Bob Vylan, Kneecap, canções de "morte" a israelitas e Glastonbury: entenda a polémica

CNN , Jennifer Hansler e Billy Stockwell
30 jun 2025, 20:12
Bob Vylan atua no West Holts Stage, durante o Festival de Glastonbury, em Worthy Farm, Somerset (Yui Mok/PA/Getty Images via CNN Newsource)

Os membros do duo britânico de rap punk Bob Vylan viram os seus vistos revogados pelos Estados Unidos e estão a ser investigados pela polícia local, depois de terem levado uma multidão a entoar “morte” aos militares israelitas num festival de música no Reino Unido, no passado fim de semana.

Na segunda-feira, o vice-secretário de Estado norte-americano, Christopher Landau, declarou que o Departamento de Estado “revogou os vistos dos membros da banda Bob Vylan à luz da sua tirada odiosa em Glastonbury, incluindo liderar a multidão em cânticos de morte”.

Acrescentou na rede social X que “os estrangeiros que glorificam a violência e o ódio não são visitantes bem-vindos ao nosso país”.

De acordo com uma publicação no Instagram, o grupo estava programado para fazer uma digressão nos EUA a partir do final de outubro.

O Departamento de Estado norte-americano instituiu uma política agressiva de restrição e revogação de vistos por alegado apoio ao terrorismo e ao antissemitismo.

O rapper Bobby Vylan subiu ao palco West Holts, o terceiro maior do Festival de Glastonbury, no sábado, gritando “Palestina livre, livre”, antes de levar a multidão a entoar cânticos contra os militares israelitas. O vídeo mostra o rapper a gritar ao microfone: "Muito bem, mas já ouviram esta? Morte, morte às IDF (Forças de Defesa de Israel)".

O artista também atuou em frente a um ecrã que exibia uma mensagem com os seguintes dizeres: "As Nações Unidas chamaram-lhe genocídio. A BBC chama-lhe ‘conflito’", referindo-se à emissora pública do Reino Unido que exibiu o festival em direto.

Numa publicação feita já no domingo através do Instagram, intitulada “Eu disse o que disse”, Bobby Vylan afirmou ter recebido “mensagens de apoio e de ódio” na sequência da sua atuação.

“Ensinar os nossos filhos a defender a mudança que querem e precisam é a única forma de tornar este mundo num lugar melhor”, lê-se na publicação. “À medida que envelhecemos e o nosso fogo começa a apagar-se sob o sufoco da vida adulta e de todas as suas responsabilidades, é extremamente importante que inspiremos as gerações futuras a pegar na tocha que nos foi passada”.

A CNN contactou Vylan para comentar o assunto, mas não obteve resposta atè à publicação deste artigo.

Os cânticos de Bob Vylan no festival também suscitaram protestos entre as principais autoridades britânicas, e a polícia britânica está a analisar as imagens de vídeo do seu espetáculo. O primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer, afirmou que “não há desculpa para este tipo de discurso de ódio terrível”.

A embaixada de Israel no Reino Unido afirmou estar “profundamente perturbada” com o que chamou de retórica “inflamatória e odiosa” no festival.

Um porta-voz da BBC disse à CNN que alguns dos comentários feitos durante a atuação de Vylan foram “profundamente ofensivos”. A emissora transmitiu a atuação do rapper em direto, mas disse que não tinha planos para disponibilizar a atuação a pedido através da sua plataforma de streaming iPlayer.

Esta segunda-feira, a BBC admitiu que, “em retrospetiva”, a atuação de Vylan deveria ter sido retirada do ar durante a atuação, afirmando que a empresa “respeita a liberdade de expressão, mas opõe-se firmemente ao incitamento à violência”.

“Os sentimentos antissemitas expressados por Bob Vylan foram totalmente inaceitáveis e não têm lugar nas nossas ondas de rádio”, acrescentou a emissora.

A música de Bob Vylan incorpora uma variedade de géneros com letras que frequentemente confrontam questões sociais como o racismo, o sexismo e a desigualdade económica.

Atuação da Kneecap

Antes do festival de música de cinco dias, todas as atenções estavam viradas para o trio de hip-hop irlandês Kneecap, depois de o membro da banda Liam O'Hanna - que atua sob o nome artístico de Mo Chara - ter sido acusado no mês passado de crime de terrorismo, na sequência de uma investigação da Polícia Metropolitana de Londres.

A acusação, que o artista negou, está relacionada com um concerto em Londres, em novembro de 2024, em que alegadamente exibiu uma bandeira do Hezbollah - uma organização terrorista proibida pela legislação britânica. Antes do festival em Worthy Farm, Starmer disse que não era “apropriado” que o grupo atuasse.

Durante a atuação no mesmo palco, no sábado à tarde, Chara disse ao público que os acontecimentos recentes tinham sido “stressantes”, mas que não eram nada em comparação com “aquilo por que o povo palestiniano está a passar”.

O rapper Naoise Ó Cairealláin, que dá pelo nome artístico de Móglaí Bap, respondeu ao comentário de Starmer durante a atuação de sábado: “O primeiro-ministro do vosso país, não do meu, disse que não queria que tocássemos, por isso, que se lixe o Keir Starmer”.

A polícia de Somerset, onde se realiza o festival, disse que, depois de analisar as imagens de vídeo e áudio das atuações das duas bandas, determinou que “são necessários mais inquéritos” e abriu uma investigação criminal sobre o assunto.

A investigação ainda está numa fase inicial, reiterou a polícia, acrescentando que as autoridades “irão considerar atentamente toda a legislação apropriada, incluindo a relativa a crimes de ódio”.

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