Informado em todas as frentes, sem interrupções?
TORNE-SE PREMIUM

Isaltino chamou “sem-vergonha mentiroso” a Ventura e Ventura prometeu “agrafá-lo”. Agora Isaltino volta em força: o dinheiro de “André Tutti-Frutti” tem de ser investigado

20 set 2025, 12:00
André Ventura vs. Isaltino Morais

“Achas que metes medo? Aqui ninguém tem medo de ti. Ainda por cima, vens dizer que se fosses primeiro-pinistro me prendias. És mesmo ditador, assim se vê cair a máscara do democrata”, contra-atacou o atual presidente e candidato à Câmara de Oeiras. Será que André Ventura responde à crítica de que é um “mentiroso cobarde”? 

Bastaram um minuto e 56 segundos de vídeo para Isaltino Morais incendiar as redes sociais.

Na noite de sexta-feira, o presidente da Câmara de Oeiras, que se recandidata ao cargo, dirigiu-se a “Andrézito” — assim o tratou — com uma série de acusações que iam do historial no PSD ao financiamento do Chega. Tudo com a cadência de quem não queria deixar nada por dizer: “O líder do Chega não é antissistema; ele é o pior que o sistema gerou. Ele é uma excrescência do sistema partidário português”.

O ataque não caiu do nada. Vinha de trás, mais precisamente de terça-feira, do estúdio da CNN Portugal. Aí, Isaltino já tinha aquecido o tom. “André Ventura mente sem vergonha nenhuma e as pessoas acham que aquilo é talento”, atirou. Chamou-lhe, ainda, “a reencarnação do pior que o sistema tem” e mostrou-se “admirado” com o “fascínio de jornalistas e comentadores” pelo deputado e candidato às Presidenciais.

Ventura não é homem de engolir ofensas sem devolvê-las amplificadas.

Menos de vinte e quatro horas depois, fez eco no seu palco favorito: as redes sociais. A teatralidade habitual foi condensada num refrão repetido à exaustão — “pára, pára, pára tudo” — até chegar ao alvo: “O Isaltino Morais, sim, sim, o Isaltino Morais que vocês conhecem, disse que eu era um mentiroso e que se houvesse mais portugueses como ele, o Chega não intimidava ninguém.” A réplica tinha o tom de ameaça que lhe é reconhecido: “Se o Chega mandasse, a diferença é que tu ainda estavas preso.” E foi mais longe. “Depois de nos teres andado a gamar, não andavas em liberdade para dizer essas baboseiras. Tu e muitos da tua laia, que sabem que se eu ganhar, se o Chega ganhar, vão ser agrafados. Mas o vosso tempo vai chegar.”

Uma mensagem direta, com a prisão como mote e a ideia de purga como bandeira. O habitual no discurso de Ventura. Ventura alimenta-se destas cenas: quanto mais se polariza o debate, mais fácil lhe é consolidar a imagem de homem de povo enfrentando um “establishment” que — no seu discurso — conspira contra o eleitorado.

Isaltino não se encolheu no vídeo de sexta-feira. E carregou, também ele, na tecla da Justiça e no passado partidário do adversário: ‘O André Ventura foi inventado no PSD pelo famoso grupo do Trutti-Frutti. Esse era o seu grupo no PSD, devia mesmo ser conhecido pelo 'André Tutti-Frutti'". 

A “Operação Tutti-Frutti” abriu portas a um enredo de suspeitas que vão do tráfico de influências à corrupção, passando pela participação económica em negócio. No centro, dirigentes do PS e do PSD em câmaras municipais e juntas de freguesia. Nas margens, André Ventura. Na altura vereador do PSD em Loures, o agora líder do Chega viu o seu gabinete ser alvo de suspeitas de contratação de assessores-fantasma. Entre os nomes apontados estavam Rodrigo Taxa — hoje deputado do Chega — e Eric Habibo. Ambos recebiam salário público, mas não havia registo claro de trabalho feito. O Ministério Público investigou, fez buscas ao gabinete e acabou por arquivar essa parte do processo, por falta de indícios suficientes.

Mas voltando às acusações de Isaltino. Não ficou por aí: acusou o Chega de esconder as contas — ‘ninguém sabe de onde vem o dinheiro’ — e pediu às autoridades que “investiguem a origem do financiamento do partido”. 

O financiamento do Chega tem sido alvo de polémica desde cedo: multas do Tribunal Constitucional por irregularidades nas contas, denúncias de ex-dirigentes sobre dinheiros mal explicados, atrasos e falta de detalhe na publicação de receitas e despesas. André Ventura responde sempre no mesmo registo — fala em "perseguição política" e garante que o sistema "teme o crescimento do partido" — mas as sombras permanecem, alimentando adversários que exigem investigação judicial. É o caso de Isaltino Morais, agora. 

No fecho, o autarca endureceu ainda mais o tom, sublinhando que a disputa já não era pessoal, mas sobre a liberdade de todos: “Estás nervoso, Andrézito? Estás habituado a intimidar jornalistas e adversários? Achas que metes medo? Aqui ninguém tem medo de ti. Ainda por cima, vens dizer que se fosses Primeiro-Ministro me prendias. És mesmo ditador, assim se vê cair a máscara do democrata”.

E, como epílogo de uma narrativa que Ventura transforma sempre em combustível político — é expectável nova resposta —, ficou a última sentença de Isaltino: “És um mentiroso cobarde, que enfrenta o povo rodeado de seguranças, que se faz de forte com os imigrantes, quando a polícia te protege. Mentiroso e cobarde, André, o populismo vai ter de enfrentar os democratas com coragem para te combater. Não passarás, Andrézito, não passarás.” A troca não é apenas pessoal. É uma espécie de exercício performativo onde cada insulto e cada ameaça servem para confirmar identidades: Isaltino como democrata vigilante; Ventura como líder providencial que promete ordem pelo braço pesado.

Informação em todas as frentes, sem distrações? Navegue sem anúncios e aceda a benefícios exclusivos.
TORNE-SE PREMIUM

Política

Mais Política