Depois de terem recusado cantar o hino nacional iraniano - um gesto interpretado como traição pelos setores mais radicais do país - algumas jogadoras foram vistas a fazer o sinal internacional de pedido de ajuda com as mãos já dentro do autocarro da equipa
No meio de receios quanto à sua segurança, cinco jogadoras da seleção feminina de futebol do Irão deixaram o hotel da equipa na Austrália e estão atualmente em segurança com a polícia, disse uma fonte à CNN Sports.
As jogadoras, que têm estado a disputar a Taça Asiática Feminina na Austrália, estão no centro de crescentes apelos para que a sua saída do país seja impedida por receio de perseguição no Irão, o seu país de origem, que está em guerra com os EUA e Israel sob um novo Líder Supremo de linha dura.
Antes do seu primeiro jogo na segunda-feira passada, as jogadoras permaneceram em silêncio durante o hino nacional iraniano, um gesto que não chegaram a explicar, mas que foi interpretado por alguns setores mais radicais dentro do Irão como um sinal de traição.
Fontes disseram à CNN Sports que foram obrigadas a cantar o hino nacional antes do seu segundo jogo na quinta-feira e, no domingo, antes da derrota por 2-0 frente às Filipinas, voltaram a cantar o hino e fizeram uma saudação militar.
Após a derrota no seu último jogo do torneio no domingo, apoiantes reuniram-se à volta do autocarro da equipa, entoando gritos de revolta à polícia: “Salvem as nossas raparigas."
Hadi Karimi, um defensor dos direitos humanos e membro da comunidade iraniana local, disse que os apoiantes do lado de fora do autocarro puderam ver claramente pelo menos três jogadoras lá dentro a fazer o sinal internacional de pedido de ajuda com as mãos.
No entanto, uma fonte próxima da equipa manifestou ceticismo à CNN quanto ao facto de as membros da equipa saberem o que esse sinal representa.
Na segunda-feira, Karimi acrescentou que havia esperança de que outras jogadoras se juntassem agora às cinco colegas que estão atualmente com a polícia, acrescentando que era “uma notícia incrível” que algumas jogadoras tivessem conseguido sair.
A CNN contactou a Polícia Federal Australiana e os Departamentos de Assuntos Internos e dos Negócios Estrangeiros australianos para obter comentários.
A situação das jogadoras chegou também a Reza Pahlavi, filho do xá deposto do Irão, que se juntou aos apelos para que o governo australiano garanta a sua segurança, alertando numa publicação no X que enfrentarão “consequências graves” se regressarem ao Irão.
“Como resultado do seu corajoso ato de desobediência civil ao recusarem cantar o hino nacional do atual regime, enfrentam consequências graves caso regressem ao Irão”, escreveu Pahlavi naquela rede social. “Apelo ao governo australiano para garantir a sua segurança e dar-lhes todo o apoio necessário.”
The members of the Iranian Women’s National Football Team are under significant pressure and ongoing threat from the Islamic Republic. As a result of their brave act of civil disobedience in refusing to sing the current regime’s national anthem, they face dire consequences should…
— Reza Pahlavi (@PahlaviReza) March 8, 2026
Uma fonte próxima da equipa disse à CNN que algumas pessoas presentes no jogo de domingo estavam lá por razões políticas para mobilizar apoio para Pahlavi como possível futuro líder do Irão.
O organismo que governa o futebol mundial, a FIFA, disse à CNN Sports na segunda-feira que também está em contacto próximo com as partes relevantes, incluindo a Confederação Asiática de Futebol (AFC), que organizou o torneio em que o Irão jogou na semana passada.
“A segurança da seleção feminina do Irão é uma prioridade para a FIFA e, por isso, mantemos contacto próximo com a AFC e com as autoridades australianas relevantes, incluindo a Football Australia, relativamente à situação da equipa”, disse um porta-voz da FIFA.
Um desafio seguido de silêncio
A equipa feminina iraniana tem estado a disputar a Taça Asiática Feminina na Austrália durante uma semana de turbulência para o seu país, enquanto o conflito com os EUA e Israel se intensifica e se estende a países vizinhos.
A guerra perturbou as viagens internacionais e, embora voar para o Médio Oriente neste momento seja difícil devido ao encerramento do espaço aéreo e ao risco de ataques aéreos, os apoiantes receiam que as mulheres sejam levadas para um terceiro país — possivelmente a China, a Rússia ou a Malásia — antes de uma viagem posterior para o Médio Oriente.
Craig Foster, antigo internacional australiano e defensor dos direitos humanos, disse que “várias organizações” tentaram falar com as jogadoras durante a sua estadia na Austrália, mas foi-lhes sempre negada essa oportunidade.
“Nenhum grupo de atletas deveria alguma vez ser efetivamente mantido refém pela sua própria federação e privado de acesso a redes externas de apoio”, disse. Acrescentou que, como as jogadoras foram eliminadas da competição, a AFC tinha responsabilidade pelo seu bem-estar.
“A primeira coisa que a comunidade do futebol australiano lhes pede é que concedam acesso às jogadoras a redes de apoio seguras e culturalmente adequadas, para que possam expressar em privado e de forma confidencial se se sentem inseguras e o que gostariam que acontecesse”, disse.
A CNN contactou a AFC e a Federação de Futebol do Irão para obter comentários.
Beau Busch, presidente da FIFPRO Ásia/Oceânia, que representa jogadores de futebol na região, disse à ABC que não conseguiram contactar membros da equipa iraniana.
Embora isso seja “incrivelmente preocupante”, afirmou que o grupo já antecipava problemas após a repressão do regime iraniano contra manifestantes no início deste ano. “A nossa responsabilidade neste momento é fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para garantir que estão em segurança”, disse.
A ministra dos Negócios Estrangeiros da Austrália, Penny Wong, recusou comentar no domingo, quando questionada sobre se houve contacto entre autoridades australianas e as jogadoras iranianas. Disse que não queria “entrar em comentários sobre a equipa feminina iraniana”.
“Estamos solidários com os homens e mulheres do Irão e, em particular, com as mulheres e raparigas iranianas”, disse à emissora nacional ABC. “Obviamente, este é um regime que sabemos que reprimiu brutalmente o seu povo.”
Numa conferência de imprensa após o jogo no domingo, a treinadora do Irão, Marziyeh Jafari, disse que a equipa estava ansiosa por regressar a casa. “Pessoalmente, gostaria de regressar ao meu país o mais rapidamente possível e estar com os meus compatriotas e a minha família”, disse.
Karimi, que também é vice-presidente da Sociedade Iraniana de Queensland, disse que os apoiantes se reuniram à porta do hotel das jogadoras e, quando não conseguiram contactá-las devido à forte segurança, procuraram ajuda junto da polícia australiana local.
Na segunda-feira voltaram ao local, para ver se o autocarro sairia com as jogadoras a bordo rumo ao aeroporto. “Queremos que as separem da IRGC”, disse, referindo-se ao Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica.
“Separem-nas dos membros do regime islâmico e entrevistem-nas”, apelou.