“Malditos sejam!” No funeral de Itay, o filho militar morto, o pai Ruby apontou ao Governo de Netanyahu, “que é responsável pelo 7 de Outubro”

9 nov, 14:58
“Malditos sejam!” No funeral de Itay, o filho militar morto, o pai Ruby apontou ao Governo de Netanyahu, “que é responsável pelo 7 de outubro”

Entre as coroas e a terra ainda húmida, Ruby Chen pediu respostas e nomes, exigiu uma comissão de inquérito “já” e, olhando o representante do executivo nos olhos, deixou um aviso que não cabe numa sala de governo: “Vocês só têm perseguido honra, poder, dinheiro e artimanhas”. Segunda-feira Benjamin Netanyahu será ouvido na Knesset sobre a criação de uma comissão de inquérito estatal às falhas de segurança do 7 de Outubro

A cerimónia começou baixa, com o murmúrio dos salmos e o silêncio difícil de quem sabe que Itay Chen, soldado das Forças de Defesa de Israel, morto na guerra e só agora, na semana passada, trazido de Gaza, não voltará a atravessar o portão de casa. Mas subiu de tom quando o pai, Ruby, tomou a palavra. À frente da fileira de autoridades, deteve-se no ministro da Aliá e Integração, Ofir Sofer, ali como rosto do Governo de Benjamin Netanyahu, e acusou diretamente: “Os seus colegas de coligação só têm perseguido honra, poder, dinheiro e artimanhas”. 

Depois, foi mais longe e interpelou diretamente o ministro, referindo-se aos membros da coligação governamental: “Peço-lhe: traga-os aqui, ligue-me, e caminharemos juntos neste lugar sagrado e visitaremos [o coronel Asaf] Hamami e os outros heróis para os pôr na linha, ou mandamo-los embora, malditos sejam!” O nome de Asaf Hamami, coronel morto em 2023, foi chamado por Ruby como emblema dos “heróis” que "ficaram pelo caminho". Mas a raiva vinha de trás: Ruby diz que o filho foi induzido em erro pelos seus comandantes — disseram-lhe que a próxima grande batalha seria no norte, “não em Gaza” — e que, antes disso, houve políticos que “não quiseram ouvir os comandantes do exército”, os que avisaram do perigo “à porta do Estado de Israel” e pediram unidade, um travão à temperatura do discurso público.

No campo aberto do cemitério, o luto virou acusação direta: Ruby apontou o dedo aos “comandantes que, a 7 de Outubro, ficaram para trás” e aos “políticos que deviam ter sido os adultos responsáveis e são os principais responsáveis". “Vamos atrás de todos eles e não pararemos até que sejam obrigados, sob juramento, a dar respostas a cada israelita e a assumir responsabilidades — tudo no âmbito de uma comissão de inquérito estatal. Uma nação inteira está agora de pé à espera de respostas, à espera de que a justiça seja feita e vista com aqueles que são responsáveis pela catástrofe”, disse sem peias nem teias Ruby Chen.

Entre agradecimentos a quem ajudou a trazer o corpo — citou nomes da esfera norte-americana como Jake Sullivan, Steve Witkoff, Jared Kushner e o atual vice-presidente dos EUA, JD Vance —, Ruby fixou também o que, para ele, é o princípio de qualquer vitória: “Começa com a decisão de trazer de volta o último dos reféns, para abrir a porta a um futuro melhor”. 

Ao lado, Hagit Chen, a mãe, prestou continência com ele diante da campa. No fim, o aplauso quebrou o código não escrito de funerais discretos.

Do lado do Governo, quem ouviu no local foi Ofir Sofer, ministro da pasta que trata da imigração judaica e da integração de novos cidadãos e figura de uma coligação que o pai de Itay responsabiliza pelo que aconteceu a 7 de outubro de 2023, quando o Hamas atacou e expôs falhas que o país ainda discute. Essa discussão terá amanhã, segunda-feira, palco formal no Parlamento.

Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro, vai sentar-se na Knesset para um debate das “40 assinaturas” — um mecanismo que a oposição pode acionar uma vez por mês e ao qual o chefe do Governo é legalmente obrigado a comparecer — sobre a criação de uma comissão de inquérito estatal às falhas de segurança do 7 de Outubro. 

A iniciativa é do Yesh Atid, o partido do líder da oposição, Yair Lapid, com o apoio das restantes fações oposicionistas. “Após 765 dias”, acusa-se no comunicado, o executivo “continua a recusar a comissão que as famílias pedem”. O Governo tem-se defendido com dois argumentos: primeiro, que “investigar em tempo de guerra seria inadequado”; depois, que uma comissão dessas “não seria imparcial” por os seus membros serem nomeados pelo presidente do Supremo, Isaac Amit. 

Em outubro já houve um debate idêntico, sem decisão final. Amanhã, na Knesset, a política terá de dizer se está disposta a ouvir o que hoje se gritou junto à terra batida.

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