A promessa do Benfica que fez o último jogo aos 19 anos

1 abr, 10:51
Isaac Fernandes

Fustigado por lesões, Isaac Fernandes passou por uma transformação espiritual, trabalhou no Lidl e está na Suíça a colocar isolamento em telhados

«Depois do Adeus» é uma rubrica dedicada à vida de ex-jogadores após o final das carreiras. O que acontece quando penduram as chuteiras? Como subsistem os que não ficam ligados ao futebol? Críticas e sugestões para o email vhalvarenga@tvi.pt.

A 24 de fevereiro de 2015, dia em que ajudou o Benfica a vencer o Liverpool (2-1) nos oitavos de final da UEFA Youth League, Isaac Fernandes estava longe de imaginar que esse seria um dos últimos jogos da sua curta carreira.

O jovem lateral direito tinha 19 anos, cumpria a sétima temporada de ligação ao clube encarnado e arrancara recentemente elogios de Jorge Jesus em treinos da equipa principal.

Porém, menos de dois meses após aquele confronto com os «reds», Isaac entrou pela derradeira vez num relvado de futebol para um jogo oficial, na goleada dos sub-19 do Benfica ao Vitória de Guimarães (5-0). O calendário assinalava a data de 18 de abril de 2015.

Há muita história para contar antes e depois desse dia que fica marcado na curta jornada futebolística de Isaac Fernandes. Em poucas linhas, explica-se que o lateral foi fustigado por lesões, desde o primeiro treino no Benfica, e não conseguiu dar o salto para uma equipa sénior, após tentativas frustradas no Stoke City e no Slovan Bratislava.

Entretanto, começou a trabalhar no Lidl do Carregado e iniciou um processo de transformação espiritual. Recentemente, em setembro de 2021, o antigo jogador viajou para a Suíça e dedica-se atualmente ao isolamento e impermeabilização de telhados, varandas, etc.

Voltemos ao início deste percurso, a um sonho que foi ganhando forma quando Isaac Fernandes trocou o Carregado pelo Benfica, ainda como sub-13, em 2008. «Na altura do Carregado, tinha o Sporting e o Benfica interessados em mim. O FC Porto também apareceu mais tarde, mas o Benfica foi o mais insistente e acabei por ir para lá. No primeiro ano, ia treinar a Lisboa e voltava todos os dias ao Carregado. A partir do segundo ano, passei a morar na Academia do Seixal», explica, ao Maisfutebol.

O lateral direito saiu de casa ainda com 13 anos, deixando para trás um ambiente restritivo.

«Os meus pais, que adoro muito, são testemunhas de Jeová e incutiram muito a religião aos filhos. Eu, por exemplo, só disse um palavrão aos 15 anos. Acho que sempre tive esse peso dentro de mim e só comecei a conhecer outras realidades quando fui morar para o Seixal. Mas sou grato por tudo o que os meus pais me proporcionaram e pela educação que me deram, para não seguir outros caminhos.»

 

O Benfica permitiu a Isaac Fernandes alargar horizontes, mas os indícios de um final pouco feliz começaram a surgir desde o primeiro instante. «Olhe, lesionei-me logo no primeiro treino que fiz no Benfica. Acho que foi um sinal. Seguiram-se sete anos com imensas lesões, todas as épocas, e nunca eram lesões ligeiras, eram sempre para algumas semanas ou meses», desabafa.

«Nem tudo foram coisas más, ainda assim. Quando estava bem, jogava e era encarado como uma promessa. Aliás, eu, o Gonçalo Guedes e o Romário Baldé éramos as maiores apostas na nossa geração, da geração de 96. Um dos maiores momentos foi ter sido campeão de juvenis em 2013 e termos feito a festa no Olival, quando empatámos com o FC Porto (1-1), com um golo do Gonçalo Guedes», diz o antigo lateral.

Na primeira época como júnior, tapado por jogadores mais velhos como Rafael Ramos e Alexandre Alfaiate, Isaac Fernandes saiu por empréstimo para a AD Oeiras. No segundo ano, o derradeiro da sua carreira, o lateral fixou-se no plantel encarnado e andou entre o céu e o inferno.

«Comecei a época a titular no Benfica e estava também na seleção sub-19, com o Edgar Borges, que gostava de mim. Lembro-me perfeitamente de estar com o Gonçalo Guedes ao meu lado e dizer-lhe que me estava a doer o pé esquerdo. Fizeram-me exames, detetaram que tinha o pé rachado e estive três meses de fora.»

Isaac Fernandes voltou à competição em janeiro de 2015 e ainda foi a tempo de disputar dois jogos inesquecíveis na UEFA Youth League, frente a Liverpool (2-1) e Shakhtar Donetsk (1-1, 4-5 nas g.p.), numa equipa que misturava os maiores talentos de 1996 com os de 1997, como Rúben Dias, Renato Sanches, João Carvalho ou Diogo Gonçalves.

«Depois desse jogo com Shakhtar, entrei no onze ideal da jornada, como melhor lateral direito. Tínhamos o jogo controlado e só foi pena aquele penálti falhado do Romário Baldé, à Panenka, que nos daria a vitória. Mas fui muito observado nesses jogos, sobretudo pelo treinador da equipa B do Stoke City.»

Por essa altura, entre os períodos de afastamento por lesão, o jovem lateral direito já tinha treinado com o plantel principal do Benfica, às ordens de Jorge Jesus.

«Cheguei a ir treinar com a equipa principal e lembro-me que o Jorge Jesus ficou encantado. Fizemos um exercício de um para um e levei com o Jonas, mas dei tudo, não virei a cara à luta e fui muito elogiado. Estavam lá o Franco Jara, o Maxi Pereira, todos a dizerem-me “é isso mesmo, miúdo!” O Jesus até perguntou ao Fábio Cardoso mais coisas sobre mim»

O lateral direito cumpria a última temporada como júnior do Benfica, mas era o único titular sem contrato profissional. Um reflexo das sucessivas lesões ou algo mais?

«Até hoje, não sei. Sei que até os meus treinadores e colegas estranhavam isso. Nessa altura, o diretor era o Armando Jorge Carneiro, que tinha sido o meu primeiro empresário, mas nunca vieram falar comigo para assinar contrato profissional. E sinceramente, depois de saber que tinha outros clubes como o Stoke City interessados, não me preocupei muito com isso, até porque sabia que o Jorge Jesus não era muito de apostar em jovens», reconhece.

Isaac Fernandes realizou o último jogo pelo clube encarnado a 18 de abril de 2015, frente ao Vitória de Guimarães (5-0), e fez as malas: «O treinador do Stoke City B disse ao meu empresário que eu só precisava de ir lá treinar duas semanas antes de assinar. Mas perto do fim desse prazo, um rapaz irlandês fez-me uma entrada brutal, na zona do tendão de Aquiles.»

«Deram-me uma injeção, parecia estar bem e voltei a treinar, mas o mesmo rapaz deu-me novamente no mesmo sítio, não sei se foi apenas coincidência ou não, e lesionei-me de vez. Tive de ficar vários meses parado e vim embora. Foi pena, porque chegámos a fazer um jogo-treino com a equipa principal e defrontei jogadores como o Crouch, o Shaqiri, foi sensacional», salienta.

O jovem regressou a Portugal e contou com a ajuda do Benfica para recuperar de nova lesão. «Nessa altura falei com o Nuno Gomes e o Benfica ajudou-me a recuperar. Entretanto, no final de janeiro de 2016 fui para o Slovan Bratislava, da Eslováquia. A equipa estava a realizar um estágio da Turquia, cheguei lá e, no primeiro treino, fiz uma rotura no menisco esquerdo», desabafa.

Já perdeu a conta às lesões de Isaac Fernandes? É natural. Aos 20 anos, o jogador via-se num beco sem saída.

«Fui operado em Portugal, tentei recuperar, mas não consegui. Nos dois anos seguintes, ainda tentei voltar a jogar, mas sem sucesso. Fui a quatro médicos diferentes e só um me disse que havia a possibilidade de voltar a jogar, sem garantias, mas para isso acontecer sugeria uma nova operação. Eu não podia pagar a operação e desisti.»

Por essa altura, Isaac Fernandes já tinha voltado ao Carregado e trabalhava no supermercado Lidl, experiência que durou cerca de quatro anos, entre 2017 e 2021. «Comecei a trabalhar lá porque não queria depender dos meus pais, mas foi um período em que ainda pensava no futebol e em que passei por uma transformação completa», salienta.

«Não diria que entrei numa depressão, mas passei por um processo de grande questionamento. Acreditei desde novo que o futebol era o caminho, que eu dependia daquilo. Entretanto comecei a questionar-me, porque o futebol tinha saído do meu horizonte e também não acreditava na religião dos meus pais. Passei por uma fase de entendimento filosófico e compreendi o porquê das lesões. Acredito que foram uma forma de me dizer que aquele não era o meu destino», diz o ex-jogador.

Isaac considera que as sucessivas lesões foram uma consequência natural da falta de estrutura mental: «O insucesso no futebol deveu-se sobretudo às lesões, mas não só. Reconheço que havia da minha parte alguma imaturidade, ou melhor dizendo falta de estrutura mental, e isso manifestou-se nas lesões. Mas nunca fui jogador de facilitar. Em temos de trabalho, de entrega, sempre fui dos melhores. Enfim, é parte do passado e estou muito grato ao que o futebol e o Benfica me deram.»

À distância, desde a Suíça, a antiga promessa do Benfica explica o seu processo de desenvolvimento pessoal, o interesse pela programação neurolinguística, pela astrologia e pela meditação.

«Lembro-me do dia em que fui a uma astróloga, na altura em que tive mais lesões, e ela descreveu na exatidão o que me aconteceu, sem me conhecer. Disse-me que aquele não era o meu destino. A partir daí, comecei a estudar astrologia. Tirei igualmente um curso de programação neurolinguística, ou seja, tive uma transformação de identidade tremenda.»

Por isso, por tudo isso, Isaac Fernandes não guarda rancor em relação ao curto percurso no futebol. «Aquilo que se abriu depois de a porta do futebol se ter fechado vale mais que os milhões que podia ter ganho», atira, sem hesitação.

Em setembro de 2021, depois de ter concluído a sua etapa profissional no Lidl, o antigo jogador do Benfica decidiu mudar de ares e rumou à Suíça: «Uns meses antes, no meu mapa astral, já dizia que provavelmente ia para o estrangeiro. Foi isso mesmo que aconteceu. Num retiro de meditação, uma rapariga encantou-se comigo e disse ao meu amigo que organiza retiros para me levar para a Suíça.»

«A verdade é que fui mesmo parar à Suíça, onde tenho família, depois de dois amigos meus dos tempos do Lidl me falarem bem das condições que tinham aqui. Parecia que estava destinado. Cheguei e arranjei emprego passados cinco dias, graças ao primeiro currículo que entreguei», frisa Isaac Fernandes.

Sete anos depois de ter disputado o seu último jogo oficial, Isaac leva uma vida completamente diferente na zona de Lausanne, na Suíça. «Estou numa empresa que trata do isolamento/impermeabilização de telhados, varandas, etc. Colocámos mantas asfálticas e já me meteram a soldar, mas ainda não tenho o título oficial da função, ainda sou ajudante», diz.

«Tenho feito isto mas é um trabalho duro, transportar sempre aqueles rolos pesados... o meu joelho esquerdo não aguenta com dores. Nunca ficou em condições. Já decidi que no dia 12 de abril vou voltar a Portugal. Quanto ao futuro, vamos ver o que me reserva. Há a possibilidade de voltar para a Suíça, mas ainda não decidi. Está tudo em aberto», remata Isaac Fernandes, atualmente com 26 anos.

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