Em causa está a chamada "cidade humanitária" em Gaza
Antigo primeiro-ministro israelita afirma que a planeada "cidade humanitária" em Gaza seria um "campo de concentração"
por Eugenia Yosef e Oren Liebermann, CNN
A planeada “cidade humanitária” dentro de Gaza, destinada a albergar centenas de milhares de palestinianos, seria um “campo de concentração”, alertou o antigo primeiro-ministro israelita Ehud Olmert.
O ministro da Defesa, Israel Katz, revelou na semana passada que tinha dito aos militares para avançarem com os planos para a zona, que acabaria por conter toda a população de Gaza. A área seria construída sobre as ruínas da cidade de Rafah, no sul de Gaza, e, a partir do momento em que os palestinianos entrassem na zona, não seriam autorizados a sair. Katz também prometeu implementar um plano para a emigração dos palestinianos de Gaza.
"É um campo de concentração. Lamento", disse Olmert ao jornal The Guardian, este domingo. “Se eles (palestinianos) forem deportados para a nova ‘cidade humanitária’, então pode dizer-se que isto faz parte de uma limpeza étnica.”
Em resposta aos comentários de Olmert, o gabinete do primeiro-ministro chamou-lhe “criminoso condenado que desonra Israel na CNN”. Num comunicado, o gabinete disse: "Nós retiramos os civis. O Hamas bloqueia-os. Ele chama a isso um crime de guerra?". Olmert foi libertado da prisão em 2017 depois de cumprir 16 meses por corrupção.
Olmert já criticou anteriormente a conduta dos militares israelitas em Gaza e a liderança política do país. Em maio, disse que já não podia defender Israel contra acusações de crimes de guerra. “O que é isto se não um crime de guerra?”, perguntou retoricamente numa entrevista à CNN Internacional. Afirmou que o primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, e os membros de extrema-direita do seu governo estão “a cometer ações que não podem ser interpretadas de outra forma”.
Mais de 58 mil pessoas foram mortas em Gaza desde o início da guerra, de acordo com o Ministério da Saúde palestiniano.
No entanto, os últimos comentários de Olmert, que foi primeiro-ministro de Israel de 2006 a 2009, vão muito mais longe na crítica às intenções do país em Gaza, especialmente porque as comparações com os campos de concentração nazis em Israel são consideradas praticamente impensáveis. Mas Olmert disse que essa era a “interpretação inevitável” dos planos.
"Quando constroem um campo onde (planeiam) ‘limpar’ mais de metade da Faixa de Gaza, então a compreensão inevitável da estratégia (é que) não é para salvar (os palestinianos). É para os deportar, para os empurrar e para os deitar fora", disse Olmert ao Guardian.
Os planos de Katz para o que apelidou “cidade humanitária” foram discutidos numa reunião com Netanyahu no domingo à noite, de acordo com uma fonte familiarizada com o assunto. Mas depois de a imprensa israelita ter noticiado que a construção da zona levaria meses e milhares de milhões de dólares, a fonte disse que Netanyahu pediu para tornar a sua criação mais curta e menos dispendiosa.
Yair Lapid, chefe da oposição israelita, criticou os planos como uma tentativa de Netanyahu de deixar os seus parceiros de governo de extrema-direita “correrem à solta com fantasias extremas apenas para preservar a sua coligação”. Numa declaração nas redes sociais, Lapid apelou a “acabar com a guerra e trazer de volta os reféns”.
Michael Sfard, um advogado israelita dos direitos humanos, disse à CNN Internacional na semana passada que o plano de Katz equivale à transferência forçada de uma população em preparação para a deportação. Ambos são crimes de guerra, disse Sfard.
“Se forem efetuados em grande escala - comunidades inteiras - podem constituir crimes contra a humanidade”, acrescentou Sfard, rejeitando a ideia de que qualquer saída de Gaza possa ser considerada voluntária.
