Entre o legado de Aga Khan IV, Karim Al-Husseini, é destacado o seu trabalho em prol da paz e do diálogo. As suas palavras vão sempre no sentido de olhar a diferença como uma riqueza
No bairro de Benfica, entre vias rápidas, ergue-se o Centro Ismaili. Inaugurado em 1998, é aqui que está o templo da pequena comunidade ismaelita portuguesa. Na cerimónia de inauguração esteve Jorge Sampaio, então Presidente da República, e o Aga Khan IV, líder espiritual dos ismaelitas de todo o mundo.
Em Portugal, a comunidade ismaelita ronda as dez mil pessoas. Mas no mundo são mais de 20 milhões. Aga Khan IV que morreu recentemente, em Lisboa, ganhou o reconhecimento de líderes de todo o mundo por causa da rede para o desenvolvimento que ganhou, consigo, uma dimensão mundial.
A rede para o desenvolvimento de Aga Khan já foi chamada de Nações Unidas privada porque tem no seu centro o combate à pobreza e a promoção da saúde, educação e cultura no mundo inteiro.
Esta comunidade religiosa discreta insere-se dentro do Islão xiita. “É no fundo o grupo dos indivíduos que na descendência de Ali, através de um seu filho, Hussein, reconhecem a legitimidade da liderança da comunidade. Portanto, não é uma religião autónoma. É parte do Islão com algumas particularidades. E a particularidade maior tem a ver justamente com a importância carismática do imã e com uma centralidade maior da figura do neto do profeta, Hussein, que foi morto em Karbala, em 680”, conta à CNN Portugal Hermenegildo Fernandes, professor na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
Foi nesse 10 de outubro de 680 que Hussein foi morto e o dia do massacre é ainda hoje assinalado em Karbala, no Iraque. Hussein é filho de Ali, genro do profeta Maomé. É na legitimidade de Ali para suceder a Maomé que começa a divisão do Islão entre sunitas e xiitas. Os sunitas são entre 87 a 90% da comunidade muçulmana. Os xiitas são entre 10 e 13%.
Os xiitas defendem a legitimidade de Ali em suceder ao profeta do Islão. E é aqui também que começa a história dos ismaelitas, minoritários entre os minoritários xiitas. Mas depois, ao longo do tempo, irão divergir também dos seus irmãos xiitas. “O xiita maioritário é o chamado Islão duodecimano e o Islão ismaelita é um Islão que se separa antes. E basicamente partilha com o xiita duodecimano os seis primeiros imãs, mas que a partir do sétimo imã segue uma outra via que é a via de Ismail Jafar, que seria para os ismaelitas o sétimo imã. E isso acontece no século VIII. É uma coisa muito remota”, explica o professor especialista no Islão.
Esta divisão, que separou os ismaelitas dos outros xiitas, deixou-os a contar imãs até hoje. Karim al-Hussein, o líder espiritual dos ismaelitas que morreu no passado dia 4 de fevereiro, era o 49.º imã que, acreditam, seria descendente direto do profeta Maomé.
Na história deste ramo do Islão, há ainda o momento em que esta linha se transforma num sistema político. “Isso acontece no século X quando um dos imãs toma o poder na Ifríquia, o nome árabe da África romana que corresponde à atual Tunísia, e funda um Califado Fatímida. Estes imãs são fatímidas e opõem-se ao califa sunita de Bagdade. E esse califado vai fazer durante o século X um caminho e vai conquistar o Egito. E muda-se para o Cairo”, conta Hermenegildo Fernandes.
Assim continua a sua história até perto do século XII, antes do desaparecimento do Califado Fatímida: “O Califado Fatímida desaparece, é vítima de um golpe de estado feito por um dos seus generais que tornar-se–á uma figura muito famosa do Islão sunita, Saladino, em 1171. Mas pouco menos de 100 anos antes, há mais um grupo destes aderentes a este ramo que se separa porque reconhece um outro imã que é filho de um dos califas fatímidas que é o imã Nizar. E é essa via do imã Nizar que dará origem à via ao que nós chamamos os ismaelitas”, esclarece o professor.
É nestas origens que nasce esta comunidade dispersa por vários Estados. A comunidade ismaelita sem estado é transnacional antes do conceito.
“Nós em termos contemporâneos diríamos que se trata de uma comunidade transnacional. Porém, ela já é transnacional antes de haver esse conceito de nação e antes de haver o conceito de transnacionalidade. É uma comunidade que não está ligada à existência de um Estado que vive noutros sistemas políticos, mas que se reconhece numa comunidade espiritual. Ou, sobretudo, uma comunidade espiritual que se reconhece em torno de uma liderança de um imã em que todos os ismaelitas deste ramo se reconhecem autonomamente do sítio onde estejam”, refere.
Num Islão que não separa o religioso do político, o imã aparece como o homem de um Estado que não existe, mas que tem uma comunidade que lidera. “É um homem de Estado de facto no sentido em que o líder religioso no interior do Islão é necessariamente aquilo que nós chamamos um homem de Estado”, explica Hermenegildo Fernandes.
Neste caso o homem de Estado é Aga Khan, um título de rei que só começou a ser usado a partir do século XIX. Mas, numa comunidade dispersa pelo mundo, o princípio que seguem é de respeito pelos costumes e leis do país onde se inserem com um entendimento muito próprio sobre a jihad, a luta contra o inimigo. “A jihad tem uma dimensão iminentemente metafórica. É uma luta contra os próprios demónios, os demónios internos. Não é uma atividade militar. E há alguns autores que entendem que o ismaelismo é uma corrente iminentemente pacifista”, conclui o professor universitário.
De resto, entre o legado do Aga Khan IV, Karim Al-Husseini, é destacado o seu trabalho em prol da paz e do diálogo. As suas palavras vão sempre no sentido de olhar a diferença como uma riqueza. Em 2016, numa Conferência Mundial em África. Karim Al- Husseini dizia: “O facto de ser diferente é frequentemente visto como um peso ou uma ameaça, uma fonte de medo e suspeita. Mas há outro caminho para olharmos para as nossas diferenças. Que coisa maravilhosa e libertadora seria se mais gente entre nós, mais vezes pudéssemos ver a diversidade, não como um peso, mas como uma bênção. Não como uma ameaça, mas como uma oportunidade.”
Num mundo onde ganham peso os discursos de ódio contra a diferença, as palavras do líder espiritual dos ismaelitas faziam uma grande diferença. O seu filho Rahim será o Aga Khan V e todos esperam que lhe siga as pisadas.
