opinião
Jornalista nascido em Madrid de mãe portuguesa. Comentador da CNN Portugal e correspondente do canal espanhol La Sexta.

Sánchez e Thunberg têm razão, mas não vão a lado nenhum (como os ciclistas da Volta a Espanha)

15 set 2025, 19:51

A flotilha de Greta Thunberg e as medidas de Pedro Sánchez contra Israel são atos de resistência e protesto contra o horror, gestos simbólicos que dão voz a milhões de pessoas que não acreditam na narrativa defendida por Benjamim Netanyahu. Não é legítima defesa, é genocídio

Pedro Sánchez tem razão quando fala em "genocídio" na Palestina e quando implementa sanções contra Israel — não contra o povo israelita: o que o Governo espanhol aprovou na semana passada foram nove medidas para tentar restringir a chegada de armas (e combustível) ao Estado Judeu que possam ser usadas para atacar Gaza e a Cisjordânia, e ainda o reforço do apoio à Autoridade Palestiniana e da ajuda humanitária. Também tem razão quando diz que a Espanha é um "exemplo" para a comunidade internacional por ter dado um passo em frente na defesa de uma "causa justa, como são os direitos humanos".

Contudo, Pedro Sánchez não tem razão quando põe em causa a integridade física dos ciclistas que não puderam terminar a Volta a Espanha, e que na última semana da prova sofreram quedas, alterações de percurso, suspensões e distúrbios que prejudicaram o rendimento desportivo e cancelaram o pódio, onde o português João Almeida teria subido ao segundo lugar. E não tem razão, porque mostrar "admiração" pelos manifestantes pró-Palestina, quando a 'Vuelta' nem sequer tinha terminado, complica o trabalho das forças de segurança, que já não tinham mãos a medir para conter os milhares de pessoas que tentaram, e muitas vezes conseguiram, boicotar a prova.

A maioria dos sindicatos policiais e as associações da Guardia Civil condenaram o apoio de Sánchez aos protestos. A União Federal da Polícia (UFP) exigiu a demissão do delegado do Governo em Madrid porque "tem de haver um responsável pelos 22 polícias feridos" e sublinhou que "o apoio político" aos protestos deu uma sensação de "impunidade". "Não se pode pedir paz com violência, nem denunciar um genocídio com caos e anarquia", argumentou a UFP no X.

Isabel Díaz Ayuso, presidente da comunidade autónoma onde a' Vuelta 2025' tinha previsto concluir (como quase todos os anos), tem razão quando diz que há "muitos sítios" para protestar e que não era preciso "coagir os desportistas", mas não tem razão quando ataca Sánchez sem criticar Israel, que nos últimos dias acusou a Espanha de "antissemitismo manifesto" e de lançar "ameaças genocidas". Palavra de Benjamim Netanyahu, o máximo responsável pelo genocídio em Gaza.

Convém lembrar que o termo "genocídio" serve para designar a "destruição sistemática e metódica de um grupo (étnico, nacional, religioso, etc.) pelo extermínio dos seus indivíduos". Ou então para um "crime que consiste na eliminação de todas as formas de expressão (cultural, linguística, religiosa, etc.) da identidade coletiva de um povo". Qualquer uma destas definições serve para descrever o que está a acontecer em Gaza na sequência dos demenciais ataques terroristas do Hamas a Israel de 7 de outubro de 2023: mais de 1100 mortos, 3400 feridos e 250 reféns.

A resposta do Estado Judeu foi a destruição de Gaza: mais de 60 mil mortos, muitos deles crianças, alguns deles à fome; outros morrem diariamente, desde há quase dois anos, em tiroteios, bombardeamentos e outras ações que revelam que o objetivo não é o Hamas, ou não só; o objetivo é a eliminação sistemática e metódica de um grupo étnico (os árabes palestinianos), nacional (os habitantes de Gaza e da Cisjordânia) e religioso (muçulmanos).

Sánchez tem razão quando denuncia também os 159.000 feridos, 250.000 pessoas em risco de desnutrição aguda e quase dois milhões de pessoas deslocadas das suas casas em Gaza, mas não quando "atiça o fogo" contra a Volta a Espanha, como denuncia Ayuso. O problema é que Ayuso, como todos os que ignoram ou até justificam o massacre, a limpeza étnica ou os crimes contra a humanidade em Gaza (e preferem evitar a palavra "genocídio", como se o problema fosse a palavra e não o que está a acontecer desde há mais de 23 meses), parecem mais preocupados com os incidentes numa prova ciclista, por mais reprováveis que sejam, do que com a vida de dezenas de milhares de inocentes.

"Estou aterrorizada ao ver que as pessoas seguem com a sua vida normal apesar de verem o genocídio de Israel em Gaza em direto, nos seus telemóveis, e fingem que não se passa nada", declarou Greta Thunberg no final de agosto, horas antes de partir, pela segunda vez em três meses, num barco com ajuda humanitária para Gaza. No início de junho, esteve acompanhada por apenas onze pessoas, mas desta vez a missão humanitária é uma flotilha com centenas de ativistas de mais de 40 países.

Na semana passada, já na Tunísia, a ativista sueca da Flotilha Global Sumud sugeriu que as escolas "devem alertar para os primeiros sinais de genocídio, como o Holocausto, e aplicá-los ao que estamos a ver atualmente para garantir que não volta a acontecer". "Os sistemas educativos atuais falharam completamente porque não nos ensinaram a compreender os tempos históricos em que vivemos", acrescentou Thunberg.

Ensinar o Holocausto no ensino secundário é uma exigência legal em Inglaterra. As escolas celebram também o Dia da Memória do Holocausto a 27 de janeiro, em memória dos milhões de pessoas assassinadas pelos nazis durante a Segunda Guerra Mundial, e em genocídios posteriores no Camboja, Ruanda, Bósnia ou Darfur, para citar só alguns (se incluirmos os anteriores, a lista perde-se na noite dos tempos).

Há quem ache que não faz sentido acusar Israel, principal vítima da 'Shoah' — o mais conhecido genocídio do século XX, e provavelmente da História —, de perpetrar aquilo que sofreu. E de facto não faz, ou não deveria fazer qualquer sentido, que seja Israel o autor do mais desumano extermínio em curso — precisamente o Estado do "povo eleito", que é simultaneamente um dos mais perseguidos, ou mesmo o que mais perseguições e massacres conheceu ao longo dos tempos: desde o cativeiro na Babilónia e a escravidão no Egito, aos pogroms na Rússia dos czares, passando pela Inquisição — como fez questão de sublinhar Israel no comunicado contra Sánchez da semana passada.

Mas os massacres continuam, e na ONU são já 142 os países que aprovam a solução de dois Estados, contra apenas dez que continuam a rejeitá-la, entre eles Israel, Estados Unidos, Argentina e Hungria, todos eles com governos de extrema-direita. Também na semana passada, o Parlamento europeu votou a favor da suspensão parcial do Acordo de Associação com Israel e aprovou sanções contra ministros extremistas. O texto inclui uma referência a um inquérito por "genocídio" no Tribunal Internacional de Justiça, mas não utiliza o termo diretamente.

O "Plano da ONU para a partilha da Palestina" de 1947 consistia na partição da banda ocidental do território em dois Estados – um judeu e outro árabe, ficando as áreas de Jerusalém e Belém sob controlo internacional. Foi, em parte, uma tentativa de reparação de uma das maiores injustiças do século XX — a morte de mais de 6 milhões de judeus na Segunda Guerra Mundial, a maioria deles nos campos de extermínio criados pela Alemanha nazi — e agora está na origem da maior injustiça do século XXI. A independência de Israel, proclamada em 1948, culmina agora com a ocupação de Gaza, a colonização da Cisjordânia e a fase final da 'Nakba' iniciada em 1947: a limpeza étnica, as expulsões violentas, as expropriações e a fragmentação da sociedade palestiniana.

Os palestinianos são, portanto, as "vítimas das vítimas". É verdade que existem diferenças notáveis ​​entre os judeus — em particular, os europeus — que morreram nos crematórios nazis e os palestinianos que morrem diariamente nos Territórios oitenta anos mais tarde. Se excetuarmos alguns episódios pouco conhecidos de resistência organizada contra a ofensiva nazi (embora altamente significativos, como o que ocorreu no gueto de Varsóvia no final da Segunda Guerra Mundial), os judeus não tiveram praticamente hipóteses de contra-atacar e desferir golpes ao inimigo, ao passo que os palestinianos criaram movimentos como o Hamas.

Também é preciso dizer que, como escreve Pankaj Mishra em "The World After Gaza" (sem tradução portuguesa por enquanto), os líderes palestinianos estiveram quase sempre do lado errado da História. Primeiro, apoiando o fascismo e o nazismo a través do mufti de Jerusalém, Amin al-Husseini; depois, o marxismo-leninismo professado por boa parte dos membros da Organização para a Libertação da Palestina; finalmente, o islamismo radical apoiado e financiado pelo Irão.

A corrupta Autoridade Nacional Palestiniana é uma nulidade, mas não é menos verdade que Israel tem aniquilado, lenta e implacavelmente (desde os tempos de David Ben-Gurion, primeiro-ministro de 1948 a 1953), qualquer opção que não seja a luta armada, incentivando, sempre que possível, as lutas fratricidas nos Territórios.

Para boa parte dos israelitas, quer em 1947, quer em 2025, qualquer tipo de resistência palestiniana é terrorismo, e quaisquer alusões ao "crime dos crimes" contra os palestinianos é antissemitismo. Mas é tempo de desmascarar esta falácia, é tempo de chamar as coisas pelo nome e de aceitar que, mais cedo ou mais tarde, o mundo vai condenar, maioritariamente, o Israel de Netanyahu, do mesmo modo que hoje condena a Guatemala de Ríos Montt ou o genocídio em Timor-Leste.

A flotilha de Greta Thunberg e as medidas de Pedro Sánchez são atos de resistência e protesto contra o horror, gestos simbólicos que dão voz a milhões de pessoas, de todos os cantos do planeta, que não acreditam numa narrativa de "legítima defesa". "Uma coisa é proteger o teu país e outra, muito diferente, é bombardear hospitais e deixar morrer à fome crianças inocentes", declarou Sánchez na segunda-feira passada. "Isto não é defender-se, não é nem sequer atacar, é exterminar um povo indefeso e violar todas as leis do direito internacional", rematou.

Colunistas

Mais Colunistas