Um assassínio não reivindicado tornou ainda mais perigosa a "temperatura" mundial: dúvidas, medos e certezas
Se Israel fez este "atentado no Irão, não procedeu de uma forma nem sequer próxima do estabelecido no artigo 51.º"
Como se executa uma operação como a que matou Ismail Haniyeh ("e podemos antecipar uma invasão terrestre do sul do Líbano")
"Que golpe letal no Hamas. Os próximos dois dias são críticos"
"Foi um míssil tão preciso que atingiu o quarto onde Ismail Haniyeh dormia." E ainda: "O lugar dos monstros do Hamas é no inferno"
"Objetivo: extermínio completo da liderança do Hamas." Mas atenção: "Ismail Haniyeh, assassinado, era dos mais moderados"
Ismail Haniyeh, um dos líderes do Hamas, foi assassinado no Irão - que acusa Israel e promete vingança ("os invasores terroristas vão arrepender-se deste ato cobarde"). Israel não reivindicou o ataque, os EUA dizem que não têm qualquer envolvimento. A Rússia alerta que o Médio Oriente está "a balancear-se para o início de um conflito global” e que a culpa é do "desejo maníaco" dos EUA de monopolizarem o processo político da região. A Turquia pede "uma posição mais forte do mundo islâmico". A tensão é total
1. O que se sabe?
A notícia surgiu às primeiras horas do dia e o anúncio foi feito pelo próprio Hamas: “O irmão líder, mártir combatente Ismail Haniyeh, líder do movimento, morreu em resultado de um ataque traiçoeiro sionista na residência em Teerão”. O Hamas acrescenta que a informação foi avançada pela Guarda Revolucionária do Irão na televisão estatal do país. Ismail Haniyeh foi assassinado por volta das 2:00 no Irão (23:30 em Portugal Continental), de acordo com a imprensa iraniana, que acrescenta que Haniyeh estava hospedado numa "residência especial para veteranos de guerra no norte de Teerão". "Mais investigações estão a decorrer e, em breve, serão anunciados novos detalhes", cita a Reuters. O assassínio não foi reivindicado por Israel nem por nenhuma entidade até ao momento da publicação deste artigo. Refira-se que a 7 de outubro, no seguimento dos ataques do Hamas que mataram 1.200 pessoas e fizeram cerca de 250 reféns, Israel prometeu matar Ismail Haniyeh e outros líderes do Hamas. A notícia da morte de Haniyeh chega depois de Telavive ter confirmado que matado o chefe militar do grupo xiita libanês Hezbollah, Fuad Shukr, e o assessor dele, Hassan Nasrallah.
2. O que muda?
O risco de o conflito no Médio Oriente escalar para fora das imediações da Faixa de Gaza é agora ainda mais elevado, como espelha a reação do Hezbollah: Israel “quer guerra e nós estamos prontos para ela”. Certo é que as tensões entre Telavive e os libaneses dos Hezbollah já estavam altamente inflamadas, mas agora as ameaças estão a vir de várias direções. O líder supremo do Irão, Ali Khamenei, classificou o incidente como “ato criminoso e terrorista preparado pelo regime sionista” e que “é dever iraniano vingar o assassínio em território da República Islâmica do Irão". "A República Islâmica do Irão vai defender a integridade territorial, a sua honra, o seu orgulho e a sua dignidade, e vai fazer com que os invasores terroristas [Israel] se arrependam do ato cobarde", disse também o Presidente iraniano, Massoud Pezeshkian. A Guarda Revolucionária iraniana também se pronunciou e garantiu que “o Irão e a frente de resistência vão responder a este crime". Por fim, a posição do Catar, pela voz do primeiro-ministro, Mohammed bin Abdul Rahman Al Thani: "A abordagem de assassínios políticos levanta a questão de como podem as negociações ter sucesso quando um dos lados assassina o negociador do outro?”, disse, acrescentando que “a paz precisa de parceiros sérios e uma posição global contra o desrespeito pela vida humana”.
3. Que riscos há?
O assassinato de Ismail Haniyeh gerou e continua a gerar reações em várias partes do globo. Hamas, Hezbollah, Houthis, Irão, Iraque, China, Catar e Turquia condenaram o ataque e prestam condolências pelo morte do líder do político do Hamas.
RÚSSIA
Alerta que o Médio Oriente está à beira de uma guerra maior. “A região está atualmente a balancear para o início de um conflito global”, diz Andrei Nastasin, porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia, acrescentando que “os envolvidos continuam a aumentar a parada”. O Kremlin culpa o “desejo maníaco” dos Estados Unidos e acusa os norte-americanos de estarem a monopolizar o processo político de entendimento no Médio Oriente e inflamar a situação.
CHINA
A China condena o assassínio de Ismail Haniyeh. A Reuters cita o Ministério dos Negócios Estrangeiros da China, que olha para este incidente com elevada preocupação - e afirma que a China sempre defendeu uma resolução do conflito do Médio Oriente através do diálogo e das negociações. "Devem alcançar um cessar-fogo o mais cedo possível para que se evite uma escalada do conflito e uma confrontação ainda maior."
EUA
Antony Blinken assegura que EUA não estiveram envolvidos no assassínio de Haniyeh. O secretário de Estado norte-americano refere também que os norte-americanos não receberam qualquer aviso prévio sobre o ataque ao líder político do Hamas. Antony Blinken, citado pela Reuters, diz ainda que considera “vital” um cessar-fogo em Gaza e a consumação total da libertação dos reféns israelitas: “É a melhor maneira de fazer a temperatura voltar a descer”.
TURQUIA
O presidente turco, Tayyip Erdogan, sublinha que este assassínio não vai quebrar a vontade palestiniana e apelou a uma "posição mais forte do mundo islâmico".
"Condeno e repudio veementemente o assassínio traiçoeiro do presidente político do Hamas, Ismail Haniyeh, em Teerão.
Trata-se de um ato desprezível que visa perturbar a causa palestiniana, a gloriosa resistência de Gaza e a justa luta dos nossos irmãos palestinianos, bem como desmoralizar e intimidar os palestinianos.
O objetivo do assassínio do irmão Ismail Haniyeh é o mesmo que o dos repugnantes ataques contra o sheik Ahmed Yasin, Abdulaziz Al Rantisi e muitas outras figuras políticas de Gaza; no entanto, a barbárie sionista não conseguirá atingir os seus objetivos como tem feito até agora.
Esperemos que, com a posição mais forte do mundo islâmico e a aliança da humanidade, o terror infligido por Israel à nossa geografia, especialmente a opressão e o genocídio em Gaza, chegue definitivamente ao fim e a nossa região e o nosso mundo encontrem a paz.
Por esta razão, enquanto Turquia, continuaremos a tentar todos os meios, a empurrar todas as portas e a apoiar os nossos irmãos palestinianos com todos os nossos meios e todas as nossas forças. Continuaremos a trabalhar para a criação de um Estado da Palestina livre, soberano e independente, baseado nas fronteiras de 1967, com Jerusalém Oriental como sua capital.
Que Deus tenha piedade do meu irmão İsmail Haniye, que foi martirizado em resultado do hediondo ataque; ofereço as minhas condolências aos nossos irmãos de Gaza e palestinianos e ao mundo islâmico.
Que Deus vos abençoe com o seu paraíso e a sua beleza."
Hamas Siyasi Büro Başkanı İsmail Heniye’ye yönelik Tahran’da gerçekleştirilen kalleş suikastı şiddetle kınıyor ve lanetliyorum.
Bu suikast; Filistin Davasını, Gazze’nin şanlı direnişini ve Filistinli kardeşlerimizin haklı mücadelesini akamete uğratmaya, Filistinlilerin moralini…
— Recep Tayyip Erdoğan (@RTErdogan) July 31, 2024
