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Comentador da CNN Portugal

Reconhecimento e realidade

22 set 2025, 10:22

Reconhecer a Palestina não é premiar o terrorismo — é afirmar que sem dois Estados não haverá paz nem futuro

Curiosamente, o único partido português com responsabilidades que se insurgiu contra o reconhecimento do Estado palestiniano foi o CDS — hoje reduzido a dois deputados e à sombra do que já foi. 

Ironia amarga: quem se reclama da doutrina social da Igreja não conseguiu olhar de frente para a tragédia de Gaza: mais de 65 mil mortos, milhares de crianças soterradas, hospitais arrasados e uma população inteira empurrada para a fome. Nada justifica já esta destruição em nome da “segurança de Israel” — argumento gasto e moralmente vazio. Ainda assim, o CDS preferiu repetir o reflexo pavloviano de recusar qualquer soberania palestiniana, por pura razão ideológica.

Os autoproclamados democratas-cristãos avançaram com dois argumentos sem substância. O primeiro consiste em defender a possibilidade do reconhecimento da Palestina, mas “não neste momento” — uma fórmula sem conteúdo, usada apenas para mascarar o que na prática significa rejeitar a solução de dois Estados, a mesma que uniu Rabin e Arafat e lhes valeu o Nobel da Paz. O segundo argumento é ainda mais frágil e hipócrita: reconhecer a Palestina seria um prémio ao terrorismo. Como se o Papa, o primeiro-ministro canadiano, o primeiro-ministro britânico, o presidente de França ou até o próprio Governo português, do qual o CDS faz parte, fossem apoiantes do Hamas.

Também na rua se fez ouvir a contestação: meia dúzia de bandeiras agitadas e alguns cânticos dispersos junto ao MNE procuraram dramatizar a oposição a uma decisão diplomática que, na verdade, apenas coloca Portugal no mesmo patamar de três quartos dos países membros da ONU. Um folclore mais próximo do ritual político do que da convicção, um gesto que pareceu servir sobretudo para expor a irrelevância de quem protesta.

Portugal reconheceu Israel em 1977, três décadas depois da sua fundação. Fê-lo tarde, mas fê-lo. Israel existe, desde o início, por exclusão. É uma democracia liberal peculiar, cercada por regimes teocráticos, que para se afirmar após a Segunda Guerra Mundial não hesitou em recorrer à violência — inclusive contra aliados ocidentais. Para garantir a sua soberania, Israel nunca poupou meios, nem recuou perante a guerra ou perante ações que, por vezes, não se distinguem do terrorismo puro e simples. Quem, no Ocidente, vê Israel como baluarte da democracia liberal tem de aceitar o “pacote” completo: o fanatismo sionista pode ser tão letal quanto o fanatismo islâmico.

A verdade é que foi o próprio governo israelita quem, durante anos, alimentou a besta que hoje combate. Incentivou o Hamas como forma de dividir os palestinianos e acabou refém de um monstro que lhe apresentou a fatura em Outubro de 2023. Desde então, a resposta tem sido esmagar Gaza até ao pó, sempre com a justificação de que, sob cada pedra, pode esconder-se um militante do Hamas. A tragédia é que, por entre pedras e destroços, estão também famílias, crianças, inocentes que nada têm a ver com o fascismo religioso do Hamas.

É neste contexto que deve ser entendida a decisão portuguesa. Reconhecer a Palestina não é legitimar o Hamas nem premiar o terrorismo. É um ato pragmático e profundamente humanista. Portugal, com a sua tradição diplomática e multilateral, não podia continuar indiferente. Mais de 75% dos países da ONU já reconheceram a Palestina, incluindo a maioria dos membros permanentes do Conselho de Segurança. Agora foi a vez de Portugal o fazer. E fez bem. Montenegro e Rangel estiveram à altura das circunstâncias.

A diplomacia nunca é ingénua; é sempre, em parte, oportunista. Mas, nas melhores circunstâncias, pode ser também um ato de coragem. Reconhecer a Palestina é afirmar que acreditamos numa solução de dois Estados — Israel e Palestina — coexistindo em paz. É assumir que, sem esse horizonte, não haverá processo político que resista, nem segurança que perdure. Portugal reconheceu Israel em 1977. Hoje, com igual legitimidade, reconhece a Palestina. E, entre os dois gestos, afirma o essencial: sem dois Estados, não haverá paz nem futuro.

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