A acontecer: há violação do Direito internacional e dos direitos humanos
Os governos de Israel e dos Estados Unidos estão a considerar a Síria como um possível destino para recolocar os palestinianos da Faixa de Gaza. A notícia está a ser avançada esta segunda-feira pela CBS News, que cita três fontes próximas do processo.
Segundo uma das fontes, a Casa Branca sondou o governo sírio - embora através de um intermediário. Outra fonte, pertencente àquela região, confirmou o contacto com Damasco, embora um alto responsável sírio tenha negado qualquer aproximação “oficial”.
Além da Síria, o gabinete do primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, e a administração de Donald Trump na Casa Branca estão a estudar outras possibilidade para transferência dos palestinianos residentes em Gaza, nomeadamente a Somália e o Sudão, refere a investigação da CBS.
O governo israelita não confirma nem desmente, mas recusou comentar a informação. No entanto, o jornal “Times of Israel”, que cita uma fonte do governo israelita, adianta que esta “diligência” até está em curso mas é maioritariamente conduzida por Washington - não adiantando que locais (de eventual recolocação) estão em cima da mesa.
À CBS, a embaixada da Somália nos EUA recusou ter recebido qualquer “abordagem” diplomática. Uma informação que intensifica o que já antes referira um relatório da Associated Press, que indicava que Washington e Telavive pretendem recolocar os palestinianos residentes em Gaza na região separatista da Somalilândia - um Estado não reconhecido internacionalmente e que é ainda parte do território da Somália.
Esta vontade de retirar de Gaza mais de dois milhões de habitantes e recolocá-los num outro país assenta na proposta da administração de Donald Trump de controlar a Faixa de Gaza, supervisionar o processo de reconstrução e transformar aquele local num luxuoso projeto de desenvolvimento imobiliário: a propalada (nas palavras do presidente dos EUA) “Riviera Médio Oriente”.
Israel acolheu sempre favoravelmente a proposta, apresentada por Trump durante a visita de Benjamin Netanyahu à Casa Branca, em fevereiro último.
A hipótese de transferir os habitantes palestinianos de Gaza para outro local e outros países não é uma hipótese inédita, embora sempre tenha esbarrado na viabilidade (por se tratar de dois milhões de pessoas, numa deslocação forçada e em desrespeito por quaisquer direitos humanos) e na legitimidade (aquele enclave é território palestiniano pelo Direito internacional, o que constituiria uma violação).
Israel vê esta mudança da população de Gaza para outro local, nomeadamente a Síria, como uma forma de alterar a dinâmica demográfica e, por conseguinte, a dinâmica securitária da região. No entanto, a Síria, a braços com uma guerra civil que dura há uma década, dificilmente garantiria condições para acolher um êxodo em massa de refugiados - pelo que a demografia e segurança na região continuariam comprometidas.
Em 2024, um relatório da Human Rights Watch declarava esta tentativa de deslocação “forçada, generalizada, sistemática e intencional”, enquanto “política de Estado” israelita, “um crime contra a humanidade”.
