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Não é só uma preocupação nuclear: Israel está a tentar "forçar uma mudança de regime" no Irão

CNN Portugal , BCE
13 jun 2025, 22:00
Cartaz com o aiatola Ali Khamenei exibido por uma mulher na rua (Vahid Salemi/AP)
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A dimensão da Operação Rising Lion levanta dúvidas quanto ao verdadeiro objetivo de Israel. De acordo com os serviços secretos dos EUA, há muito que o governo israelita tem como objetivo forçar uma mudança de regime no Irão. A explicação? “A monarquia anterior era aliada do Ocidente”

"Estou convosco, o povo israelita está convosco". Estas foram as palavras do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, após a retaliação do Irão. Um mote quase perfeito para o que muitos analistas acreditam ser um dos principais objetivos de fundo do Estado hebraico. O ataque israelita da última madrugada contra alvos iranianos e a continuação de várias operações militares ao longo desta sexta-feira pode ter como objetivo último tentar forçar uma mudança de regime no Irão, de acordo com funcionários norte-americanos e alguns analistas. Tiago André Lopes, especialista em relações internacionais, admite à CNN que a ideia pode ser mesmo ajudar a restaurar a monarquia Pahlavi, que foi derrubada em 1979.

Os Estados Unidos e Israel "nunca esperaram que este regime se tornasse depois num pesadelo diplomático e agora a ideia é um bocadinho ao contrário”, explica Tiago André Lopes, acrescentando que, recentemente, “nos últimos dois, três anos”, a família monárquica Pahlavi, sediada nos EUA, está “a aparecer em mais entrevistas”, dando a entender que “estão a tentar forçar uma mudança de regime, quer do ponto de vista constitucional, quer do ponto de vista político”.

O especialista refere-se ais tempos do xá da Pérsia, Mohammad Reza Pahlavi, que foi deposto em 1979, numa revolução islâmica que deu origem ao atual regime, dos aiatolas, que fundou uma república islâmica e extremou posições em relação a Israel e aos Estados Unidos, sendo que o regime anterior era e continua a ser um conhecido aliado norte-americano.

Reza Pahlavi, filho mais velho do último Xá do Irão (GettyImages)

Num discurso transmitido pelas televisões, minutos após o ataque, o primeiro-ministro israelita adiantou que estava em curso a Operação Rising Lion, que atingiu o coração do complexo nuclear iraniano, “atingindo o líder do programa de armamento nuclear do Irão”, cientistas nucleares iranianos e a central nuclear iraniana de Natanz, onde está montado um importante complexo de enriquecimento de urânio, essencial à produção de armamento nuclear.

Esta sexta-feira, o exército israelita sugeriu que o Irão estava a trabalhar "num plano secreto" para desenvolver "todos os componentes" de uma arma nuclear. "O regime iraniano está a seguir um plano secreto de avanço tecnológico em todos os aspetos do desenvolvimento de uma arma nuclear", referem as Forças da Defesa de Israel (IDF), em comunicado.

Nos últimos meses, segundo o exército, este programa acelerou significativamente. "Esta é uma prova clara de que o regime iraniano está a operar para obter uma arma nuclear. O Estado de Israel não tem outra escolha", acrescenta-se no comunicado que justifica os ataques.

Mas a dimensão da Operação Rising Lion levanta dúvidas quanto ao verdadeiro objetivo de Israel. De acordo com os serviços secretos dos EUA, há muito que o governo israelita tem como objetivo forçar uma mudança de regime no Irão. A explicação? “A monarquia anterior era aliada do Ocidente”, começa por dizer Tiago André Lopes, referindo-se à dinastia Pahlavi, que, diz, “era uma aliada quer dos Estados Unidos, quer do Reino Unido, e também era um apoiante - não era fervoroso, mas era um apoiante - de Israel.”

“A monarquia Pahlavi é, à partida, a forma mais fácil de alterar o sistema político iraniano, porque ainda tem algum ascendente, ainda há muita gente que tem alguma saudade do regime anterior”, afirma o especialista em relações internacionais, acrescentando que, apesar de ser “um pouco violento”, o regime da monarquia Pahlavi “era muito cosmopolita”.

“Para nós termos noção, o Irão nos anos 50 permitia coisas que Portugal não permitia. Em Teerão, as mulheres podiam andar de minissaia, podiam fumar, havia acesso à Coca-Cola, nós não tínhamos isso em Portugal”, compara, num paralelo com a ditadura de Salazar. 

Neste contexto, assume Tiago André Lopes, “os EUA obviamente permitiram uma espécie de campanha de relações públicas para empoderar a família Pahlavi”.

O presidente norte-americano confirmou esta sexta-feira ao Wall Street Journal que os EUA estavam a par dos planos de Israel para atacar o Irão. Donald Trump descreveu a operação israelita como "um ataque muito bem sucedido, para dizer o mínimo".

Interrogado sobre que tipo de aviso os EUA receberam antes do ataque, Trump respondeu: "Aviso? Não foi um aviso. Foi ... nós sabemos o que se está a passar".

Antes, Trump já tinha afirmado à CNN que “é claro” que os EUA apoiam Israel e fez mesmo uma ameaça ao Irão: “O Irão devia ter-me ouvido quando eu disse - sabem que lhes dei, não sei se sabem, mas dei-lhes um aviso de 60 dias e hoje é o 61.º dia. Deveriam agora sentar-se à mesa para chegar a um acordo, antes que seja demasiado tarde.”

“A ideia é que, voltando atrás, voltaremos a um momento de normalidade”, explica Tiago André Lopes. “O problema é que nós não sabemos se a mudança do regime corre de forma favorável. O regime pode sempre radicalizar-se, pode ficar igual, pode haver uma tentativa de alteração do regime que seja malograda e que seja falhada, pode não haver vontade do ponto de vista social para essa alteração, não há certezas que haja essa vontade”, acrescenta, lembrando que a consolidação do atual regime foi aprovada por uma larga maioria (mais de 98%) num referendo nacional.

Já para a Arábia Saudita, “a questão é irrelevante”, afirma Tiago André Lopes, sublinhando que “o diferendo entre a Arábia Saudita e o Irão não é político, é religioso”, tanto que a Arábia Saudita condenou esta manhã o ataque israelita contra alvos do Irão.

“O Irão e a Arábia Saudita têm-se reaproximado desde há dois anos para cá, com o esforço chinês. É óbvio que, protocolarmente, é mais fácil duas casas reais entenderem-se do que uma casa real e uma casa civil”, afirma, argumentando que, “se houver uma monarquia iraniana, teoricamente o entendimento seria mais simples” entre os dois países. “Mas não muda a dinâmica de conflitualidade. Continuam a ser dois Estados que têm visões diferentes do ponto de vista religioso”, conclui.

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