Israel quer fazer um parque bíblico em Jerusalém. Para isso, obriga os palestinianos a demolir as próprias casas

16 mai, 22:00
al-Bustan (Getty)
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Em al-Bustan, há casas que não caem pela mão de quem as quer no chão. Caem pelas mãos de quem lá viveu

O bairro fica em Silwan em Jerusalém Oriental. Descendo das muralhas da Cidade Velha, perto de al-Aqsa, no lugar onde a cidade deixa de ser apenas lugar santo e passa a ser chão disputado.

Nas últimas semanas, e segundo uma reportagem do Guardian, o som das demolições não veio só das máquinas da câmara de Jerusalém. Veio também de tratores contratados por palestinianos para destruírem as próprias casas antes que Israel as destruísse por eles e lhes enviasse depois a conta.

Jalal al-Tawil viu a casa do pai, erguida no terreno onde antes viveram os avós, desfazer-se em paredes partidas e pó. A autarquia tinha-lhe dito que, se fossem os serviços municipais a demolir, teria de pagar 280 mil shekels, cerca de 82,5 mil euros. Contratar a máquina, o martelo pneumático e os homens saía-lhe por menos de um décimo. Não era uma escolha. Era a forma mais barata de perder. “Isto é amargo”, resumiu à reportagem do jornal britânico. Depois comparou a decisão a escolher entre suicídio e homicídio.

No fim, Jalal al-Tawil deixou a videira. Tinha 35 anos, tronco grosso, raízes antigas, folhas novas já abertas para a primavera. “Dava uvas para todo o bairro”, contou. Mas também ela teria de desaparecer.

Em al-Bustan, as casas não são apenas casas e as árvores não são apenas árvores. São prova de passagem, de família, de permanência. Depois chega uma ordem de demolição e tudo isso passa a ter outro nome: construção ilegal.

No lugar destas casas, a câmara de Jerusalém quer avançar com o King’s Garden, um parque de inspiração bíblica associado à tradição do rei Salomão e ligado ao eixo turístico e arqueológico da chamada Cidade de David. A autarquia sustenta que o projeto criará espaço público numa zona carente de áreas verdes e que as construções palestinianas foram erguidas sem licença.

Os moradores respondem que muitas casas são anteriores à ocupação israelita de Jerusalém Oriental e que, para palestinianos, conseguir autorização para construir é raro, lento e quase sempre inútil.

A palavra licença, aqui, nunca é apenas administrativa. Israel ocupou Jerusalém Oriental na guerra de 1967 e anexou-a depois, considerando a cidade inteira a sua capital. A maior parte da comunidade internacional não reconhece essa anexação.

Em Gaza, Israel retirou colonos e soldados em 2005, mas manteve controlo sobre fronteiras, espaço aéreo e circulação, e o bloqueio imposto depois da tomada do poder pelo Hamas tornou a vida no território cada vez mais fechada. Em Jerusalém Oriental, não houve retirada. Houve anexação, colonatos, planos municipais, organizações de colonos, demolições e uma pressão constante sobre bairros palestinianos como Silwan.

“O meu coração está a arder”

Mais de 57 casas de al-Bustan foram demolidas nos últimos dois anos, segundo os números citados pelo Guardian. Pelo menos oito tinham ordem para cair nas semanas seguintes.

O projeto esteve suspenso durante anos por resistência local, pressão internacional e hesitações políticas dentro de Israel. Mas depois dos ataques do Hamas de 7 de outubro de 2023, da guerra em Gaza e do endurecimento do Governo israelita, os travões parecem mais frágeis. As visitas diplomáticas continuam. As promessas também. Mas as máquinas chegam primeiro.

Mohammad Qwaider, 60 anos, pai de seis filhos, demoliu parte da casa para tentar salvar o resto. Pouco depois, um funcionário municipal avisou-o de que as máquinas voltariam. Tem dores crónicas nas costas, um filho com necessidades especiais e a mãe, Yusra, de 97 anos, presa a uma cama no rés do chão. Se a casa cair, disse à reportagem do Guardian, monta uma tenda. “Não vamos sair.” Podem destruir-lhe a casa, mas não conseguem obrigá-lo a abandonar o lugar.

Yusra nasceu em Jaffa, antes de Israel existir como Estado. Fugiu em 1948, na Nakba, a catástrofe palestiniana que acompanhou a criação de Israel e levou à fuga ou expulsão de centenas de milhares de palestinianos. Depois viveu em Yalo, em território então controlado pela Jordânia. Em 1967 voltou a ser deslocada, quando Israel conquistou Jerusalém Oriental, a Cisjordânia e Gaza na Guerra dos Seis Dias. Passou ainda pelo bairro judaico da Cidade Velha, até novas demolições a empurrarem para Silwan. Agora, quase um século depois de nascer junto ao mar, recusa outra partida. “Daqui não saímos. Nem eu, nem os meus filhos”, disse àquele jornal.

Duas portas abaixo, e ainda na mesma reportagem, Fakhri Abu Diab vive com a mulher, Amina, numa cabina pré-fabricada montada entre os restos da casa de quatro gerações. Ficou uma parte da cozinha. O resto é ruína. Continua a pagar a multa imposta pela demolição. Sentado no que foi o centro doméstico da família, recordou ao Guardian o lugar onde comia com os filhos e os netos. Depois veio a frase que fica depois dos números: destruíram-lhe a infância, as memórias, os sonhos, o futuro. “O meu coração está a arder.” Amina, a mulher, professora e assistente social, pensa nas crianças. “Uma casa é o sonho de futuro de uma criança”, disse. Quando uma casa cai, cai também a ideia de proteção.

E fica a pergunta que ela própria formulou: o que pensam os filhos dos adultos quando os adultos já não conseguem proteger a casa?

A câmara de Jerusalém diz que tentou durante anos encontrar uma solução para os moradores, incluindo alternativa habitacional, e que estes não mostraram interesse sério num acordo. Os residentes dizem ter apresentado um plano para o bairro, com habitação e espaços verdes, mas que foi recusado por razões políticas.

Os palestinianos falam de ocupação, desigualdade de licenças e substituição de uma comunidade viva por uma paisagem bíblica pronta para visitantes. Israel fala de construção ilegal e parque público. O King’s Garden é apresentado como jardim. Mas em al-Bustan começou como entulho.

Talvez um dia, talvez em breve, haja caminhos limpos, árvores novas, placas turísticas e uma história antiga contada a quem passe. O que os palestinianos temem é que ninguém diga que antes do parque havia ali casas. E que, antes das casas caírem, foram os seus donos obrigados a escolher a forma da própria perda.

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