Netanyahu tenta fechar maioria (e evitar ir a votos) com dinheiros públicos. Oposição denuncia “pilhagem” e “subornos”

29 mar, 21:00
Benjamin Netanyahu

À medida que a guerra com o Irão encarece a Defesa e aperta o resto do Estado, o Governo israelita tenta fechar o orçamento com verbas negociadas para os seus aliados mais sensíveis

A votação final do orçamento de 2026, prevista para a noite deste domingo na Knesset, o parlamento israelita, tornou-se uma prova de sobrevivência para Benjamin Netanyahu.

O orçamento revisto prevê uma despesa total de 699 mil milhões de shekels (192,4 mil milhões de euros), excluindo o serviço da dívida, e eleva o défice-alvo para 5,1% do PIB. A guerra com o Irão obrigou o executivo a acrescentar 32 mil milhões de shekels (8,8 mil milhões de euros) à Defesa, elevando a fatura militar total para 143 mil milhões de shekels (39,4 mil milhões de euros), ao mesmo tempo que impôs um corte transversal de 3% na despesa civil.

Se o orçamento não for aprovado até 31 de março, a Knesset dissolve-se automaticamente e Israel entra em processo eleitoral. Foi neste quadro que a oposição subiu o tom.

Naftali Bennett, antigo primeiro-ministro de Israel e hoje um dos principais adversários de Netanyahu, acusou o Governo de estar a “pilhar” os cofres públicos com sete mil milhões de shekels (1,93 mil milhões de euros) em “suborno político” para preservar a coligação. Yair Golan, antigo vice-chefe do Estado-Maior das Forças Armadas e líder do partido The Democrats, da esquerda israelita, falou de um orçamento que favorece os aliados do poder enquanto o resto do país suporta o peso da guerra, do custo de vida e das mobilizações.

O alvo das críticas são as chamadas verbas discricionárias de coligação: dinheiro inscrito no orçamento para responder a exigências específicas dos partidos que sustentam o executivo. Não se trata, aqui, de uma acusação criminal formulada em tribunal, mas de uma denúncia política sobre o uso seletivo de dinheiros públicos para segurar uma maioria frágil.

Essas verbas somam mais de cinco mil milhões de shekels (1,38 mil milhões de euros) e dirigem-se sobretudo a instituições haredim, isto é, ultraortodoxas, a yeshivas, os seminários religiosos judaicos, e a colonatos israelitas na Cisjordânia ocupada. Bennett destacou um número em particular: dois mil milhões de shekels (550,5 milhões de euros) para yeshivas “que educam pessoas para não se alistarem”, nas suas palavras, enquanto o chefe do Estado-Maior, Eyal Zamir, alerta para a falta de efetivos. Yair Golan atacou também o reforço de verbas para escolas ultraortodoxas que recusam ensinar disciplinas do currículo-base e para colonatos que, disse, recebem mais do que localidades dentro da Linha Verde — a fronteira de armistício de 1949 que serve de referência internacional para distinguir Israel do território ocupado em 1967.

É aqui que a notícia orçamental se cruza com a fragilidade política do Governo. Netanyahu depende, para ter maioria, dos partidos ultraortodoxos Shas e Judaísmo Unido da Torá, além da direita nacional-religiosa ligada ao movimento colonizador. São precisamente esses aliados que mais pressionam por financiamento para o seu sistema educativo e para projetos na Cisjordânia. São também os mais inflexíveis na defesa das isenções militares dos estudantes de seminários religiosos.

Em junho de 2024, o Supremo israelita determinou que o Estado tinha de começar a recrutar esses estudantes, pondo fim a uma prática mantida durante décadas sem nova base legal. Desde então, a disputa sobre quem deve servir no exército tornou-se um dos pontos de maior tensão na coligação de Netanyahu.

A sensibilidade do tema aumentou com a guerra. Israel chega a esta votação depois de quase dois anos de conflito em Gaza, de confrontos prolongados no norte com o Hezbollah e, agora, de um mês de guerra com o Irão. O exército precisa de mais homens, de mais rotação de forças e de mais orçamento; os partidos haredim insistem em preservar um regime de exceção para a sua base social.

Foi nesse equilíbrio precário que o orçamento passou a funcionar como moeda política. A Reuters noticiou que os partidos ultraortodoxos tinham ameaçado votar contra o documento se a legislação sobre isenções não fosse fechada primeiro, mas recuaram depois de o Governo lhes alocar cerca de cinco mil milhões de shekels (1,38 mil milhões de euros) para escolas ultraortodoxas. Um deputado da oposição na comissão de Finanças resumiu a escolha do executivo como “sobrevivência da coligação acima de uma distribuição justa dos recursos”.

A guerra pesa também sobre o calendário político. Formalmente, nada impede eleições em tempo de guerra; se o orçamento cair, a lei faz o resto. Mas o conflito tornou eleitoralmente menos atraente uma ida às urnas agora.

Nos primeiros dias da campanha contra o Irão, elementos do campo de Netanyahu chegaram a admitir um voto antecipado no verão, apostando que a guerra lhe daria um impulso. Esse ganho não apareceu. Segundo a Reuters, as sondagens continuam a mostrar cerca de 40% dos eleitores com a coligação e 40% com a oposição, sem desvio claro do eleitorado flutuante. Uma sondagem citada pela agência dava ao Likud 28 lugares e ao atual bloco governamental apenas 51, longe dos 61 necessários para uma maioria na Knesset. A estratégia passou, por isso, a ser outra: ganhar tempo.

A votação desta noite decide, assim, duas coisas ao mesmo tempo. Decide como Israel financia uma guerra que já lhe custa cinco mil milhões de shekels por semana (1,38 mil milhões de euros), com atividade económica condicionada e mais pressão sobre as contas públicas. E decide também se Netanyahu consegue manter unida a maioria de que depende para não ser empurrado já para eleições antecipadas.

É nesse ponto que a oposição concentra a acusação de “pilhagem” e “subornos”. Num momento de cortes noutros ministérios e de subida da despesa militar, o Governo reservou mais de cinco mil milhões de shekels (1,38 mil milhões de euros) para verbas reclamadas pelos partidos da coligação, sobretudo instituições ultraortodoxas e colonatos na Cisjordânia.

Para os adversários de Netanyahu, é dinheiro público usado para comprar sobrevivência política. Para o Governo, é o preço de aprovar o orçamento e continuar a governar.

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