A Islândia prepara-se para decidir se retoma as negociações de adesão à União Europeia (UE), num referendo marcado para 29 de agosto. Mais do que uma escolha sobre a relação de Reiquiavique com Bruxelas, a votação acontece num momento de profunda transformação geopolítica no Atlântico Norte e pode ter consequências para a própria dinâmica de alargamento da União. Para os islandeses, pode ser o início de uma nova relação com a Europa; para a UE, pode ser a chegada de mais uma peça estratégica ao projeto europeu
Para o vosso cronista, pensar em assuntos relacionados com a Islândia é ser transportado para as sensações auditivas de ouvir The Sugarcubes, Björk ou Sigur Rós, com a sua música a evocar paisagens etéreas, desconhecidas e inesperadas. Esse fascínio é ampliado pelas vistas alienígenas que a ilha proporciona, como se fossem parte de um planeta que não o nosso, e pelo encanto das auroras boreais no Atlântico Norte. Recentemente, porém, o interesse tem-se virado mais para a resposta à questão que será apresentada aos islandeses no dia 29 de agosto: “Á Ísland að hefja á ný aðildarviðræður við Evrópusambandið?”.
Em outubro de 2024, a Islândia era governada por uma coligação entre o Partido da Independência (centro-direita), o Partido Progressista (centro) e o Movimento Esquerda/Verde. Essa coligação ruiu devido a divergências profundas sobre as políticas de imigração e energia, o que levou o então Primeiro-Ministro Bjarni Benediktsson a convocar eleições antecipadas para 30 de novembro de 2024.
Após as eleições, uma nova coligação emergiu, liderada pela Aliança Social-Democrata, em conjunto com o Partido da Reforma Liberal e o Partido do Povo (de centro-esquerda). Entre as propostas de governação estava a realização de um referendo sobre a retoma das negociações de adesão da Islândia à EU com a pergunta (apresentada acima): “Devem as negociações de adesão da Islândia à União Europeia ser reatadas?”. A proposta teve de ser submetida ao Parlamento islandês, que a aprovou no final de maio de 2026.
O processo de adesão da Islândia à UE tinha sido suspenso em dezembro de 2013, quando o Partido da Independência e o Partido Progressista, no poder, assumiram uma postura abertamente cética em relação à adesão à UE, cumprindo a promessa eleitoral de suspender formalmente as conversações com Bruxelas. As principais razões apresentadas na altura prendiam-se com a independência e a autonomia do país, mas também com questões mais prosaicas, como a Política Comum das Pescas, particularmente o acesso às águas islandesas e as quotas de pesca.
Porém, as ações da Rússia na Ucrânia e nas fronteiras da UE, a retórica de Donald Trump no seu segundo mandato relativamente à Gronelândia e as tensões comerciais com os Estados Unidos provocadas pelas tarifas fazem com que os islandeses estejam mais recetivos à ideia de aprofundar a sua integração numa união de países com interesses comuns. Esta seria uma extensão daquilo que já têm: a Islândia já faz parte do Espaço Económico Europeu e do Espaço Schengen. Esta dinâmica tem sido comparada, e de forma correta, com o que observámos na Suécia e na Finlândia aquando da sua adesão à NATO.
Se o “Sim” vencer no referendo, a Primeira-Ministra Kristrún Frostadóttir e o seu Governo terão luz verde para negociar temas sensíveis como as pescas, mas também a agricultura e o futuro da króna islandesa. Estará ainda em causa a aplicação do acervo legislativo europeu no país, que implica a transferência de competências em áreas-chave para as instituições europeias, bem como a aplicação do princípio da primazia do Direito da União sobre o direito nacional.
Para a UE, a entrada da Islândia abriria um novo capítulo nas preocupações de segurança do continente. A Islândia ocupa uma posição estratégica no chamado GIUK gap, o corredor marítimo entre a Gronelândia, a Islândia e o Reino Unido, um componente essencial para questões de autonomia estratégica e o pilar europeu de defesa. Existe também a questão da segurança energética e da infraestrutura de cabos submarinos de telecomunicações, ambas fundamentais para o continente.
No entanto, este é apenas o primeiro passo num processo mais exigente. Quando um acordo de adesão entre Reiquiavique e Bruxelas estiver concluído, terá de ser submetido a um segundo referendo, desta vez sobre a adesão à UE, para uma decisão final dos islandeses.
A construção do projeto europeu continua a avançar rapidamente, como é o caso de Montenegro, que, em junho e julho de 2026, nas Conferências de Adesão, encerrou provisoriamente vários capítulos do processo de adesão. Em junho, foram os capítulos 2, sobre Livre Circulação de Trabalhadores, e 28, sobre Proteção da Saúde e do Consumidor; em julho, os capítulos 8, sobre Política de Concorrência, e 29, sobre União Aduaneira.
Com a Islândia, podemos também ter a “queda de mais um dominó” no quadro da UE, com possíveis implicações para a Noruega, acelerando ainda mais a entrada de novos Estados-Membros e a revisão dos Tratados para mudar a forma como a União opera e é governada. Tudo isto ao mesmo tempo que os populistas e extremistas continuam determinados a deitar tudo a perder, se lhes derem a oportunidade.
Para os islandeses, depois de muitos anos de ‘It’s oh so quiet’ é altura de entrar em regime de ‘Hyperballad’: “Já – klárum samninginn!” Sim, finalizem o acordo. Os europeus que querem uma Europa mais unida e forte estão prontos para receber os nossos amigos da Terra de Fogo e Gelo.
