"O mundo não está a impedir-nos", diz o governo de Israel sobre as ações em Gaza. "Que linguagem abominável"

22 mai 2025, 07:01
Gaza
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Reino Unido suspende acordo de comércio, UE vai rever o seu, França pode reconhecer o Estado da Palestina em junho. Enquanto isso, e enquanto Israel avança novamente com tanques Faixa de Gaza adentro, entra no enclave uma "gota no oceano" de ajuda humanitária ao final de 11 semanas de bloqueio total. Só nesse período morreram à fome pelo menos 57 bebés e crianças palestinianos

Para o governo neerlandês, trata-se de “um importante sinal europeu”, uma espécie de recado ao governo israelita de Benjamin Netanyahu. Como explicou o ministro dos Negócios Estrangeiros dos Países Baixos, Caspar Veldkamp, no início da semana: “Tomámos a iniciativa porque temos graves preocupações com Gaza. Estamos gratos que suficientes Estados-membros apoiem este passo e que a alta representante, Kaja Kallas, tenha decidido iniciar a revisão do artigo 2”.

O passo é a revisão do Acordo de Associação que Israel e a União Europeia (UE) ratificaram em 2000, em vigor há 25 anos cobrindo uma variedade de tópicos, desde o enquadramento do diálogo político entre o Estado hebraico e o bloco europeu até às trocas bilaterais de bens de todo o tipo.

Como anunciada por Kallas esta semana, a revisão prende-se com as mais recentes ações de Israel na Faixa de Gaza, o território palestiniano sitiado e diariamente sob ataque desde outubro de 2023, salvo algumas semanas no início deste ano, até Telavive ter acabado unilateralmente com a trégua que vigorava desde janeiro.

Findo o cessar-fogo a 2 de março, e numa altura em que mais de 53 mil pessoas já morreram nos bombardeamentos israelitas e mais de 121 mil ficaram feridas, Israel pareceu ceder às pressões da comunidade internacional face ao risco crescente de fome severa no território, e anunciou que ia autorizar esta semana a entrada de “uma quantidade básica” de ajuda humanitária na Faixa de Gaza.

A decisão foi tomada ao final de 11 semanas – quase três meses, quase 80 dias – sem que qualquer saco de comida, garrafa de água, caixa de medicamento ou gota de combustível tenha passado as fronteiras para o território. Só nesse período morreram à fome pelo menos 57 crianças, de acordo com dados do Gabinete das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA).

“O que se está a passar na Palestina, e especialmente na Faixa de Gaza, é um caso dramático e catastrófico e o que a ciência vai poder verificar é que a exposição de privação alimentar vai ter efeitos duradouros na saúde, não só dos que estão agora expostos à fome, como na geração vindoura dos que sobreviverem”, refere à CNN Helena Trigueiro, nutricionista e investigadora, que alerta para os efeitos “também na carga epigenética”, isto é, “nas gerações que virão”, entre as quais “os efeitos vão ser altamente prevalentes”.

Dos cinco camiões que iam ser autorizados a entrar em Gaza no primeiro dia de desbloqueio limitado, na passada segunda-feira, só três transportavam comida, água ou medicamentos – os outros dois continham apenas lençóis brancos para enterrar os mortos. Na terça-feira, as autoridades israelitas disseram que 93 camiões tinham entrado em Gaza nas 24 horas anteriores, com farinha, alimentos para bebés, equipamento médico e medicamentos.

Segundo a ONU, apesar de os camiões estarem já prontos a entrar na faixa pela passagem de Kerem Shalom, ainda nenhuma ajuda tinha sido distribuída até terça-feira. “Só para deixar claro: embora mais suprimentos tenham entrado na Faixa de Gaza, não fomos capazes de assegurar a chegada desses bens aos nossos armazéns e pontos de entrega”, adiantou o porta-voz da ONU, Stéphane Dujarric, a partir da sede da organização, em Nova Iorque.

“A situação em Gaza é catastrófica. A ajuda que Israel permitiu é, claro, bem-vinda, mas é uma gota no oceano. A ajuda deve fluir imediatamente sem obstrução e em escala, porque é isso que é necessário”, disse Kallas no mesmo dia, ao anunciar a revisão do acordo UE-Israel. “Deixei estes pontos claros nas minhas conversas com os israelitas. Também mantive conversações com a ONU e os líderes regionais. É necessária pressão para alterar a situação.”

O passo de Kallas surgiu na sequência de uma carta enviada por Veldkamp ao gabinete da alta representante diplomática na semana passada, alertando para a catastrófica situação na Faixa de Gaza e exigindo uma postura diplomática compatível com essa crise. Tomada a decisão em Bruxelas, o MNE neerlandês falou num “importante sinal europeu de que o governo israelita precisa de acabar totalmente com o bloqueio humanitário” – e sublinhou que, “entretanto, temos de continuar a trabalhar por um cessar-fogo, pela libertação dos reféns, por ajuda humanitária para aqueles que dela necessitam e para pôr fim a esta terrível guerra”.

Crianças palestinianas procuram por comida no meio do lixo, ao final de quase três meses de contínuo bloqueio israelita à entrada de ajuda humanitária na Faixa de Gaza foto Abed Rahim Khatib/Anadolu via Getty Images

"Isto é extremismo. É perigoso. É repelente. É monstruoso"

O fim da guerra parece cada vez mais longínquo. A par da autorização parcial de entrada de ajuda humanitária, Israel fez um outro anúncio no arranque desta semana, logo passando das palavras às ações, quando inaugurou a proclamada “nova fase” da ofensiva contra a Faixa de Gaza, com incursões terrestres pelo norte e pelo sul do pequeno enclave. Esse anúncio surgiu dias depois de Donald Trump, o presidente dos EUA, ter repetido a sua intenção de “libertar Gaza”, perante rumores de que quer "deslocar" pelo menos 1 milhão dos seus 2,1 milhões de habitantes para a Líbia.

Assumida a intenção de Netanyahu de “ocupar toda a Faixa de Gaza”, e com a operação nesse sentido já em curso, as organizações humanitárias e a ONU voltaram a alertar para o facto de haver pelo menos 300 mil pessoas, incluindo 14 mil bebés, em risco de morrer à fome face aos níveis de subnutrição no enclave, sublinhando que são necessários mais de 500 camiões de ajuda humanitária por dia para suprir as necessidades mais básicas do momento (segundo fontes israelitas ao Washington Post, os planos preveem a entrada de um total de 500 camiões em cinco dias, até sexta-feira).

Perante tudo isto, não foi só Bruxelas a enviar “sinais importantes” de que a paciência com o aliado israelita está a esgotar-se. Numa aparente indicação de que o anúncio de Kallas foi coordenado com Londres, o governo britânico anunciou na terça-feira uma pausa imediata no acordo de trocas comerciais com Israel, convocou o embaixador do país e anunciou mais sanções a colonos extremistas da Cisjordânia, perante o que David Lammy, chefe da diplomacia do Reino Unido, classificou como a “monstruosa” escalada militar em Gaza.

O anúncio, no mesmo dia em que o balanço de palestinianos mortos por Israel no enclave ultrapassou os 500 numa semana, coincidiu com os 77 anos do fim do mandato britânico na Palestina. “Isto é extremismo. É perigoso. É repelente. É monstruoso e condeno-o nos termos mais fortes possíveis”, disse Lammy, visivelmente zangado, aos deputados britânicos, sublinhando que a operação em Gaza é “incompatível com os princípios que estão na base da relação bilateral” do Reino Unido com Israel. “Hoje anuncio que suspendemos as relações com este governo israelita sobre um novo acordo de comércio livre.” 

Esta suspensão não abarca, contudo, as exportações de armas para Israel, um tema sobre o qual três ministros vão ser questionados esta semana pela oposição parlamentar, na sequência de notícias sobre como os trabalhistas aprovaram em três meses mais armas para Israel do que os conservadores nos anteriores quatro anos de liderança.

Esse foi um dos temas abordados num debate que ocorreu no Parlamento Europeu ontem, dedicado precisamente à crise humanitária na Faixa de Gaza como consequência das ações de Israel. Entre anúncios, promessas e debates, mantêm-se as dúvidas quanto à real possibilidade de a UE suspender efetivamente o acordo com Israel – para tal é necessária unanimidade entre os Estados-membros, e alguns dos mais firmes apoiantes de Israel, à cabeça a Alemanha, têm estado em silêncio.

Ao anunciar a suspensão das trocas com Israel (mas não da exportação de armas), o ministro britânico dos Negócios Estrangeiros, David Lammy, disse que as ações das autoridades israelitas em Gaza são "incompatíveis com os princípios na base do acordo" entre os dois países (Volodymyr Tarasov/EPA)

"Escalada completamente desproporcionada"

A decisão britânica veio acompanhada de um aviso coordenado com outros dois países, no caso França e Canadá, de que haverá “ações concretas” contra o Estado de Israel se a atual ofensiva contra Gaza não for suspensa. Exigem ainda a entrada de ajuda humanitária sem triagem nem exceções e também que os planos de ocupação total do enclave sejam abandonados.

“Sempre apoiámos o direito de Israel a defender os israelitas do terrorismo, mas esta escalada é completamente desproporcionada”, disseram os líderes dos três governos em comunicado. “A recusa de assistência humanitária essencial à população civil é inaceitável e corre o risco de violar o direito internacional humanitário”, adiantaram, invocando o sofrimento “intolerável” dos habitantes de Gaza.

No mesmo comunicado, Keir Starmer, Emmanuel Macron e Mark Carney também condenaram “a linguagem abominável utilizada recentemente por membros do governo israelita” quando referiram que, “perante o desespero face à destruição de Gaza, os civis começarão a deslocar-se” para outras zonas da faixa e, eventualmente, para outros países – “a deslocação forçada permanente é uma violação do direito internacional humanitário”, lembraram.

Não sendo ainda certo que tipo de “ações concretas” poderão ou irão Reino Unido, França e Canadá tomar, é certo que os três países continuam a defender não apenas um cessar-fogo mas também a implementação da “solução de dois Estados”, que propõe a concretização de um Estado palestiniano independente lado a lado com Israel. Esse foi outro ponto invocado no comunicado – e um que lhes valeu acusações de “premiarem” o Hamas.

“Ao pedir a Israel que acabe com uma guerra defensiva pela nossa sobrevivência antes que os terroristas do Hamas na nossa fronteira sejam destruídos, e ao exigir um Estado palestiniano, os líderes de Londres, Otava e Paris estão a oferecer um enorme prémio pelo ataque genocida de 7 de outubro a Israel, ao mesmo tempo que convidam a mais atrocidades deste tipo”, respondeu Netanyahu ao comunicado dos três governos.

No início da semana, Netanyahu (direita) disse que a entrada de uma "quantidade básica" de ajuda humanitária em Gaza tem de ser feita por forma a que a comunidade internacional "não trave" a sua renovada ofensiva terrestre no enclave; Bezalel Smotrich (esquerda), o seu ministro das Finanças, adiantou que a entrada de ajuda "em quantidade mínima" serve para que o mundo "continue a fornecer proteção internacional" a Israel enquanto "desmantela Gaza" foto AP

"Estamos a desmantelar Gaza"

Quando Macron admitiu há uma semana que França poderá juntar-se a vários países no reconhecimento de um Estado independente da Palestina já em junho (Portugal ainda não faz parte dessa lista), o primeiro-ministro israelita acusou o presidente francês de ser um “apoiante do Hamas”.

Já esta semana, quando o ex-general israelita Yair Colan, do partido democrata, apontou o dedo ao próprio país por “matar bebés como passatempo” em Gaza, Netanyahu acusou-o de antissemitismo.

Em outubro passado, por alturas do primeiro aniversário dos ataques do Hamas a Israel que provocaram 1.200 mortos e 200 reféns, quando António Guterres lembrou que não aconteceram num vácuo, mas na esteira de décadas de ocupação declarada ilegal por quase toda a comunidade internacional, o governo israelita deu o passo sem precedentes de declarar o secretário-geral da ONU persona non grata.

Parecendo tão longínqua quanto o fim da guerra em Gaza, a solução de dois Estados que homens como Macron e Guterres defendem será o tema central de duas conferências que vão ter lugar na sede da ONU no próximo mês, uma delas já entre 4 e 5 de junho, em preparação da outra, entre 17 e 20 do mesmo mês.

Para o presidente de França, é urgente que saiam “resultados tangíveis” desses encontros, como por exemplo o reconhecimento do Estado da Palestina. E sendo pouco provável que os EUA, eterno aliado de Israel, votem a favor disso, é menos certo como é que a administração Trump se vai posicionar face ao governo israelita nos próximos tempos, numa altura em que mais e mais media americanos de renome apontam o crescente desfasamento entre os dois governos e comentadores israelitas - como Yoav Limor - ressaltam a forma como Israel tem sido mantido no papel de mero "observador" no contexto da nova estratégia da administração Trump para o Médio Oriente.

“O presidente [Trump] tem dito repetidamente que gostaria de ver o fim da guerra, a libertação dos reféns e a entrada de alimentos em Gaza. Em público, tem colocado o ónus sobre o Hamas. Mas a nova distância entre a América e Israel faz parte de um padrão que uma nova invasão de Gaza pode amplificar”, escreve a Economist. “Talvez haja um compromisso de última hora. Sem ele, as próximas semanas serão sombrias. Netanyahu diz que só terminará a guerra quando tiver uma ‘vitória total’. A devastação total para Gaza e o isolamento de Israel são mais prováveis.”

Netanyahu também disse sobre a entrada de “uma quantidade básica” de alimentos em Gaza: "Temos de o fazer para que não possam impedir-nos" de "controlar toda a Faixa de Gaza". E sobre o mesmo assunto, o seu ministro das Finanças de extrema-direita, Bezalel Smotrich, acrescentou: “A [ajuda] que vai entrar em Gaza nos próximos dias será na mais mínima quantidade. [...] Vai permitir que o mundo continue a dar-nos proteção internacional. [...] Estamos a desmantelar Gaza e a deixá-la como montes de escombros, com uma destruição total sem precedentes a nível mundial. E o mundo não está a impedir-nos”.


SAIBA MAIS Aviso: este artigo é chocante - há fome em Gaza e tem este aspeto

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