Um espião surpreendido e um embaixador desconfiado: o mundo pode ter ficado mais perigoso nas últimas horas

31 jul 2024, 18:00
Ismail Haniyeh

Israel está a tentar arrastar os EUA para uma guerra com o Irão? “Se fosse esse o objetivo, assumia o ataque em Teerão.” As mortes de um líder militar do Hezbollah em Beirute e de um líder político do Hamas na capital iraniana podem ser o rastilho de uma “guerra total” no Médio Oriente? “É improvável, mas pode acontecer.” E como ficam as negociações de um cessar-fogo em Gaza, agora que Ismail Haniyeh está morto? “Nas atuais circunstâncias, o problema do Médio Oriente não tem solução negocial possível – e há um só país que pode ter a chave disto tudo”

Foram dois ataques cirúrgicos a marcar as últimas 24 horas no Médio Oriente – e pelo menos uma coisa une os dois. O primeiro, na capital do Líbano e já reivindicado por Israel, resultou na morte do comandante Muhsin Shukr, também conhecido como Fuad Shukr, responsável pelas operações militares do Hezbollah. O segundo, horas depois, terá envolvido um míssil de elevada precisão* que teve como alvo Ismail Haniyeh, líder político do Hamas, que se encontrava em Teerão para a tomada de posse do novo presidente do Irão – um ataque que, ao contrário do primeiro, Israel não reivindicou e pode nunca vir a reivindicar.

“Em relação a Fuad Shukr, surpreende-me a capacidade, em tempo imediato, de matar aquele que era apontado como o principal responsável pelo ataque ao norte de Israel que vitimou 12 crianças e jovens, surpreendem-me a velocidade e a precisão, mas não o ataque em si”, diz Jorge Silva Carvalho, ex-diretor do Serviço de Informações Estratégicas de Defesa (SIED). “Agora em relação a Haniyeh, a questão é mais complexa, a atuação no Irão – a confirmar-se que foi Israel – corresponde a mais do que uma provocação, é um ato hostil, o alvo era uma pessoa à guarda do governo iraniano, e Israel não pode assumir isso.”

Em conjunto, e apesar dessa diferença substancial, os dois ataques enviam uma “mensagem poderosíssima aos inimigos” de Israel no Médio Oriente. “Ao Hamas, Israel está a dizer ‘a vossa cabeça foi cortada’, e ao Irão e ao Hezbollah está a dizer ‘os vossos líderes, quando estiverem no Irão, se pensarem que estão a salvo, não estão’.” Mas mesmo assim, acrescenta o analista, “não é de descartar” uma outra hipótese, em particular no contexto das negociações entre as várias fações palestinianas que a China mediou este mês. 

“Sobretudo tendo em conta este esforço de paz com os palestinianos na China, não entendo muito bem este afastamento de Haniyeh, a não ser que pudesse ser incómodo para outras lideranças mais consensuais, dada alguma sua discrepância com as chefias militares [do Hamas]. Não estou com isto a afastar a responsabilidade de Israel, estou apenas a questionar o porquê do afastar de Haniyeh agora, não faz muito sentido.” 

Silva Carvalho destaca, por isso, “duas hipóteses que devem manter-se em aberto" face aos dois ataques: "ter sido Israel ou estarmos perante uma situação em que se imputa responsabilidade a Israel ao mesmo tempo que se afasta uma liderança que, no contexto atual da unificação palestiniana, podia ser vista como incómoda – algo que os iranianos poderiam fazer tranquilamente com um míssil de precisão.”

Apesar de toda a sua dedicação à causa do Hamas, um grupo terrorista para os Estados Unidos e a União Europeia (UE), e apesar da sua retórica inflamatória, Ismail Haniyeh era “tido por muitos diplomatas como um moderado, em comparação com elementos de linha mais dura do grupo em Gaza”, refere a Reuters – o que poderia explicar a segunda tese. “Israel já tinha tido muitas oportunidades no passado de fazer este tipo de atos contra Haniyeh. A não-justificação por parte de Israel pode ter que ver com o facto de ter sido no Irão e não querer assumir isso oficialmente, mas não deixa de ser estranho fazê-lo nesta fase, quando podia já ter abatido Haniyeh há muito tempo.”

O líder supremo do Irão, o aiatola Ali Khamenei, atribui responsabilidades a Israel e promete responder ao ataque a Teerão (AP)

Todos os lados cautelosos quanto ao alastrar do conflito

O que acaba de acontecer em Teerão, adianta o embaixador António Martins da Cruz, não é uma novidade no contexto do que os dois especialistas destacam como um ataque dos serviços de informação ou de intelligence, por oposição a ataques militares, voltando a comprovar a superioridade hegemónica do Estado hebraico em termos técnicos e tecnológicos com o apoio fulcral e incondicional dos Estados Unidos. 

“Israel, que tem uns dos melhores serviços de informação do mundo, levou a cabo a ação de que se estava à espera, quando houve oportunidade eliminou o chefe do Hamas – aliás, na mesma linha dos EUA quando eliminaram Bin Laden, líder da Al-Qaeda, quando a Arábia Saudita liquidou no consulado em Istambul um escritor que era persona non grata ou quando os serviços secretos russos muito provavelmente liquidaram dois dissidentes em Inglaterra.”

A precisão e sofisticação do ataque em Teerão demonstram uma tática similar à que Israel usou para assassinar um cientista nuclear iraniano em 2020. Operações desta natureza fora de Israel são normalmente conduzidas pela Mossad, os serviços de informação externos, cujo diretor dizia em janeiro que está "obrigado" a caçar todos os líderes do Hamas após os ataques de 7 de outubro. Referindo-se ao atentado terrorista contra atletas israelitas nos Jogos Olímpicos de 1972, David Barnea disse: "Vai levar tempo, como levou após o massacre em Munique, mas as nossas mãos vão apanhá-los onde quer que estejam."

Com o Hamas e o aiatola do Irão a atribuírem o ataque em Teerão a Israel, prometendo vingança, estamos diante de um incontornável alastrar da guerra a todo o Médio Oriente? “Penso que não”, diz o embaixador português, “por uma razão: é que todos os lados, a começar por Israel, têm muito cuidado com uma extensão do conflito, aliás, aquilo a que temos assistido é a ataques a alvos muito localizados, quer de um lado, quer de outro, tal como já tinha acontecido há alguns meses quando o Irão atacou Israel.”

Silva Carvalho refere o mesmo ataque de maio, quando ao lançamento de mísseis iranianos “Israel respondeu com apenas um ataque de um drone específico a uma instalação muito específica”. E nesse contexto, reforça o ex-chefe do SIED, os ataques a Beirute e a Teerão não podem ser dissociados. “O ataque ao Irão deve ser visto à luz da frente de conflito com o Líbano. Coloca o Hamas mais contra as cordas em termos militares – apesar de atuações de pequena guerrilha na Faixa de Gaza, o Hamas como máquina militar está morta, está acabada, e o que faltava era dar um golpe fatal em termos políticos. Se o responsável for Israel, o ataque [em Teerão] envia essa mensagem ao Hamas, e ao mesmo tempo põe o Irão em sentido novamente e mete os líderes do Hezbollah num saco.”

Vários analistas enquadram o assassínio de Haniyeh como uma tentativa do governo de Benjamin Netanyahu de arrastar os Estados Unidos para uma guerra com o Irão. Assim que foi confirmada a morte do líder político do Hamas, a diretora-executiva do Democracy for the Arab World Now (DAWN) escreveu na rede social X que “o mais importante a reter” dos ataques das últimas 24 horas é que “Israel quer desesperadamente entrar em guerra com o Irão, quer ainda mais desesperadamente arrastar os EUA para uma guerra com o Irão e está triplamente ainda mais desesperado para que os EUA a financiem” – uma ideia ecoada por outros comentadores e analistas nas últimas horas.

Mas quer Silva Carvalho, quer Martins da Cruz discordam desta leitura. “Os EUA, se quisessem matar Haniyeh, também o teriam matado antes e, se fosse essa a vontade, Netanyahu teria assumido o ataque para, aí sim, provocar o Irão com um dedo no olho”, defende o ex-diretor da secreta – “não reclamando, não me parece que seja isto que vai fazer os Estados Unidos agir.”

“O que Israel precisa dos EUA”, acrescenta o ex-embaixador português, “é de apoio político, de apoio logístico para o fornecimento de equipamento militar e de apoio de inteligência dos EUA, porque os israelitas são muito bons nisso, mas obviamente os EUA têm a melhor máquina do mundo. Agora não estou a ver nenhuma administração americana, sobretudo em plena campanha eleitoral, a tomar uma decisão de confronto com o Irão. Isso levaria rapidamente a um envolvimento de outras superpotências, nomeadamente a Rússia e a China, e não falo no plano militar, mas no plano político e de apoio diplomático, o que conduziria a maiores dificuldades no Médio Oriente”.

Netanyahu é acusado por alguns de querer arrastar os EUA para uma guerra com o Irão, mas Silva Carvalho e Martins da Cruz discordam (Ronen Zvulun/EPA)

Morte de Haniyeh "facilita uma via mais moderada"?

O que pode então vir a acontecer em resposta a estes ataques? Para o embaixador, é improvável que o conflito se alastre, ainda que admita que isso “pode acontecer”, até porque “o Irão vai seguramente responder, diretamente ou por interposto de um dos seus grupos, como o Hezbollah". Acima de tudo, refere Martins da Cruz, "o que está a suceder só reforça a minha convicção de que, nas atuais circunstâncias, o problema do Médio Oriente não tem solução negocial”.

Na prática, isso significa que “vamos continuar a ver este tipo de ações por meses e meses, até por anos e anos, a não ser que as circunstâncias se alterem – porque nas atuais, para haver solução, só há um país que pode ter a chave disto tudo, e esse país chama-se Arábia Saudita.” Face às mortes de Shukr e Haniyeh, de Riade apenas silêncio até agora – “qualquer um de nós, em situação de conflito, hesitaria duas vezes”, responde sobre a postura dos sauditas.

Para Jorge Silva Carvalho, após esta “demonstração simultânea de precisão e de conhecimento tecnológico” de Israel, “o próximo passo da guerra será tentar pôr o Hezbollah em sentido e tentar que isto pare por aqui” – até porque, como destaca Martins da Cruz, não foi assim há tanto tempo que Israel invadiu o Líbano e teve controlada toda a parte do sul do país onde hoje estão as forças de manutenção de paz das Nações Unidas, a chamada Linha Azul, e “se for preciso Israel torna a invadir”.

A parte fundamental no imediato, refere o ex-líder do SIED, é perceber que papel estava Haniyeh a desempenhar nas negociações de um cessar-fogo para Gaza, mediadas pelos EUA, o Catar e o Egito há meses sem se alcançar qualquer acordo de trégua. “Haniyeh foi alguém que arrastou os pés? Se sim, e sabendo que sempre foi hostil à Fatah e a outras lideranças palestinianas, desse ponto de vista a sua morte até pode facilitar uma via mais moderada”, defende. “Se, por outro lado, procurava o cessar-fogo, esse entendimento, então estão abertas todas as possibilidades, pode vir uma pessoa mais radical, um militar, ou alguém mais moderado. Se tivesse de apostar, a mim parece-me que a morte de Haniyeh vai facilitar um entendimento entre as fações e o surgimento de alguém mais moderado após a morte do Hamas na Faixa de Gaza – mas pode não ser assim.”

Martins da Cruz tem uma visão muito mais pessimista sobre o futuro do enclave palestiniano, onde a ofensiva lançada por Israel em resposta aos ataques do Hamas a 7 de outubro já se saldou em quase 40 mil mortos. No rescaldo da morte de Haniyeh, a correspondente do britânico Independente Bel Trew ressaltou que “estes ataques extinguem qualquer esperança de um cessar-fogo em Gaza e empurram toda a região para o abismo”. Mas para o ex-embaixador, o negrume esteve sempre lá – e é improvável que isso mude em breve. 

“É preciso partir do princípio que essas negociações podem levar a alguma conclusão, o que não aconteceu até agora”, destaca o diplomata. “Israel tem de estar na mesa de negociações, porque é isso que EUA e UE querem, mas daí até essas negociações terem alguma conclusão é um passo que até agora não foi dado. E se quer a minha opinião, duvido que alguma vez seja dado.”

 

*na quinta-feira, o NYT revelou, com base em oito fontes distintas, que o que causou a morte de Haniyeh foi a explosão de um engenho plantado "há vários meses" no local onde estava instalado em Teerão, fortemente vigiado pela Guarda Islâmica

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