Em Israel, as famílias dos reféns dos ataques de 7 de outubro ergueram um campo de protesto com arame farpado e acusam o governo de Benjamin Netanyahu de os manter presos em nome da “sobrevivência política” e para agradar à extrema-direita
No coração de Telavive, sob o calor de agosto e o peso de quase 10 meses de silêncio do Governo, centenas de pessoas voltaram a juntar-se na Praça dos Reféns. Desta vez, não chegaram só com cartazes e palavras de ordem — trouxeram também arame farpado. À semelhança dos filhos, pais, irmãos ou companheiros ainda detidos na Faixa de Gaza, sentaram-se dentro de um recinto improvisado, como se também eles vivessem um cativeiro sem prazo.
A imagem é simbólica. E dura. Chega poucos dias depois da divulgação de dois vídeos que mostraram, pela primeira vez em meses, os rostos — e sobretudo os corpos — de dois reféns israelitas em cativeiro: Evyatar David e Rom Braslavski. Ambos surgem visivelmente debilitados, frágeis, consumidos pelo tempo e pela clausura. Para os familiares, a prova irrefutável de que a espera acabou, tem de acabar.
“Nos últimos dias, vimos os vídeos devastadores do Rom e do Evyatar em cativeiro”, disse Einav Zangauker, mãe de Matan Zangauker, também ele entre os reféns desde os ataques de 7 de outubro. De pé, diante da multidão e do campo de arame farpado, usou uma forte expressão: “Os nossos filhos estão a viver um novo Holocausto”.
E foi mais longe, apontando diretamente ao primeiro-ministro. “Os judeus estão a ficar pele e osso por causa da sobrevivência política”, afirmou, referindo-se às acusações que pesam sobre Benjamin Netanyahu: de estar a prolongar a guerra para manter o apoio da ala mais radical do seu governo e assegurar a sua permanência no poder. “Se não os libertarmos agora, não sobreviverão por muito mais tempo”, afirmou Einav.
O Fórum das Famílias dos Reféns — que lidera as manifestações semanais — reforçou esse apelo num comunicado dirigido tanto ao governo israelita como à administração norte-americana. “Olhem-nos nos olhos — a nós e aos nossos entes queridos. O perigo é real e imediato. A cada dia, o risco de morte aumenta. É tempo de um acordo total e do fim da guerra. Chega de adiamentos. Chega de os deixarem para trás. Acabem com este pesadelo e tragam-nos para casa.”
A divulgação dos vídeos foi feita por dois grupos distintos. A Jihad Islâmica Palestiniana divulgou primeiro o vídeo de Rom Braslavski; no dia seguinte, o Hamas publicou imagens de Evyatar David.
Nenhuma das famílias deu autorização para a partilha dos vídeos — e alguns desses excertos foram depois disseminados nas redes sociais, levando a irmã de Evyatar a criticar quem os divulgou. Mesmo assim, reconheceu o impacto: “Quem viu o vídeo percebe finalmente a gravidade da situação e o estado físico em que ele se encontra.”
Na Praça dos Reféns, a frase que mais se ouviu este sábado foi uma só: “Estão a morrer em cativeiro”. E o tempo, dizem os que ali estavam, já não corre — apenas pesa.