Primeiro-ministro israelita desvaloriza as críticas - da opinião pública, das Forças Armadas, da Mossad, e da comunidade internacional, inclusive da Liga Árabe - e garante que vai em frente com os planos para ocupar todo o território da Faixa de Gaza
Benjamin Netanyahu está determinado a avançar com a operação militar para ocupar todo o território da Faixa de Gaza, mesmo estando praticamente isolado nesse objetivo. O primeiro-ministro israelita parece estar mesmo disposto a “tomar uma decisão difícil”, que pode custar a vida dos reféns que continuam nas mãos do Hamas, para seguir com o plano de “esmagar” o grupo extremista, sugere Helena Ferro Gouveia.
“Mas às vezes os líderes políticos têm de tomar decisões difíceis e esta poderá ser uma decisão difícil que nós, a posteriori, podemos vir a dizer que foi a decisão certa”, assume a comentadora da CNN Portugal.
Este domingo, em conferência de imprensa, Benjamin Netanyahu adiantou que “deu instruções às IDF [Forças da Defesa de Israel] para desmantelar os dois refúgios do Hamas que ainda restam na Cidade de Gaza e numa faixa de território no centro de Gaza, que abrange vários campos de refugiados.
"Esta é a melhor forma de acabar com a guerra e a melhor forma de acabar com ela rapidamente", sublinhou Netanyahu, que está cada vez mais isolado neste ensejo - a comunidade internacional juntou-se às críticas internas que emergiram da opinião pública -, mesmo entre apoiantes do primeiro-ministro israelita - e até das próprias Forças da Defesa de Israel (IDF), depois de o chefe do Estado-Maior ter discordado dos planos de Netanyahu, o que gerou desconforto entre o governo e as forças armadas.
No entender de Helena Ferro Gouveia, “Israel parece estar obrigado” a avançar com esta operação para “esmagar o Hamas”, já que “não há nem nunca houve propostas concretas” para resolver o conflito.
“Apesar de toda a gente criticar Israel, do mundo ocidental ao mundo árabe, a verdade é que não há nem nunca houve propostas concretas. O próprio secretário-geral da ONU, que é sempre muito vocal para criticar Israel, visitou Israel uma vez em 2017 e nunca se interessou pelo conflito no Médio Oriente, ao contrário por exemplo de Kofi Annan [antigo secretário-geral da ONU], que teve uma presença regular na região e que procurou contribuir com soluções”, diz a comentadora da CNN Portugal. Mesmo os Países do Golfo não estavam interessados na resolução do conflito “porque estavam a fazer os seus negócios com os EUA”, acrescenta Helena Ferro Gouveia.
Ou seja, “há muitas críticas mas no fundo ninguém sabe o que há de fazer em relação à questão palestiniana”.
Hamas chega ao Egito para retomar "o processo de negociação de paz"
A última fase do plano de Netanyahu prevê uma administração civil da Faixa de Gaza, eventualmente gerida por um país árabe, tal como é sugerido pelo próprio primeiro-ministro. Até ao momento, a CNN Portugal sabe que ainda nenhum país árabe se disponibilizou para exercer as funções de governo na Faixa de Gaza.
O Hamas garante que qualquer país que venha a liderar a administração da Faixa de Gaza vai ser considerado uma força de ocupação.
Os planos de Netanyahu podem ter espoletado a retoma das negociações entre Israel e o Hamas. De acordo com a imprensa catari, uma delegação do grupo extremista vai chegar esta segunda-feira ao Cairo, depois de ser pressionada pelo Egito e pelo Catar, os dois países moderadores das negociações entre as duas partes.
Jorge Botelho Moniz concorda que “é realmente muito difícil” chegar a um acordo entre as partes quando ambas “querem aniquilar-se uma à outra” e quando os “países árabes moderados” que podem atuar como mediadores “não estão extraordinariamente preocupados com a causa palestiniana”. Antes, diz, “querem fazer uma oposição à causa israelita” por receio dos planos expansionistas de Netanyahu.
“Colocar Gaza como uma cidade humanitária permanente não vai funcionar”, afirma o comentador da CNN Portugal. “É bom que haja alguma capacidade de, com os Estados árabes - aqueles que pelo menos fingem que querem saber da causa palestiniana - chegar a um acordo e manter pelo menos algum tipo de sanidade na região.”