O Comité para a Proteção dos Jornalistas fala em assassinato deliberado; Israel responde que atingiu apenas a máquina de propaganda houthi
Trinta e um nomes, uma redação apagada do mapa.
O Comité para a Proteção dos Jornalistas (CPJ), organização com sede em Nova Iorque, acusa Israel de ter assassinado três dezenas de profissionais da comunicação social ligados aos meios controlados pelos rebeldes houthis, no Iémen, durante um bombardeamento realizado no início deste mês.
A organização sublinha que se trata do segundo ataque mais mortífero de sempre contra a imprensa. E ainda que os mortos fossem, alegadamente, membros do braço militar dos houthis, o CPJ lembra que, à luz do direito internacional, "deveriam ter sido protegidos como civis".
Tudo começou a 10 de setembro, quando um drone lançado pelos houthis — apoiados pelo Irão — conseguiu furar o sofisticado sistema de defesa israelita e embater no aeroporto Ramon, no sul do país, ferindo uma pessoa. Foi apenas mais um episódio numa longa série: dezenas de mísseis e drones foram lançados contra Israel ao longo do último ano pelos houthis.
A resposta veio do ar. As Forças de Defesa de Israel (IDF) anunciaram ataques a Sana, a capital iemenita, e a al-Jawf, mais a norte. O alvo, segundo Telavive, eram campos militares onde estariam concentrados combatentes houthis, um depósito de combustível e, sobretudo, a sede da divisão de propaganda da fação. Do lado dos houthis, a versão foi outra: 35 mortos no total, entre eles 31 jornalistas.
Esses números foram confirmados pelo jornal "26 de Setembro", o órgão oficial dos houthis, que afirmou ter perdido a redação e ainda outro meio sob controlo do movimento, ambos sediados no quartel-general do chamado Departamento de Orientação Moral das forças armadas iemenitas. A estrutura é dirigida pelo porta-voz militar dos houthis, o general Yahya Saree.
O editor do jornal, Nasser al-Khadri, descreveu o ataque como “brutal e injustificado”, sublinhando que as vítimas eram “inocentes cujo único crime foi trabalhar nos media, armados apenas com canetas e palavras”.
O CPJ classificou as mortes como “assassinatos deliberados de jornalistas pelo seu trabalho”. Mas com uma ressalva: até agora só conseguiu confirmar a identidade de 9 jornalistas entre os 31. A investigação continua.
Na altura, as Forças de Defesa de Israel justificaram a operação dizendo que o departamento de propaganda dos houthis era “responsável pela difusão de incitamento e mensagens de propaganda nos media” e que “liderava os esforços de terror psicológico do regime”.
A acusação do CPJ, porém, vai mais longe e traça uma linha de continuidade: desde 2016, diz a organização, um em cada seis jornalistas mortos no mundo terá sido vítima de ataques atribuídos às forças israelitas — muitos deles em Gaza, desde o início da guerra. Israel responde que não tem como política atacar jornalistas, lembrando que vários nomes incluídos nas listas do CPJ pertenciam, de facto, a grupos considerados terroristas.
Em agosto, um bombardeamento israelita atingiu um hospital em Gaza, provocando pelo menos 20 mortos. Entre as vítimas estavam 5 jornalistas que trabalhavam no local. O episódio foi classificado pelo CPJ como mais uma prova do padrão de ataques contra a imprensa no conflito, num mês em que a Faixa de Gaza registava já dezenas de profissionais da comunicação social mortos em bombardeamentos.