A fome e o genocídio chegaram à guerra que (não) acabou

Agência Lusa , AG
28 dez 2025, 22:00
Destruição na Faixa de Gaza (EPA)

BALANÇO DO ANO || A ONU foi avisando, mas acabou mesmo por fazer duas declarações inéditas em relação à Faixa de Gaza

Ao fim de dois anos de confrontação, Israel e o grupo islamita Hamas acordaram em outubro um cessar-fogo na Faixa de Gaza, interrompendo um conflito de devastação sem precedentes no território, mas não a incerteza do seu futuro.

A trégua entrou em vigor em 10 de outubro e tem sobrevivido desde então a acusações cruzadas de violações sucessivas na primeira fase de um plano mais vasto para encerrar a guerra no enclave palestiniano.

Quando assinou o entendimento, promovido pelos Estados Unidos com apoio dos outros mediadores (Egito, Catar e Turquia), Israel tinha em curso uma vasta operação para ocupar a Cidade de Gaza, eliminar os últimos redutos do Hamas e recuperar os reféns ainda na posse das milícias palestinianas.

Apesar de manter a iniciativa militar, as autoridades israelitas enfrentavam críticas crescentes da comunidade internacional, que ganharam corpo com denúncias acumuladas de uma catástrofe humanitária iminente, desde que Israel quebrou, em março e ao fim de seis semanas, o primeiro cessar-fogo de 2025 com o Hamas, e impôs um bloqueio total ao território.

Em setembro, um painel de peritos da ONU declarou uma situação de fome no norte da Faixa de Gaza e, no mês seguinte, outra comissão das Nações Unidas acusou Israel de orquestrar uma campanha de genocídio contra os habitantes palestinianos, alegação rebatida por Telavive como “distorcida, falsa” e que apenas servia o Hamas.

Esta conclusão juntava-se, porém, a outras no mesmo sentido de várias organizações de direitos humanos e aos mandados de captura, emitidos no final de 2024 pelo Tribunal Penal Internacional, para o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, e o seu ex-ministro da Defesa Yoav Gallant por crimes de guerra e contra a humanidade.

Desde o início da guerra, o número de mortes registadas pelo Ministério da Saúde do enclave – controlado pelo Hamas mas considerado fiável pela ONU e outras organizações internacionais -, já ultrapassou as 70 mil, na maioria civis, das quais acima de 350 ocorreram depois da última trégua. 

Israel enfrentou ainda em setembro uma vaga de reconhecimentos diplomáticos do Estado Palestiniano, num total de dez países ocidentais - incluindo Reino Unido, França e também Portugal – antes de aceitar o início do plano desenhado por Washington.

Na primeira fase, o acordo previa a troca dos reféns ainda em posse do Hamas por quase dois mil prisioneiros palestinianos, a retirada parcial dos militares israelitas e o acesso de ajuda humanitária ao território.

O acordo esteve preso por um fio em várias ocasiões, no seguimento de acusações de ataques de combatentes do Hamas contra soldados israelitas, retaliadas com pesados bombardeamentos no enclave, ou nos atrasos ou erros de identidade na entrega dos corpos dos últimos reféns mortos a Israel, depois de cumprida a devolução dos 20 que estavam vivos. 

As autoridades israelitas condicionam à recuperação de todos os reféns a discussão da segunda fase do plano norte-americano e a continuação da sua retirada, a par do desarmamento e afastamento do Hamas da gestão do enclave, que passaria a ser assegurada por um “conselho da paz” transitório liderado pelo líder da Casa Branca, Donald Trump, e ainda do destacamento de uma força internacional.

A guerra na Faixa de Gaza, iniciada com os ataques do Hamas de 7 de outubro de 2023 no sul de Israel, de que resultaram cerca de 1.200 mortos e 251 reféns, teve ondas no Médio Oriente, onde as forças israelitas entraram, durante 12 dias em junho, em confrontação direta com o Irão, e atacaram a delegação negocial do Hamas no Qatar um mês antes de selarem a trégua.

Continuam também a executar raides aéreos quase diários no Líbano, apesar do cessar-fogo em vigor com o grupo xiita Hezbollah, e onde ainda conservam posições militares, tal como na vizinha Síria desde a queda há um ano do regime de Bashar al-Assad.

O futuro da Faixa de Gaza está ainda ligado à situação na Cisjordânia e expansão de colonatos israelitas ilegais à luz do direito internacional, por sua vez acompanhada pela intensificação da violência em 2025 envolvendo o exército e colonos judeus e a população palestiniana. 

Fome e genocídio

A população da Faixa de Gaza experimentou em 2025 até ao cessar-fogo, em vigor no enclave palestiniano desde outubro, um quadro de fome e genocídio, segundo duas declarações inéditas da ONU, a par da explosão da violência na Cisjordânia.

Como antecedente da pausa dos combates, uma comissão independente de investigação da ONU acusou em setembro Israel de cometer um genocídio ao longo de dois anos de conflito, com a "intenção de destruir" a população palestiniana.

O relatório da comissão foi recebido com indignação em Telavive e classificado como “tendencioso e mentiroso”, apesar de o painel de peritos apontar declarações das autoridades israelitas e o padrão das suas tropas como demonstrações de comportamento genocida.

A divulgação do documento coincidiu com uma vasta operação de ocupação da Cidade de Gaza e amplos protestos em várias cidades mundiais a exigir o fim da ofensiva e ação da comunidade global.

A pressão contribuiu para que uma dezena de países ocidentais, entre os quais Portugal, aumentassem para mais de 150 o número de membros da ONU que reconhecem o Estado da Palestina e que vários governos europeus impusessem embargos de armas a Israel.

Outro painel de peritos da ONU tinha descrito no mês anterior que meio milhão de pessoas enfrentavam um quadro de fome no norte do território e pela primeira vez no Médio Oriente, com risco de alta propagação.

Mais uma vez Israel se referiu como “falsidades baseadas no Hamas” às conclusões do relatório da Classificação Integrada de Segurança Alimentar, cujos peritos se referiram a condições catastróficas “inteiramente provocadas pelo Homem”, em alusão às operações israelitas.

Este quadro de desastre humanitário era também consistente com os alertas repetidos das agências da ONU e de outras organizações internacionais, sobretudo desde que Israel impôs um bloqueio total ao enclave, logo após ter quebrado em março o primeiro cessar-fogo do ano com Hamas, deixando os habitantes palestinianos mais sós.

Durante os meses de bloqueio, a única ajuda autorizada foi concentrada na controversa Fundação Humanitária de Gaza, apoiada por Washington e Telavive, cujos centros de distribuição ficaram ligados a vários episódios de caos e violência, que resultaram em mais de 1.100 mortos registados pelas autoridades locais. 

Estes números engrossam a estatística de acima de 70 mil mortos em dois anos, segundo dados do Ministério da Saúde do enclave, controlado pelo Hamas, mas considerados fiáveis pela ONU, que por sua vez indicou, a partir de óbitos verificados, que 70% das vítimas são mulheres e crianças.

A vulnerabilidade dos civis tem sido evidenciada na cobertura dos jornalistas palestinianos, que prosseguem o seu trabalho num território vedado à imprensa internacional, apesar dos riscos atestados por mais de 250 profissionais mortos em dois anos.

Até ao último cessar-fogo, 90% dos 2,1 milhões de habitantes do território devastado pelos bombardeamentos estavam deslocados e o seu destino era ainda mais incerto perante a ameaça, por parte de membros do Governo israelita, de concentração numa “cidade humanitária” ou até deportação, que chegou ainda a ser sugerida pelo líder norte-americano, Donald Trump, quando se referiu à ideia de uma “Riviera do Médio Oriente”.

A violência é atribuída por ONU e Autoridade Palestiniana ao exército israelita e colonos judeus a coberto da impunidade, a par de anúncios de mais colonatos ilegais, acompanhados de demolições e expulsões dos habitantes, estradas, campos agrícolas e linhas de água vedados e estrangulamento financeiro.

Segundo o Gabinete da ONU para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), mais de mil palestinianos morreram na Cisjordânia na vaga de violência nos últimos dois anos.

Só em outubro, foram registados 264 ataques de colonos que resultaram em vítimas, danos materiais ou ambos na Cisjordânia, representando o máximo mensal em quase duas décadas de recolha de dados.

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