que podemos contar com o ódio visceral de Netanyahu à Fatah e a tudo o que Arafat, os Acordos de Oslo e Rabin representam para os partidos israelitas mais radicais. Foi esse ódio que legitimou a ascensão do Hamas na faixa de gaza como um movimento de fora para dentro, muitas vezes financiado pelo ocidente, para combater o poderio de Arafat na região. O problema é que esse movimento cresceu mais do que devia, tornou-se uma organização terrorista com ambições próprias e (tecida pelas linhas da história do médio oriente) não capitulará através da via diplomática, quando sabem que está em cima da mesa a cedência do seu poder a um regime da autoridade palestiniana.
Posto isto, este processo de paz enfrentará o seu maior desafio no dia em que o Hamas der uma resposta afirmativa. Nenhuma das soluções assegura um caminho para a existência de um estado pacifico palestiniano liderado por forças políticas autónomas da Palestina, nem a consolidação de estruturas democráticas tanto em Gaza como na Cisjordânia. Será uma questão de tempo até tornar Gaza (e a Cisjordânia) num novo Iraque ou Afeganistão com a presença perpetua da ameaça terrorista e as forças ocidentais a assumirem o controlo pela “paz e segurança” da população, que produziu os resultados a longo-prazo que estão à vista em ambos os países.
No entanto, falta o pior dos cenários! Uma resposta negativa, que parece o mais provável, dá força a Netanyahu para destruir o que resta de Gaza e estender os colonatos na Cisjordânia, enquanto culpa o Hamas. O princípio da proporcionalidade não será um problema, como não tem sido até agora. Nem para ele, nem para todos os bons rapazes que o rodeiam (Ben-Gvir, Smotrich, etc…), reminiscentes da influência do antigo revisionismo sionista na configuração partidária israelita. Temo por todos os que lá ficam, incluindo os reféns que perderão o valor como moeda de troca.