"Vamos ter uma escalada de violência com repercussões mundiais". O que significa a polémica visita de um ministro israelita à Esplanada das Mesquitas

3 jan, 20:46

Chegada de fação de extrema-direita ao governo israelita promete elevar as tensões no Médio Oriente

A tensão entre Israel e o mundo árabe atingiu um novo pico esta terça-feira. O novo ministro israelita da Segurança Nacional desafiou as recomendações do anterior primeiro-ministro e os avisos muçulmanos (nomeadamente do Hamas), aparecendo durante a manhã na Esplanada das Mesquitas, um local de culto para o Islão, mas também para os judeus, que fica na cidade disputada de Jerusalém. O gabinete do atual primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, afirmou que o governo continua comprometido em manter o estatuto do local, onde apenas são permitidos muçulmanos para efeitos religiosos.

Itamar Bem-Gvir, que chega ao poder vindo da extrema-direita, já tinha prometido que o ia fazer, mas até foi mais longe: na rede social Twitter escreveu que “o Monte do Templo está aberto para todos”, utilizando a designação judaica para o local, naquilo que foi visto como mais um ato de desrespeito pelos muçulmanos.

À CNN Portugal, Maria João Tomás admite que podemos estar perante um escalar grave da tensão, que classifica de "preocupante". Para a especialista em assuntos do Médio Oriente existe um governo "como nunca houve" em Israel, destacando a deriva de extrema-direita dos partidos que suportam o executivo.

"De hoje para amanhã vamos ter uma escalada de violência que terá repercussões mundiais", afirma, lembrando que naquele local está a importante mesquita de Al-Aqsa, a segunda mais relevante para a religião islâmica.

A investigadora afirma que "a tradição ligada ao mundo muçulmano está a ser posta em causa" com estes atos do ministro, recordando que Israel condenou recentemente uma resolução da Organização das Nações Unidas que pedia o fim dos colonatos (territórios ocupados e anexados por Israel e que são reivindicados pela Palestina).

E Maria João Tomás garante que "o Hamas não vai deixar passar isto em branco", esperando um escalar de violência que teve vários pontos altos nos últimos anos, com troca de tiros na Cisjordânia ou até mesmo lançamentos de mísseis de um lado para o outro.

Isto porque Itamar Ben-Gvir também é conhecido pelas suas opiniões sobre o estatuto de Jerusalém. O agora ministro defende que aquela seja a capital de Israel, em vez de Telavive, querendo também que todo aquele território, atualmente dividido, faça parte do país.

De resto, basta olhar para a história: em 2000, a visita de Ariel Sharon, então líder da oposição de direita israelita, ao local foi vista pelos palestinianos como uma provocação. No dia seguinte, confrontos sangrentos entre palestinianos e polícias israelitas marcaram o início da segunda Intifada (sublevação palestiniana, 2000-2005).

Em maio de 2021, a violência em Jerusalém Oriental, particularmente na Esplanada das Mesquitas, foi o prelúdio de uma guerra de 11 dias entre o Hamas e Israel.

Advogado, Itamar Ben Gvir tornou-se ministro em dezembro no governo liderado por Benjamin Netanyahu. Defende a anexação por Israel da Cisjordânia, onde vivem 2,9 milhões de palestinianos e 475 mil israelitas, em colonatos considerados ilegais, segundo o Direito Internacional. Defende ainda a transferência de parte da população árabe de Israel, considerada desleal, para países vizinhos.

Reações de EUA, Rússia e ONU

Os Estados Unidos já vieram dizer que continuam "firmes" na preservação do status quo dos locais religiosos naquela cidade. Já o ministro russo dos Negócios Estrangeiros, Sergei Lavrov, manifestou ao seu novo homólogo israelita, Eli Cohen, disponibilidade para apoiar o reinício do processo de paz palestiniano.

"Os ministros [Lavrov e Cohen] passaram em revista a situação no Médio Oriente e no Norte de África. Ao discutir o acordo israelo-palestiniano, o lado russo salientou a sua disponibilidade para continuar a ajudar a reiniciar o processo de paz numa base jurídica internacional geralmente reconhecida", disse o Ministério dos Negócios Estrangeiros russo numa declaração.

Já o secretário-geral da ONU, António Guterres, pediu que se "contenham os próximos passos que podem escalar as tensões em torno dos locais religiosos".

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