Este é o único erro que Trump ainda não cometeu em relação ao Irão

CNN , Stephen Collinson
4 ago, 06:45
Donald Trump (Francisco Seco/AP)
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Trump está preso numa guerra que não pode perder nem vencer

A menos que Donald Trump encontre uma forma de sair do impasse em que se colocou relativamente ao Irão, a História poderá vir a considerar a decisão de entrar em guerra como um erro que marcou de forma decisiva a sua presidência.

Mas, até agora, evitou um potencial erro de consequências desastrosas: intensificar massivamente o conflito para além da sua capacidade de o controlar.

A História mostra que os presidentes que agravam guerras na tentativa de encontrar uma saída, ou para proteger o próprio prestígio ou a reputação dos Estados Unidos, entram numa espiral difícil de travar. No Vietname, no Iraque e no Afeganistão, fizeram-no muitas vezes contra vontade, em conflitos que já não podiam vencer.

Não é a primeira vez que Trump se encontra perante uma encruzilhada tripla numa guerra agora alimentada pela recusa do Irão em render-se ou negociar seriamente.

• Se a diplomacia continuar a falhar, estará disposto a prolongar indefinidamente a campanha, até agora inconclusiva, de ataques aéreos, cessar-fogos frágeis e bloqueios marítimos norte-americanos e iranianos, que se prolonga sem pôr fim à guerra?

• Ou avançará para uma ofensiva norte-americana mais intensa, levantando as suas próprias limitações e indo além de alvos essencialmente militares para atingir infraestruturas e bens civis iranianos, cruzando o Rubicão e recorrendo a tropas terrestres em operações limitadas?

• A terceira opção seria profundamente dolorosa: aceitar que o melhor para si e para os Estados Unidos seria reduzir perdas e abandonar o conflito sem alcançar os seus principais objetivos.

Cada uma destas hipóteses implica respostas políticas e estratégicas difíceis de aceitar, o que explica por que razão Trump continua preso numa guerra que não se pode dar ao luxo de vencer, mas também não pode perder. É revelador da situação dos Estados Unidos o facto de o Pentágono ter pedido a um grupo de analistas militares novas ideias sobre como punir o Irão, segundo uma reportagem exclusiva da CNN.

Trump ameaça com a “decapitação” do Irão

A frustração de Trump ficou evidente na sua conta da Truth Social na segunda-feira, depois de o Irão rejeitar a sua mais recente tentativa de aproximação. O Presidente tinha suspendido ataques devastadores prometidos para o fim de semana, depois de voltar a afirmar, pela enésima vez, que um acordo poderia estar iminente.

“A liderança iraniana é incrivelmente dúbia!”, escreveu Trump, ecoando ironicamente as críticas feitas pela República Islâmica à sua diplomacia baseada na pressão. Durante a tarde, voltou às ameaças. “Esta é a última oportunidade que têm para assinar um bom documento”, afirmou na Sala Oval.

Mas o aviso de que o Irão enfrentaria uma “decapitação” levanta outra questão: o que fará Trump se Teerão voltar a ignorá-lo?

Qualquer escalada significativa por parte dos Estados Unidos seria uma aposta arriscada, uma vez que não há sinais de que os bombardeamentos consigam forçar o Irão a regressar às negociações.

É provável que Teerão responda a ataques contra pontes, centrais elétricas e outras infraestruturas atingindo alvos semelhantes nos territórios dos aliados dos Estados Unidos no Golfo e agravando o impacto económico da guerra. Líderes regionais terão levantado precisamente este cenário junto de Trump durante o fim de semana. “Estávamos prontos para avançar. E eles ligaram. Além disso, ligaram a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos e o Qatar”, afirmou.

Em teoria, Trump poderia utilizar a Marinha norte-americana para reabrir à força o Estreito de Ormuz. No entanto, isso exporia os navios dos Estados Unidos a mísseis e drones. Operações terrestres contra o terminal petrolífero da ilha de Kharg ou para afastar as forças iranianas do estreito poderiam revelar-se particularmente sangrentas.

Os últimos 60 anos demonstram que as consequências aumentam exponencialmente quando uma guerra aérea evolui para uma guerra terrestre. O conflito passa a ser visto de outra forma pelos norte-americanos, as baixas aumentam e os custos políticos tornam-se mais elevados, algo que Trump não pode ignorar a poucas semanas das eleições intercalares. Além disso, quando soldados morrem na procura de uma estratégia de saída, esses sacrifícios podem, paradoxalmente, prolongar o conflito, porque não podem parecer ter sido em vão.

Muitos presidentes norte-americanos enfrentaram momentos semelhantes ao de Trump. Embora as guerras do Vietname, Iraque, Afeganistão e agora o conflito com o Irão tenham começado de formas diferentes, todas acabaram reduzidas à mesma equação: manter um mau status quo, escalar o conflito ou abandonar a guerra.

E nenhum presidente quer ser recordado por ter perdido uma guerra.

O ex-presidente Lyndon Johnson e o ex-presidente George W. Bush. Getty Images

Como Johnson e Bush entraram numa espiral de escalada

Em 1965, o Presidente Lyndon B. Johnson debateu-se com a continuação da Guerra do Vietname, herdada de John F. Kennedy após o seu assassínio. “Já começámos a bombardear estas pessoas; esse obstáculo já foi ultrapassado”, disse Johnson ao secretário da Defesa, Robert McNamara, numa observação que apresenta algumas semelhanças com a escolha estratégica de Trump. “Não acredito que exista algo pior do que perder. E não vejo qualquer forma de vencer”, afirmou.

Apesar disso, Johnson autorizou a Operação Rolling Thunder, intensificou os bombardeamentos sobre o Vietname do Norte e enviou dezenas de milhares de jovens norte-americanos para o conflito. Deveria, segundo muitos historiadores, ter ouvido o subsecretário de Estado George Ball, que num memorando sem data alertava que, uma vez sofridas baixas, os Estados Unidos ficariam presos num processo “praticamente irreversível” e enfrentariam uma “humilhação nacional” caso interrompessem a guerra antes de atingir os seus objetivos.

Ball, que antecipou o desfecho, defendia que a continuação da guerra causaria mais danos à liderança global norte-americana do que uma solução de compromisso cuidadosamente preparada.

O conflito acabou por destruir as esperanças de Johnson de conquistar um segundo mandato eleito, levando Richard Nixon a herdar a guerra após vencer as eleições de 1968. Muitos historiadores consideram que Nixon e Henry Kissinger já tinham concluído que a vitória era impossível, mas optaram por continuar a guerra para criar condições para uma retirada e evitar a imagem de uma derrota dos Estados Unidos.

“Se, quando chega o momento decisivo, a nação mais poderosa do mundo, os Estados Unidos da América, agir como um gigante impotente e desamparado, as forças do totalitarismo e da anarquia ameaçarão as nações livres e as instituições livres em todo o mundo”, declarou Nixon a 30 de abril de 1970, ao justificar a expansão da guerra para o Camboja. Durante a sua presidência morreram mais de 20 mil militares norte-americanos no Vietname. As últimas tropas de combate abandonaram o país em 1973 e a evacuação final ocorreu em 1975, já sob Gerald Ford.

Mais de três décadas depois, George W. Bush fez o seu próprio discurso em tempo de guerra. Reconheceu erros cometidos, mas advertiu em 2007 que “o fracasso no Iraque seria um desastre para os Estados Unidos”, anunciando o envio de milhares de militares adicionais para apoiar as forças iraquianas.

A História ainda não chegou a um consenso sobre essa decisão. A estratégia de contra-insurgência produziu resultados em algumas zonas, mas permanece a dúvida sobre se as baixas norte-americanas se justificaram, uma vez que os Estados Unidos acabariam por retirar totalmente do país.

Barack Obama foi eleito com a promessa de pôr fim às chamadas guerras eternas dos Estados Unidos. Contudo, oito anos após os atentados de 11 de setembro que levaram à intervenção no Afeganistão, anunciou igualmente um reforço de tropas para travar o avanço dos talibãs e eliminar a Al-Qaeda. Consciente da armadilha da escalada que envolveu Johnson, Nixon e Bush, prometeu iniciar a retirada em meados de 2011. Os críticos sustentam que esse calendário incentivou os adversários dos Estados Unidos a esperar pela sua saída.

Trump chegou ao poder a condenar precisamente este tipo de guerra

As intervenções militares prolongadas dos Estados Unidos moldaram as críticas contundentes de Trump, que o ajudaram a conquistar a Casa Branca em 2016. Quatro dias antes de ser eleito Presidente, atacou “guerras que nunca acabam, guerras que nunca vencemos”.

Contudo, durante o primeiro mandato, ordenou também um reforço de tropas no Afeganistão numa tentativa de pôr fim ao conflito. “O meu instinto original era retirar as tropas — e, historicamente, gosto de seguir os meus instintos”, afirmou. Menos de três anos depois, responsabilizou o seu primeiro secretário da Defesa, James Mattis, pela decisão: “Dei-lhe mais homens durante algum tempo e não resultou.”

Agora, Trump enfrenta outro daqueles momentos solitários que descreveu no discurso sobre o Afeganistão, em 2017: “Toda a minha vida ouvi dizer que as decisões são muito diferentes quando se está sentado atrás da secretária da Sala Oval.”

A guerra com o Irão não é a guerra de Bush. É a guerra de Trump. E será ela a determinar o seu legado, bem como o destino de muitas vidas para além da Casa Branca.

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