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Trocas de armas, encontros de topo e confidências levantam a dúvida. Houve mão da Rússia no ataque do Irão a Israel?

2 out 2024, 22:04
O primeiro-ministro russo, Mikhail Mishustin, com o presidente iraniano Masoud Pezeshkian

Relação entre a Rússia e o Irão está cada vez mais próxima e há timings e negociações que indicam um envolvimento, mesmo que indireto, de ambos nos dois grandes conflitos do momento

O encontro em Teerão do primeiro-ministro russo, Mikhail Mishustin, com o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, apenas um dia antes de o Irão disparar 180 mísseis contra Israel levantou suspeitas sobre um possível envolvimento de Moscovo no ataque desta terça-feira. Há relatos não confirmados de que Teerão confidenciou a Moscovo sobre a investida aérea contra Israel - que aconteceu quando Mishustin já não se encontrava em território iraniano - e sabe-se que o Irão está a negociar para enviar mísseis russos avançados aos Houthis do Iémen, que têm atacado Israel desde que começou o conflito no Médio Oriente, há quase um ano.

Mas tem a Rússia interesse em envolver-se neste conflito, sobretudo se for diretamente contra Israel? Nem por isso, como não tem interesse em que o próprio Irão se envolva. E, por isso, dizem-nos os especialistas, é pouco provável - mas não impossível - que Moscovo tenha dado um 'empurrãozinho' para a ofensiva de ontem, pelo menos de forma direta.

A aliança Rússia-Irão no que toca às armas é um dos principais elos de ligação entre os dois países. Há soldados russos que estão no Irão a receber treino para usar os mísseis balísticos táticos iranianos Fath-360, segundo o The Wall Street Journal, e a própria Rússia vê no Irão um ‘comprador’, sobretudo dos caças Su-35 e dos sistemas de defesa aérea S-400. No dia do ataque a Israel, segundo o Instituto para o Estudo da Guerra, o ministro de Assuntos Económicos e Finanças do Irão, Abdol Nasser Hemmati, esteve reunido com o seu homólogo russo Maxim Reshetnikov em Teerão, com o representante de Moscovo a expressar as intenções da Rússia de promover este mesmo comércio iraniano-russo. No entanto, esta aliança parece ser, na verdade, um motivo para que a Rússia não tenha interesse em que o Irão se envolva totalmente num conflito alargado no Médio Oriente, diz à CNN Portugal Tiago André Lopes.

Para o professor de Relações Internacionais e investigador de Estudos Asiáticos, Diplomacia e Transitologia, Moscovo “não tem interesse” que o Irão mergulhe numa guerra, considerando que tal pode até ser “arriscado” para a capacidade de ataque da Rússia. E o motivo é simples: “a Rússia está a receber equipamento do Irão”, equipamento esse que o próprio Irão irá precisar “se começar agora um confronto direto com Israel”, apressa-se a dizer. E isso, vinca, “não interessa a Rússia”.

Francisco Pereira Coutinho, especialista em Direito Internacional, também defende que a Rússia não tem interesse em estar direta envolvida no conflito no Médio Oriente, muito menos num ataque em larga escala a Israel, que continua a ter os Estados Unidos como aliados (e inimigos da Rússia), embora haja “uma grande aproximação neste momento entre Teerão e Moscovo” e ambos estarem “prestes a assinar um acordo bilateral que tem uma parte, provavelmente não declarada, de cooperação militar, mas não passará por decisão operacional de ataque a terceiro”, algo que dificilmente terá acontecido esta semana, já que tal acordo nem sequer está assinado.

A Rússia não veio condenar publicamente o ataque iraniano em solo israelita (fá-lo com frequência quando é Israel a atacar, seja a Faixa de Gaza ou o Líbano) e optou por pedir contenção de todas as partes, como disse esta quarta-feira o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov. Para Francisco Pereira Coutinho, esta “retórica bastante cínica” de Moscovo, que tem vindo “a apelar à paz no Médio Oriente, acusando os EUA de instigar o conflito” - algo que a porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Maria Zakharova, fez esta quarta-feira -, como se “a própria Federação Russa não estivesse envolvida numa agressão” contra a Ucrânia, pode dificultar a interpretação de um possível envolvimento.

No entanto, embora considere as posições russas “muito patéticas”, o especialista crê que o timing da visita do governante russo ao Irão foi uma mera coincidência. “Não acho que a visita do primeiro-ministro russo tenha tido alguma relação com a decisão iraniana para atacar Israel”. Ainda assim, nota que “o simples facto de [os iranianos] terem notificado [os russos] é significativo”.

Para Tiago André Lopes, uma vez que nem os Estados Unidos, nem Israel vieram publicamente apontar o dedo a terceiros é também um indício que leva a crer que Moscovo pode até ter sido informado, mas que não terá incentivado ou facilitado o ataque. “E quando os Estados Unidos têm alguma acusação rapidamente o fazem”, vinca o também comentador da CNN Portugal, que defende que “falta informação” sobre os moldes em que este ataque aconteceu, sendo por isso, difícil perceber se houve ou não um envolvimento direto da Rússia.

Do encontro desta semana entre Mikhail Mishustin e Masoud Pezeshkian, pouca informação veio a público. Sabe-se que teve como objetivo aumentar a cooperação entre os dois países, que não só partilham uma visão anti-Ocidente - e até desafiam em conjunto os Estados Unidos, como noticia o Wall Street Journal -, mas também cujos laços se têm vindo a reforçar nos últimos anos, sobretudo desde 2022, uma vez que o Teerão tem sido um aliado de ‘peso’ de Moscovo, fornecendo drones e mísseis. Os dois países pretendem melhorar o comércio e a cooperação económica, particularmente no que respeita a transporte, energia, indústria e agricultura. Na semana passada, o presidente russo, Vladimir Putin, deu aval à assinatura de um acordo de parceria estratégica abrangente com o Irão.

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