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"Se Israel não for travado, o genocídio vai alastrar-se à Cisjordânia"

27 set 2025, 09:00
Relatório ONG Israel B'Tselem genocídio palestinianos (Maya Alleruzzo/AP)

ENTREVISTA || No final de julho, duas importantes organizações não governamentais israelitas, a B'Tselem e a Médicos de Israel pelos Direitos Humanos, acusaram o próprio país de estar a cometer genocídio. Em mês e meio, a mesma acusação foi feita pela Associação Internacional de Estudiosos de Genocídio (IGAS) e por uma comissão independente mandatada pela ONU. À luz das conclusões, vários países, com França e Reino Unido à cabeça, reconheceram esta semana o Estado da Palestina. Mas isso é só "um primeiro passo" que de nada servirá sem "ações reais e concretas" contra Israel, defende Yair Dvir, porta-voz da B'Tselem, em entrevista à CNN Portugal - caso contrário será "apenas mais uma forma de cumplicidade com o genocídio, que pode acelerar a anexação" dos territórios ocupados

Na esteira destes anúncios, quão exequível é a criação de um Estado da Palestina dadas as mais recentes movimentações em Gaza e na Cisjordânia ocupada? O Estado da Palestina ainda é um objetivo alcançável?
O que é preciso compreender é que o nosso principal objetivo neste momento deve ser travar o genocídio e a limpeza étnica [dos palestinianos] e isso ainda depende muito da comunidade internacional. Se os países consideram que este anúncio oficial é suficiente, então possivelmente a situação só vai piorar. 

É um passo oco?
Israel não vai ligar a este reconhecimento, dado que está a dar continuidade à sua missão de limpeza étnica na Faixa de Gaza e em  muitas partes da Cisjordânia para anexar os territórios. Cabe à comunidade internacional, e além deste reconhecimento, encetar ações reais e concretas para aumentar a pressão sobre Israel – porque se acharem que isto basta, então acabará por ser apenas mais uma forma de cumplicidade com o genocídio, que pode acelerar a anexação [dos territórios palestinianos ocupados].

Que tipos de ações reais?
Bom, porque a B’Tselem está sob o regime israelita, sob o sistema israelita, há algumas coisas que não posso discutir diretamente. Mas toda a gente sabe quais são os meios e as ferramentas disponíveis à luz do Direito Internacional.

Em 2013, integrei uma excursão organizada pela B’Tselem à área designada como E1, onde a planeada construção de mais colonatos ameaçava acabar com a contiguidade entre o norte e o sul da Cisjordânia ocupada. Por causa da pressão internacional, esse plano esteve congelado durante vários anos, até agosto passado, quando o governo de Netanyahu anunciou que vai mesmo avançar com o projeto – o que põe ainda mais em risco a criação de um futuro Estado palestiniano…
Se olharmos para o objetivo final, em todas as áreas em que era suposto que viessem a constituir esse Estado tem havido lentas movimentações para acabar com essa possibilidade. E nos últimos cinco anos a expansão dos colonatos tem estado a acontecer um pouco por toda a Cisjordânia, por forma a garantir que não existirá um real Estado da Palestina em qualquer futuro acordo. A diferença é que agora eles assumem isto oficialmente, quando se calhar durante muitos anos estiveram a tentar escondê-lo.

Portanto, os planos para a E1 são só a continuação dessa política de ocupação?
Sim. Ao continuarem a construção na E1, que separa efetivamente norte e sul, estão também a aumentar o controlo das passagens de palestinianos no território e agora dizem-no claramente - que o objetivo é impedir qualquer possibilidade para a Palestina. E falam com orgulho da anexação da Cisjordânia. Nos últimos dois anos, 41 comunidades foram expulsas pela violência de colonos e, enquanto falamos, há muitas mais comunidades sob a mesma ameaça.

Na imagem, uma parte do muro de separação que Israel foi construindo ao longo de décadas na Cisjordânia ocupada; atrás, a área conhecida como E1, onde planos de expansão dos colonatos - declarados ilegais pela comunidade internacional - estiveram congelados durante anos face à pressão externa. Quando Reino Unido e França deram a entender que iam reconhecer o Estado da Palestina, o governo de Benjamin Netanyahu anunciou que vai mesmo avançar com o projeto, que na prática vai acabar com a contiguidade entre o norte e o sul da Cisjordânia, enterrando ainda mais a possibilidade de um futuro Estado palestiniano. No final de agosto, ao anunciar oficialmente os planos, o ministro extremista Bezalel Smotrich declarou: "O Estado da Palestina está a ser apagado da mesa não com slogans mas com ações” foto Ohad Zwigenberg/AP

A violência perpetrada por colonos tem sido um fenómeno particularmente prevalecente na Cisjordânia ocupada desde outubro de 2023, o que tem motivado sanções internacionais contra alguns dos colonos mais extremistas. O que considera que é importante compreender sobre isto?
Acima de tudo que a violência dos colonos é apoiada pelo próprio exército e que há muitas comunidades sob esta ameaça. Israel está a caminho de aprofundar a limpeza étnica. É preciso lembrar que os colonos são apoiados por um regime genocida, que tem estado a cometer um genocídio ao vivo ao longo de dois anos. É o mesmo regime, o mesmo exército, e já estamos a ver algumas comunidades a desaparecer por causa disso. E é por isso que aqui na B’Tselem dizemos que, se Israel não for travado, o genocídio não só vai continuar como se vai alastrar à Cisjordânia.

A B’Tselem foi a primeira ONG a acusar o Estado de Israel de estar a cometer crimes de genocídio contra os palestinianos nos territórios ocupados – a mesma acusação que figura agora no relatório de uma comissão independente que abriu uma investigação a pedido da ONU. Qual é a importância destes relatórios?
É importante dizer a verdade e dar o nome certo àquilo que Israel está a fazer. Israel continua a tentar vender estas ideias de autodefesa, de uma guerra em curso, de preocupação com os reféns, mas é tudo propaganda. Israel tem um objetivo muito específico que é expulsar todos os 2 milhões de palestinianos da Faixa de Gaza. Falam disso com orgulho, até em termos do dinheiro e dos terrenos que vão conquistar com a ajuda dos EUA. Isto é dito de forma muito clara e declarada. É claro que é importante dizer a verdade sobre o que está a acontecer, mas isso é só um primeiro passo. Acima de tudo, o que estes relatórios indicam é que o mundo inteiro não pode continuar a apoiar isto e que a comunidade internacional tem de passar à ação.

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